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A era da resistência cinematográfica

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A era da resistência cinematográfica
A era da resistência cinematográfica

Quando faltam políticas para o crescimento do cinema, quando falta vontade, quando os cineastas são presos pelos “objectivos institucionais”, o que resta é resistir. Para a cineasta Isabel Noronha, estamos numa era de cinema de resistência.

“O cinema incomoda”, acredita a cineasta Isabel Noronha. Estivemos com ela numa manhã quente a olhar para o imenso mar enquanto ela sorvia, a tempos longos, um chá. Uma militante engajada do cinema, Noronha não desarma e parece recriar constantemente esperanças. “Estamos na era do cinema de resistência,” diz ela ao longo da entrevista como quem nos lembra que esta arte anda à margem. Mesmo as conversas com os políticos, não abrem portas. “Dizem que estamos num bom caminho, estamos num caminho recto para zero”.

Mas Isabel não é uma cineasta pessimista. parece-nos mais de crenças, que nos pode a qualquer altura repetir como Martinho da Vila “vai melhorar”. Ela sabe que o  cinema não morre, é “uma arte de cidadania”.

No entanto, precisamos muito de criatividade para começarmos a contar uma história, mesmo no cinema. Foi o que fizemos com esta realizadora de “Ngwenya, O Crocodilo”, “Espelho Meu” e “Meninos de Parte Nenhuma”.

Há criatividade no nosso cinema ou os nossos cineastas sofrem de uma barreira em termos de imaginação?

Criatividade é uma coisa relativa. Se pode ser criativo em inúmeras situações. A ideia de criativo ser sentar-se numa mesa e escrever poemas não corresponde exactamente à minha. Acho que os cineastas moçambicanos são, extremamente, criativos e a melhor forma de o demonstrar é, precisamente, a forma como se adaptam às condições. Nós fazemos cinema há mais de 20 anos. Ou seja, desde que se deixou de produzir cinema a partir do Instituto Nacional do Cinema. Portanto, estou a falar de 1989, quando o Instituto Nacional do Cinema tinha todo um parque de produção, de distribuição e de exibição de filmes. Tendo este monopólio e usando este sistema produzia um filme de ficção por ano, um documentário por mês e um kuxakanema por semana. Portanto, essa foi a fase áurea do cinema e todo ele produzido pelo Estado. A seguir a isso, houve incêndio no Instituto Nacional do Cinema e começaram a surgir as primeiras empresas independentes, tentando produzir cinema independente. A partir daí começou aquilo que nós, entre cineastas, chamamos “a era do cinema de resistência”. É um cinema que fazemos tentando, de todas as formas, adaptar aquilo que gostaríamos de forma criativa às condições que existem. Portanto, produzimos, basicamente, filmes que são encomendas de ONG, serviços de cooperação, empresas que, à partida, são direccionadas para um determinado objectivo. O que fazemos depois é tentar expressar e conduzir o filme para esse objectivo, procurando dentro encontrar uma abordagem que permita expressar alguma coisa, seja de ponto de vista estético, seja de ponto de vista ideológico. 

Os prémios internacionais que os filmes nacionais têm ganhado não nos colocam numa posição de ilusão, que nos leva a pensar que o nosso cinema está bom?

O nosso cinema, por ser criativo, acaba sendo reconhecido internacionalmente. Estes prémios, para nós, já são normais. Ninguém desconhece que o cinema moçambicano existe. Para além dos prémios, todos os anos me chegam por internet pedidos de estudiosos tanto de comunicação como de cinema, de literatura, antropologia, sociologia que estudam o cinema moçambicano como um caso específico dentro do cinema africano. Isto porque sem apoios de governo continua  a existir, a encontrar novas linguagens, novas formas estéticas, novos conceitos e experimentam-se novas técnicas.

Será pelas dificuldades que se refere que o nosso cinema é visto como de documentário ou é a sua principal característica?

Um filme de ficção custa vinte vezes mais do que um documentário. Evidentemente que é mais fácil encontrar financiamento para um documentário que para um filme de ficção. Mas não é apenas isso. A nossa tradição é de cineastas cidadãos. Nós somos formados numa época em que usamos o cinema para divulgar uma mensagem de desenvolvimento do país, de criação de uma cidadania, de criação de uma identidade moçambicana. De alguma forma, não nos desligamos desta nossa função como cidadãos. Continuamos a pensar o cinema como um instrumento de intervenção para a criação de cidadania, para criação de uma identidade moçambicana forte, para uma reflexão crítica sobre a sociedade onde vivemos, para o apontar de alternativas. Esta nossa função como cidadãos dentro de uma sociedade é também o que determina a escolha de um documentário como instrumento de intervenção social.

Fala de dificuldades de financiamentos que têm determinado o tipo de cinema, contudo, há também uma tendência de se olhar para o vosso meio como um espaço dividido, com cineastas favorecidos. Sente que há cineastas que não precisam de correr atrás de financiamentos?

Todos nós corremos atrás de financiamentos e de apoios. É evidente que alguém que com uma história de 25 a 30 anos fazendo cinema tem uma credibilidade diferente quando aparece com uma proposta do que uma pessoa que nunca fez um filme. A história e aquilo que criamos vão construindo um nome que no final actuam a nosso favor. Por isso que as pessoas mais velhas são, normalmente, consideradas conhecedoras do que as mais novas. Mas creio que essa ideia de que os mais velhos têm tudo e os mais novos não têm nada é, de certa forma, perigosa. O que acontece é que em vez de se criar condições para estas duas gerações dialogaram entre si, os mais velhos passarem para os mais novos o seu testemunho, os seus conhecimentos, a sua forma de estar, a sua visão do mundo, elas acabam por não dialogar por causa dessa ideia, absolutamente, errada de que os mais velhos têm tudo.

O seu último filme “Meninos de Parte Nenhuma” leva-nos de volta à questão de cidadania de que falava. É uma forma sua de resistência?

É um filme sobre crianças escravizadas dentro das próprias famílias em torno da cidade de Maputo, em zonas onde o ambiente já foi, extremamente, degradado. As famílias viviam de lenha e carvão até um determinado momento e, agora, está a ser difícil porque já não há árvores para cortar. Há um empobrecimento extremo e as crianças estão a ser usadas como mão- de-obra para quaisquer fins, porque é o último recurso que as famílias têm. Vivo nesta cidade desde que nasci. Viajo em torno desta cidade desde que sou criança. Portanto, quando começo a viajar e não vejo árvores, como cidadã, percebo que alguma coisa mudou e preocupo-me. Entro dentro das comunidades, vou perceber o que se está a passar e surgem-me questões que quero tratar dentro do filme.

Quando se fala de si como cineasta há sempre uma tendência de a ligar a Malangatana. Tem a ver com o filme “Ngwenya, o Crocodilo”?

Penso que esse filme marcou a minha trajectória como cineasta e como pessoa. É um filme, absolutamente, de autor. Foi uma das poucas vezes que consegui fazer um filme  que quisesse fazer e como o quisesse fazer sem  ter essas balizas de “objectivos de milénios” ou  de um determinado programa social. É um filme em que trato a minha própria relação com Malangatana, que começa quando tinha 8 anos de idade, porque estudava com a filha dele, Cecília. Quando fazíamos os nossos trabalhos de escola, ora íamos para minha casa, ora para a dela. Comecei a conviver com Malangatana nessa altura e houve uma série de questões que se me colocaram desde criança, como curiosidades,  coisas de universo cultural ronga, onde ele viajava quando produzia os seus quadros. Havia curiosidades que eu tinha em relação a um universo que era diferente daquele que eu habitava. Estamos a falar de 1970, tempo colonial, quando eu habitava este lado da cidade colonial, portanto, o lado da cidade dos portugueses e Malangatana habitava no subúrbio, Bairro do Aeroporto. Um universo completamente distinto. De certa forma, Malangatana era a primeira pessoa a quem eu podia colocar questões relativas à minha própria identidade moçambicana, coisas que eu sentia, vivia desde que tinha nascido, mas que nunca tinha tido a possibilidade de ter um interlocutor para dialogar. Portanto, questões culturais profundas, questões da espiritualidade, questões dos medos...  Este filme é um retomar de questões identitárias, que sempre me coloquei e a procura de respostas que ele me foi dando ao longo da viagem que construímos juntos a Matalane.

Se prestarmos atenção para a literatura nacional descobrimos que ela é marcada por um constante regresso à tradição. Temos também essa tendência no nosso cinema ou ela olha mais para frente?

Acho que é por esses constrangimentos e balizas que estávamos a falar. Quando alguém diz tem dinheiro para fazer um filme sobre HIV/Sida, normalmente,  as pessoas pensam se deve centrar no presente e apontar respostas para o futuro. No fundo, essa é uma forma simplista de estar, porque na realidade para chegarmos ao presente ultrapassamos o passado, colhemos dele experiências e terminamos naquilo que estamos a viver hoje. Ninguém  tem Sida sem ter tido primeiro uma história que o levasse a contrair essa doença.  Mas é, no fundo, uma tendência imediatista de resposta simplista às questões que nos são colocadas. É mais fácil apresentar um projecto que seja aprovado se estiver centrado nesses limites que nos colocam do que fazer uma proposta alternativa devidamente fundamentada. Normalmente, isto não é só um problema do lado dos cineastas, também está do lado das pessoas que, normalmente, detêm o financiamento. É mais fácil justificar nos seus relatórios anuais uma coisa que está de acordo com os parâmetros que já vinham descritos   pelas próprias agências que financiam do que ter todo um trabalho de desconstruir esses padrões e propor coisas alternativas. E isto acaba condicionando o tipo de abordagem que se faz. Mas não creio que os cineastas sejam pessoas menos capazes do que os escritores, de fazer a leitura das coisas numa perspectiva mais tradicional. Creio que se houvesse mais oportunidade em termos de financiamentos destinados ao cinema de autor, com maior abertura para que este, pudesse ser aquilo que nós gostaríamos de tratar.

Houve um período em que o nosso país foi “invadido” pelo Hollywood e muitos acreditavam que essa seria uma oportunidade para o crescimento do cinema moçambicano. A rodagem desses filmes em Moçambique trouxe algum contributo para o nosso cinema?

Há muita tendência, não só no nosso país mas em todos os outros em que a cultura de uma determinada coisa, neste caso de cinema, ainda não está, devidamente, enraizada para se criarem mitos, para se criarem quimeras. Cinema feito pelo Hollywood ou por grandes países noutros lugares é para se aproveitar do facto de existirem condições de ponto de vista financeiro. Portanto, as produções saem mais baratas pelo facto de se rodarem nesses países de terceiro mundo, e isso  existe em todo o lugar. Moçambique não foi “o escolhido”, é feito esse tipo de cinema em todo o lugar onde as condições financeiras são propícias para isso. O que se passa é que tenho dúvidas se este tipo de produções, realmente, leva a um desenvolvimento do cinema moçambicano. Acho que a tendência é destas produções se instalarem e contratar mão-de-obra barata é a um nível de auxiliar. Raros são os casos em que estes filmes são feitos e contratadas pessoas que tenham um certo nível técnico e conceptual. No fundo, é como tudo o resto, são indústrias que se instalam para se aproveitarem da mão-de-obra barata nesses lugares. Isto tem um efeito perverso de se achar que nós já existimos como indústria cinematográfica, o que é uma mentira. Nós não temos nem condições técnicas, nem condições financeiras para afirmarmos que somos uma indústria de cinema. Nem sequer existem até agora políticas e leis que permitam dizer que há um incentivo à criação desta indústria. A nível dos discursos, diz-se que o cinema existe, que há todo o interesse do governo e há toda uma série de propostas para que isso se faça, mas depois a gente vê que é um discurso vazio e não passa disso. Tivemos um encontro com o presidente Guebuza, já faz dois anos,  dali para aqui não aconteceu nada.  Houve uma tentativa inicial de se discutir a lei de cinema, fez-se um seminário para isso e depois não aconteceu nada. Há dois meses, tivemos encontro com o ministro da cultura, ficamos de voltar a reunir para apresentar as propostas, até agora não voltou a acontecer. Entre o discurso e a prática existe uma grande diferença. Até acreditamos que existam boas intenções, mas não são suficientes se não se trabalhar nesse sentido. É neste ponto que as coisas se encontram neste momento. Podemos verificar que no Dockanema do ano passado exibiram-se 25 filmes moçambicanos, este ano exibiram-se dois. Se olharmos, atentamente, para estes dados, vimos que esse discurso de cinema moçambicano está no bom caminho, é estar na recta a caminho do zero. Ninguém está a conseguir produzir cinema, porque mesmo do lado das instituições que poderiam dar esse apoio isso não é prioridade.

O maior problema do cinema moçambicano está, claramente, na falta de políticas?

Falta de políticas, falta de vontade. O cinema incomoda, precisamente, porque tem uma postura de cidadania. Os cineastas constituem-se num grupo que é reivindicativo, que coloca questões, que abre debate, que critica, que não se conforma com aquilo que é dado. E isso incomoda. Incomodando nós podemos encontrar duas respostas: uma de quem entende que esse incómodo é uma contribuição necessária para desenvolvimento do nosso país. Nenhuma sociedade se desenvolve sem crítica e sem pensamento alternativo sobre as questões. Mas também encontramos respostas de quem pensa que as coisas funcionam melhor sem este nível de crítica. O cinema é uma coisa que atinge um grande número de espectadores. Um filme que passa na televisão no mesmo dia pode ser visto ao longo do país por três milhões de pessoas.  É alguma coisa com grande repercussão em termos da mensagem que passa. Cria um certo receio muito mais que um livro escrito, porque sabemos que a população alfabetizada é muito reduzida; dessa população alfabetizada os que vão ter dinheiro para comprar livros são poucos, então aquela mensagem vai ficar num grupo de intelectuais, o que não é o caso do cinema.  Então, sentimos, muitas vezes, mesmo das agências que não são do governo, mas que operam em Moçambique, quando pedimos financiamento, que há um certo receio daquilo que pode fugir ao controlo. Nós vivemos numa sociedade em que há fantasia de que as coisas estão a ser controladas e porque as coisas são controláveis está tudo bem. E nunca se pensa que aquilo que nós podemos dizer como cineastas é o que toda a gente pensa e que mais vale sermos nós a dizer, num ambiente em que se pode criar um debate em tornos dos problemas. Quando as coisas aparecem são como vulcão em erupção sobre o qual não temos qualquer espécie de controlo.

 

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