Paulo Miguel Torres Caliano, ou melhor, Kaliza, para os amantes da música moçambicana, chegou a Maputo ido de Tete, levando na bagagem apenas o teclado oferecido pelo proprietário de uma discoteca. Após muitas batalhas e noites perdidas, vingou musicalmente, o que poderá ser testemunhado hoje à noite no Music Box Live Especial da STV.
Nascido num meio de música e de músicos, Kaliza diz que foi “bebendo” sons variados, muitas das vezes sem dar conta. mas o facto é que de repente, em 1994, imitava com alguma mestria Roberto Carlos e outros ídolos difundidos pela emissora da Rádio Moçambique em Tete. Dessa participação Kaliza diz ter recebido “um puxão de orelhas” do seu irmão mais velho, Ismael (já falecido), que não gostou de ver e saber que o “miúdo” estava a enveredar pela música. Autodidacta, Kaliza aprendeu sozinho a tocar teclado. E fazendo jus ao dito popular “contra factos não há argumentos”, Ismael acabaria rendendo-se às evidências, começando a apoiar o seu irmãozinho, dando-lhe algumas “dicas”.
Foi daí que se juntou a alguns músicos de Tete para criar a banda Armagedon (Guerra Santa), em que o irmão Ismael é que era o manager. Tocavam em casamentos, festas de aniversário, isso já em 1996. Já no ano seguinte, a 25 de Dezembro, chegou a Maputo com uma cassete na qual tinha gravado parte do seu repertório, entretanto, recusada pela Vidisco. Mesmo assim, não desistiu. Continuou a trabalhar. Tocou na Igreja Manã com Chico da Conceição, entre 1998 e 2000, onde consegui compor uma boa parte da música gospel, que até hoje é cantada naquela igreja.
Mais tarde e com vontade de vencer, Kaliza diz ter tido a sorte de um dia, a tocar na Avenida de Angola, aparecer Alexandre Mazuze que, imediatamente, apreciou o seu talento e convidou-lhe a trabalharem juntos. Conta que Alexandre Mazuze tinha, na altura, muitos contratos nas casas de pasto e, portanto, precisava de alguém para se ocupar de alguns desses contratos. Um deles era no espaço Fofoca do Sindicato de Jornalistas.
Enquanto ele tocava na vila da Moamba, no “Ka Pileca”, eu ficava no SNJ, isso em 2000/2001, onde acabei conhecendo o Nelson Maquile, que me ajudou bastante. Aliás, cheguei aos MozPipa pelas mãos dele. Na altura, a banda tinha falta de um teclista com a saída de Carlitos para Portugal, nessa altura a banda tocava quase todas as noites no Tara.
Com os MozPipa realizou parte do seu sonho, participando na gravação do último CD da banda, que graças ao seu envolvimento acabou sendo intitulado “Ecos do Zambeze”. No disco assina quatro composições (Minha Mãe, Tchisse, Txibua e Papo Furado), curiosamente as que popularizam a colectânea.
Porém, diz que não ficou totalmente satisfeito, sobretudo pelo facto de nos MozPipa ser simplesmente um instrumentista (teclista), mas, na verdade, o que ele gosta e quer é cantar, daí que decidiu abandonar a banda e seguir uma carreira a solo, cujas portas de sucesso foram abertas pelo músico Fernando Luís, que lhe deu espaço para se apresentar no África-Bar.
Fernando Luís, na altura responsável da produção naquele local, deu-lhe oportunidade para fazer quatro shows. Aproveitando o sucesso das músicas de Oliver Muthukuzi, Kaliza apareceu no África-Bar com o projecto “Kaliza Canta Muthukuzi”. Mas, vendo que o jovem tinha talento e capacidade para sustentar o seu nome, Fernando Luís tirou “ ... Canta Muthukuzi”, ficando apenas Kaliza. E assim lançava-se um nome, um artista de talento e abriam-se as portas para a concretização de um sonho e a continuidade de uma história de persistência na música. Mas uma música feita de arte e de uma incessante busca de qualidade, fora do superficial. É essa a aposta de Kaliza.
“Estou a realizar, gradualmente, o sonho dos Calianos, as portas vão-se abrindo segundo a música que soa no meu ouvido. Os caminhos na minha vida abrem-se através da própria música. Aquilo que ainda não consegui granjear na música é por minha culpa”, revela.
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