Guardo o papá no bolso e a mamã no coração…

A minha loucura mais perene é a minha lucidez. A vida é um rio ornado por vazios estilhaçados. Quando chove, do rio desponta a vida e o vazio se afunda no lugar onde nunca existiu. Muitas vezes escrevo porque me sinto tacteando o silêncio, nas restantes namoro o proibido.

Até aqui muita «conversa para boi dormir», nem? Não perca paciência, tenho estas manias quando o que quero exteriorizar vem do fundo do coração. Já me endireito! Enquanto isso, despe-te e toma este banho. O meu coração chove gostoso.

A memória é a vida distribuída por outros tempos. Tudo o que os silêncios desta madrugada me fazem escutar são vozes doutras vidas. Talvez esta noite seja insuficiente para tanto sentimento. Contudo, todo meu sentimento despe-se e se deixa deitar nesta cama branca.

Hoje ocorre-me celebrar a vida. E a melhor forma que tenho para o fazer é lembrar e partilhar com os outros as minhas origens. É viver os meus pais. Com vocês, papá e mamã, aprendi muito mais que viver. Pouca coisa faz sentido neste texto incompleto. Mas uma é certa, chama-se saudade a ilha na qual me encontro exilado. Os mais literatos que me perdoem se isto fugir o domínio literário. Mas o que será a Literatura senão a vida em texto?

Ao longo desta minha caminhada por estas terras lusas é frequente me perguntarem o que os meus pais fazem. Há uma ideia de que quem cá vem estudar é filho de uma família abastada. Digo-lhes, sem vergonha, que sou filho de um motorista e de uma vendedeira informal. Com uma mistura de espanto e pena a lhes colonizar a face perguntam-me como fiz este percurso. A resposta é simples, o mérito é todo daquele casal pobre que me gerou. Na sua luta diária aprendi a amar, a ser temente a Deus, a respeitar o próximo e a correr atrás das coisas. Os meus pais são pobres em bens materiais, mas muito ricos em espírito. Deles me veio a lição mais importante desta vida, a nossa condição económica nunca deve ser barreira para sonhar.

Desde os meus primeiros anos de vida mesmo com os condicionalismos que sempre tiveram, os meus pais sempre se preocuparam em garantir que eu e os meus irmãos tivéssemos uma sorte diferente da que eles tiveram no que respeita à formação. O investimento na educação dos filhos sempre foi a prioridade deles. Dos seus filhos eu fui o único que ainda teve a sorte de frequentar um centro infantil. Para um motorista e uma vendedeira informal que para além de garantir que a renda da casa era paga e que não faltava comida na mesa, acrescentar aquela despesa era um fardo. Mas eles levaram a ideia à diante e permitiram que eu fosse uma criança privilegiada e a minha formação iniciasse mais cedo.

As vantagens de uma criança frequentar um centro infantil antes de ser introduzida no ensino primário são tantas. Pode não funcionar do mesmo modo para todas as crianças, porque cada ser é uma substância individual. Mas, temos de concordar que uma criança que frequente um centro infantil tem um desenvolvimento cognitivo diferente da que o seu processo de formação apenas inicia com seis anos no ensino primário. Enfim, dissertar sobre este assunto não cabe a este solilóquio.
Parece tacanho escrever um texto porque os meus pais me matricularam numa creche. Mas isso é só um exemplo. Expresso neste palavreado o meu agradecimento por no meio de tanta adversidade terem sempre investido na minha educação e me darem asas para sonhar. Naquele centro infantil, que poderia ser visto como uma banalidade, tive o primeiro contacto com o mundo das artes. Lá tive contacto com a poesia, com a música, até com a dança, esse bicho de sete cabeças para mim.

Todos os centros infantis têm uma cerimónia de fim do ano onde as crianças apresentam alguns números culturais. Numa dessas cerimónias declamei um dos meus primeiros poemas, do qual a memória apenas reteve um verso: «Guardo o papa no bolso e a mamã no coração». Digo-vos papá e mamã, quer seja no bolso, quer seja no coração, sempre vos tenho comigo.

 


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