
Movido por uma inexplicável paixão por serpentes, Rafo Diaz direcciona as suas atenções ao que descobriu ser o ponto final da sua arte. Em exposição que exalta o misterioso mundo dos répteis, o pintor peruano exprime a sua empolgante visão pela “serpente gigante”.
O fascínio que Rafo Diaz tem pelas serpentes fê-lo experimentar duas vidas em terra. Tudo começa quando o artista toma “ayahuasca” - uma infusão vegetal psicoactiva da Amazônia -, e explica que “tive uma sensação de sonho real: a certeza de ter dois corpos, vê-los e tocá-los. O que mais recordo são imagens, cores e o desdobramento. Dois corpos meus que atingiam um instante. Aceito, no entanto, que se tratava de mim e que estava ao lado do Xamã, o meu maestro, e recebia a sua voz de dois lugares, duas existências, duas identidades, duas memórias que, alheias, me soavam familiares.
“Afundei-me num sonho sem consciência, o mesmo que nas águas de um lago proibido. já com a cara sob a água, afundando-me por fim nesse lago que era riacho, consegui abrir os olhos e me vi... outra vez acordando”, diz.
Será a sua nacionalidade que o transformou num homem diferente? Talvez não fosse diferente, se considerarmos que quem vive nos arredores da Amazônia está sujeito a envolver-se na magia daquela floresta.
Amazônia fez de Rafo um homem apaixonado pelas serpentes. É como se tivesse estudado a sua filosofia, como se tivesse descoberto algo novo para o conhecimento do homem. Rafo mostra conhecer as serpentes como ninguém e faz uma ligação destas ao sentido da vida. “Se morde, a sua cauda significa união eterna, ainda que mora na terra, é também o senhor das águas, desliza com o movimento de uma onda, ou ascende pelos ramos das árvores, pendurando-se neles como uma fruta mortal”.
As suas pinturas e as suas viagens pelo mundo das serpentes mexem com a “estrutura” de alguns críticos. Joseph Conrado, crítico e professor de história da Arte em Miami, é um dos que tenta perceber Rafo Diaz. Diz que o pintor “faz da intuição a sua capacidade de marcar com linhas e cores a sua tendência, o seu afazer estético que dilui fronteiras e se estabelece numa contemporaneidade fundamentada na tradição, rito e religião”.
Rafo Diaz, que está em constante investigação de tudo o que envolve a serpente, não quer que o seu apego por este animal viva somente em si. O artista quer convidar os outros a “provarem do mesmo vinho”, daí estar a expor “Jibóia Gigante” no Centro Cultural Brasil-Moçambique. O artista revela que “Eu, das serpentes grandes não só tenho admiração por todo o misticismo e mistério que as rodeiam, como também pelo gosto dos padrões, dos desenhos das suas peles. Estas marcas, cores e formas extraordinárias levaram-me a descobrir e a ter uma visão diferente da minha própria arte, levando-me a mudar o estilo das minhas criações e a uma reflexão profunda sobre as minhas propostas artísticas, razões pelas quais eu, pessoalmente, sinto imensa gratidão pelas serpentes gigantes”.
Anastasio Lovo, poeta, novelista e crítico de literatura e arte, diz que Rafo Diaz possui um singular uso de gradações de cores cálidas, axacerbadas até à fosforescência, para conotar a transformação de uma realidade banal numa realidade alucinante.
Diaz parece ter encontrado na serpente o sentido último da sua arte. “Não só tenho admiração por todo o misticismo e mistério que rodeia as serpentes, como também pelos variados padrões e desenhos das suas peles. Esses padrões com cores e formas extraordinárias levaram-me a descobrir uma visão diferente da minha própria arte”.
As anteriores exposições - “O ritual e o mundano”, “Alma, coração e Vida”, “Visões”, “Do amor seus demónios”, “A consciência da dor”, “Serpente cósmica” - mostram o envolvimento de Rafo Diaz com as coisas sobrenaturais, com o espiritismo, é como se Rafo partilhasse a sua vida com um mundo inexistente, mágico. é por isso que Gustavo Buntinx, crítico e curador de arte peruano, acredita que no trabalho de Rafo Diaz há uma aproximação fecunda, concreta e real a essa modernidade popular diferente de situações ancestrais, como a experiência com “ayahuasca” e as antigas tradições dos povos amazónicos.
As jibóias gigantes têm estado presentes em muitas culturas da antiguidade, sempre rodeadas de misticismo e superstição. Os “druidas” celtas, egípcios, persas, índios orientais, asiáticos, mongóis, algumas tribos da polinésia e os indígenas americanos consideraram a jibóia gigante o símbolo da sabedoria, da saúde, da sexualidade da vida e da ressurreição.
A convicção de Diaz é de que “A jibóia é um animal que aparece e desaparece, que muda de pele e renasce. Se está enroscada formando um círculo representa o símbolo solar, a fonte da vida e do poder: o senhor do universo”.
Nascido no Peru e a viver actualmente em Moçambique, Rafo serve-se da exposição “Jibóia Gigante” para fazer um convite aos amantes das artes ao mundo das serpentes.
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