Há que evitar o prolongamento da crise humanitária em Sofala

No Domingo vamos completar exactos 30 dias desde que o ciclone Idai passou pela Zona Centro do País, deixando um rasto de devastação de que Moçambique não tem memória. A tempestade viria a ser agravada com cheias que batem todos os recordes e agravaram ainda mais o nível de destruição e luto na província de Sofala.

À medida que o tempo passa e reduz o volume de notícias sobre as consequências destes fenómenos na vida de quase dois milhões de pessoas que foram afectadas, vai parecendo, no imaginário das sociedades que não foram afectadas, que a situação está controlada e que o momento crítico já passou. Essa ideia, que é natural, poderá nos levar a uma crise humanitária prolongada e com consequências nefastas para muitos dos nossos concidadãos.

No terreno, a situação continua a ser de emergência, ainda há muitas comunidades que estão isoladas, que nem de bicicleta ou motorizada é possível chegar até elas porque as vias de acesso estão intransitáveis. Ou porque ainda há água, ou porque caíram enormes árvores que bloquearam as vias ou estão demasiadamente danificadas que precisam de reparações. E porque as telecomunicações também ainda não estão restabelecidas, essas comunidades só podem ser identificadas através de contagens aéreas. Por isso, quase 30 dias depois ainda encontram-se comunidades que desde a tempestade não receberam qualquer tipo de ajuda ou assistência.

E por mais que tenham recebido qualquer tipo de apoio, as ajudas só podem chegar por via de helicópteros que não têm capacidade para levar muita quantidade de mantimentos, as povoações albergam muita gente e são numerosas e os meios aéreos para essas operações não são tantos assim.

Para evitar que a crise humanitária não se prolongue nas zonas rurais, o Governo precisa com carácter de urgência ter uma liderança política muito forte ao nível dos distritos severamente afectados para que possa acelerar o mapeamento de todas as povoações que precisam de ser assistidas, a quantidade de produtos necessários para as manter sem fome até elas puderem produzir nas suas machambas. Garantir a assistência médica, o acesso à água tratada e um dos aspectos mais importantes, distribuir sementes.

Há que ter em conta que as províncias de Sofala e Manica, que foram as que mais foram afectadas, têm índices de seroprevalência elevadas, o que significa que há portadores de HIV que estão há quase um mês sem fazer tratamento e a alimentarem-se inadequadamente, daí que mais do que duas brigadas médicas, que actualmente conseguem voar para povoados isolados, devia se aumentar o número.

Para evitar o prolongamento da crise humanitária, nas zonas rurais, é ainda crucial a distribuição de sementes de ciclo curto, porque assim as comunidades podem aproveitar a segunda época e produzirem a sua própria comida, o que equivale dizer que até Julho ou Agosto eles já podem fazer colheitas e passarem a ter o que comer. E a reposição das estradas poderá fazer com que em menos de um ano estas povoações voltem a ter rendimentos e refazem suas vidas.

Estas soluções funcionam para as zonas rurais, mas não são aplicáveis para a cidade da Beira. Aqui, para além das medidas de estímulos às empresas, para que se possam reconstruir vai ser preciso outro tipo de medidas, para reduzir o impacto da devastação na vida das pessoas que vivem na cidade.

É que para já todas as medidas que o Governo tomar e aplicar para reanimar a actividade das empresas, não vai, de forma alguma, evitar que as mesmas façam despedimentos massivos. O tempo que as empresas vão precisar para reconstruirem suas infra-estruturas, encomendar, importar e montar ou reparar a maquinaria danificada não pode manter trabalhadores ociosos. Até porque para se tornarem viáveis e recuperarem rapidamente precisam reduzir custos e pode passar por reduzir trabalhadores.

Pelo que, nos próximos meses, quem perdeu casa e maior parte dos seus bens, pode perder emprego e há que encontrar formas de minimizar o drama dessas pessoas que não serão poucas. Daí que, se calhar, uma das soluções podem ser encontradas no Instituto Nacional de Segurança Social. O Governo pode criar, de forma extraordinária, um subsídio de desemprego para aquelas pessoas que as empresas terão que despedir por conta da reestruturação para fazer face aos estragos causados pelo ciclone e cheias. Os beneficiários só devem ser pessoas despedidas, depois de 14 de Março, e que não tenha sido por motivos disciplinares e cessa no momento em que são readmitidas nas suas empresas ou outras.

A atribuição desse subsídio podia ser em estreita colaboração com as empresas e pode até ser 50% do que o trabalhador recebia antes do desastre. Entendo que sem este tipo de apoio aos trabalhadores a situação dos beirenses poderá ser dramática por muito mais tempo. E querer forçar as empresas a não diminuir pessoal por serem beneficiárias de incentivos pode vir a ser pior, porque não vão conseguir.

Portanto, de todas as formas, a sociedade moçambicana deve manter-se vigilante em relação à situação dos nossos concidadãos afectados pelo ciclone e pelas cheias porque vão precisar por mais tempo, do que podemos imaginar, da nossa ajuda e amparo.

Ao Governo Central, apelaria a não se dar por feliz com informações dadas pelos Governos locais porque muitas vezes escondem a realidade para dar a entender que estão a fazer um bom trabalho, cada informação tem de ser verificada no terreno porque a vaidade de um dirigente pode significar sofrimento de milhares de pessoas, quando até há condições de aliviar tal sofrimento, bastando o relato fiel do que está a acontecer no terreno. Este não é o momento de números bonitos, nem de vaidade de quem governa, é tempo de salvar pessoas e garantir que tenham dignidade e recuperem as suas vidas. É de pessoas que estamos a falar e não números.

Que Deus abençoe Moçambique!

 


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