Hoje é melhor não saíres da sala

Quando viu o que me tinha feito, deve ter-se mijado. Depois daquilo, para além dos cinco dedos estampados numa das esquinas do meu rosto, a raiva, quase a despejar-se, ficou uma eternidade a espreitá-lo por cada poro que existe no meu corpo. Não sou uma pessoa de ressentimentos, nunca fui. Mas aqueles cinco dedos fizeram, sem remorso, muito mais que me tatuar o rosto.

Para disfarçar este tempo cinzento e o frio que desassombrado come Lisboa debaixo da chuva, a cidade apressou-se a dar um toque mais reluzente às noites. Não pára, amor. Assuntos quentes são para pessoas corajosas. Não pára, amor. Mais dia, menos dia o Natal nos bate a porta e isto dança com todos nós. Não pára, amor. Já viste como se vai nos desembrulhando a voz neste diário de bordo? Não pára, amor. Temos de parar sim, segura esse fogo que já volto, tenho de continuar isto.

Não é preciso nenhuma boa memória para isto. Se fosse chapada de uma baby acho que me esqueceria disso e me apaixonava por ela. A sério, talvez até casava-me com a baby! Sabe-se lá como nascem as grandes famílias! Mas foi um gajo que me chapou. Uma mão bem dura tatuou-me a cara!

Não é fofoca, é curiosidade! Aquela tia, vice-ministra das dívidas ocultas, por que razão lhe chamavam de "3 beijos" na bolada?

Quando aquilo aconteceu, não era segredo nenhum que apanhávamos na escola. Eu andava na 7ª classe, naquela escola que desde sempre esteve degradada e até hoje continua à espera da boa vontade do governo. O toque de recolher às salas de aulas ressoou e o pátio ficou vazio. A cadeira que seguia após a pausa mais longa entre as aulas daquele dia chamava-se Artes e Ofícios. O homem que leccionava aquela aula era um cliente assíduo na nossa turma. Leccionava-nos, também, as aulas de Inglês e Educação Visual. Como todos os alunos da escola, eu também gostava daquele professor. O tipo vivia elogiando a minha inteligência, chamava-me Michelangelo. Devia ser o professor mais famoso da escola, não só pelo seu bom humor e interesse nas suas aulas que a sua forma de ensinar despertava em nós, mas também pela falta de preguiça que ele tinha para sovar a todos que se comportassem de forma diferente da que ele desejava.

Com a sua bata branca e a pasta em pele castanha suspensa numa alça pendurada num dos ombros, o homem entrou na sala e o burburinho que habitava a sala se silenciou. Não devia ter mais de 30 anos. Naquele dia o teacher quis ser mais original que nunca e decidiu vestir a máscara da cobardia. Usou-nos como seus brinquedos. Primeiro escolheu um grupo de alunos e os dividiu em pares, eu era um deles. Depois explicou o que se iria passar. Ele perguntaria o nome que se dá à casa de cada animal e quem errasse receberia uma chapada do seu colega. Não havia nenhuma escolha a fazer, o jogo era dele e ele determinava as regras.

Com toda sinceridade, eu não era das pessoas mais preocupadas com o fim daquela brincadeira. Conhecia uma série de animais e o nome que se dava a respectiva casa. Imbecil, foste confiante demais. Quase todos se chaparam lindamente, era garantido que seria assim. Quando chegou a minha vez o homem perguntou como se chamava a casa de sei lá que animal.

? Curral!

Não que eu não soubesse! Eu sabia e a autoconfiança exacerbada me fez cometer o disparate. A palavra estava dita e a sujidade feita. Ainda tentei emendar, mas estava feito. O meu par, que devia querer o meu rosto faz tempo, não me poupou, o estafermo levantou a mão e pousou-a com toda força na minha face.  Uma chapada bem quente, uma tatuagem de cinco dedos, cinco dedos e cubos de fumaça granulada a levitarem. A raiva, quase a despejar-se, ficou uma eternidade a espreitá-lo por cada poro que existe no meu corpo. O gajo ainda teve a coragem de acertar a pergunta dele! Com os olhos bem vermelhos, aproximei-me dele e disse:

? Hoje é melhor não saíres da sala!


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