Luís Bernardo Honwana lançou, ontem sua segunda obra intitulada “Velha Casa de Madeira e Zinco”
Será mesmo verdade que morreu o “cão tinhoso”? Foi, se calhar, essa dúvida que conduziu maior parte dos presentes à grande cerimónia do lançamento do mais recente livro de Luís Bernardo Honwana.
“A Velha Casa de Madeira e Zinco” é uma nova maneira de estar deste embondeiro da literatura moçambicana, que, tal o cão tinhoso matou os moçambicanos de saudades. Foi preciso passarem 53 anos para que o escritor se recordasse da “dívida” que esta arte cria. E agora, ainda que não seja necessariamente fruto de uma imaginação, decidiu pagá-la.
Alguns dirão que não a pagou totalmente ou que tenha criado outras dívidas, como os seus netos deixaram transparecer, ao oferecer-lhe dois cadernos, para que escreva mais dois livros. Os netos, esses, são claramente a metonímia de toda família Honwana e, porque não, da família moçambicana. Ainda que esta aventura não seja ficcional, até os leigos em literatura percebem a confusão que este livro cria não só para si como para a literatura moçambicana. Entenda-se o termo “confusão” como uma alusão ao debate, às questões que daí podem advir, como, por exemplo: por que não escreve outro livro? Isso porque, a partir de agora, os que não sabiam questionam-se: afinal, não tinha parado?
Pois, não tinha. Esta obra não compila só escritos recentes. Faz uma radiografia do seu pensamento sobre vários assuntos e momentos, assuntos esses já colocados a debate em várias plataformas. Eis aqui a coragem, referenciada por Aurélio Rocha, que permitiu ao cinquentenário escritor de “Nós Matamos o Cão Tinhoso” lançar outro livro.
A Estação Central dos Caminhos de Ferro de Maputo “rebentou pelas costuras”. Nem nas horas de ponta se nota tamanha enchente. Mas, diga-se, enchente seleccionada. O outro diria: culta. O certo é que foi uma plateia mista, mas reduz-se a uma única palavra: personalidades. Políticos (maioritariamente), artistas, activistas sociais e académicos viam-se em quase todas as filas.
A estação tornou-se, por quase três horas bem corridas, uma instituição política. Ainda que tenha havido uma bela actuação musical de Wazimbo, artista que coube no evento como uma luva, por ser também oriundo das casas de madeira e zinco, Teodato Hunguana levantou uma série de questões sobre o nosso passado colonial que nos fazem reflectir sobre o presente e, quiçá, o futuro.
O apresentador da obra fez um discurso longo, pausado, caracterizado pelas etapas mágicas da construção do país, afinal, esse é o pano de fundo de “A Velha Casa de Madeira e Zinco”.
Entre o apitar do comboio e outros barulhos da Estação, Hunguana recordou uma conversa que teve com o autor, nos últimos três anos, sobre as casas velhas de madeira e zinco como reservatório da memória de um tempo que, com o tempo, se ia irreversivelmente perdendo, se calhar, ao mesmo ritmo em que as casas desapareciam. “Inexoravelmente, depois das casas, seguiremos nós”, disse.
Este livro, no entanto, é para contrariar este dilema. Assim, segundo Hunguana, estes escritos têm por objectivo contribuir para a preservação da memória de um tempo em relação a qual a casa de madeira e zinco encerra um significado importante para a sua geração.
Mas a seguinte pergunta (ainda) não cala: será mesmo que esta “velha casa” absorve o “cão tinhoso”?




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