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“À Espera”: o drama dos casamentos prematuros

Filme de Nivaldo Vasconcelos e Sónia André foi, ontem, exibido em Maputo

Nivaldo Vasconcelos e Sónia André não precisaram de muito tempo. Vinte e cinco minutos foram suficientes para contar o drama dos casamentos prematuros no Niassa, vivido também noutros quadrantes de Moçambique e de África.

O documentário que exibe a vastidão esverdeada esconde, ao mesmo tempo, a dor de muitas famílias. Nos primeiros segundos do filme reina a narração de Sónia, que explica as motivações deste trabalho de pesquisa que foi feito em Abril do ano passado.

“Na minha terra, a mulher solteira é aquela que espera. Espera ter marido, ter lar, filhos, só assim ela cumprirá a sua função milenar, que é de trazer à terra os seus filhos, honrar o seu marido, seguir fertilizando o mundo…”, e continua uma voz, de uma mãe de 10 anos, que vive no Brasil, mas volta ao país que a viu nascer para compreender a prática que fere os direitos humanos.

Neste filme, as protagonistas – meninas grávidas e outras mães – não têm mais de 15 anos. Não só as meninas dão corpo a produção, mas também algumas personalidades, caso do governador de Niassa, Arlindo Chilundo, que tem conhecimento dessa prática, segundo o qual a taxa de desistência da rapariga na escola é muito alta, na medida em que, em cada 100 meninas, 12 desistem.

Este e outros episódios foram testemunhados na sala do Maputo Shopping, no lançamento do filme, na cidade de Maputo, ontem, por alunos, professores e activistas sociais, com destaque para a presença do ministro da Cultura e Turismo e da ministra da Educação e Desenvolvimento Humano.

Após a sessão de 25 minutos em pleno silêncio, o qual caracteriza as meninas que se casam de forma prematura, houve o momento de debate. Algumas pessoas do auditório intervieram e sublinharam alguns aspectos que coincidem com os objectivos do filme: a criminalização dos pais e encarregados de educação que permitem que as suas filhas se casem antes do tempo e com homens muito mais velhos; a consciencialização da sociedade moçambicana, sobretudo nos distritos recônditos, entre outros.

A submissão e o silêncio são as palavras-chave, já que a educação dessas meninas e a cultura não permitem interrogações, isso porque, depois dos ritos de iniciação, os pais pensam que as filhas já estão prontas para se casar. 

Para a realizadora, além da luta contra os casamentos prematuros, o filme condena as gravidezes precoces, que colocam muitas crianças em risco de vida. “Ver uma menina de nove anos morrendo a dar parto não foi fácil; ver uma menina perdendo útero, ovários e filhos também não foi fácil; foi pior ainda ver um silêncio absoluto das meninas por não saberem que têm voz”, partilhou Sónia com voz emocionada.

O filme, que já passou por Quelimane e Nampula, está a ser divulgado por todos o país, com enfoque nas escolas e comunidades.

Dunduro entende que filme é ponto de partida para a consciencialização

Para Silva Dunduro, este filme é um instrumento didáctico-pedagógico. “O que devemos fazer é nos apropriarmos dele como instrumento e passarmos para as plataformas electrónicas ou como um livro, para que os professores possam contemplar na sua planificação para as aulas. É importante que não seja só exibido em salas convencionais, mas também nas comunidades, não só nas escolas, mas também para os líderes tradicionais. Nós podemos falar com ela, e até a comunidade curvar-se perante nós, mas se não estiver envolvida, se não for actor principal, para que a própria comunidade influencie na mudança de atitude, será um trabalho inútil. Este filme é um ponto de partida para essa consciencialização”.

 

"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


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