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Vacina contra malária estará pronta dentro de três anos

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Vacina contra malária estará pronta dentro de três anos
Vacina contra malária estará pronta dentro de três anos

Pascoal Mocumbi, antigo primeiro-ministro.

Em grande entrevista, o presidente da Fundação Manhiça, Pascoal Mocumbi, fala do impacto que a nova vacina contra a malária poderá ter no país. A mesma foi testada em África e os resultados foram positivos.

Depois de cerca de 30 anos a desempenhar cargos políticos, Pascoal Mocumbi demitiu-se do cargo de primeiro-ministro, em Fevereiro de 2004, para se dedicar inteiramente à pesquisa em saúde, liderando uma instituição que lida com a parceria entre países em desenvolvimento e a Europa na pesquisa em Saúde. Em Moçambique, é presidente da Fundação Manhiça, que é responsável pelo Centro de Investigação de Saúde da Manhiça que, dentro de três anos, poderá apresentar ao mundo a primeira vacina contra a malária.

Há 11 anos, investiga-se a vacina contra a malária no nosso país, em que estágio está essa pesquisa?

Numa palavra, posso dizer que está num estado avançado, como tem acompanhado nos anúncios que são feitos sobre o trabalho realizado pelo Centro de Investigação da Saúde da Manhiça (CISM). quando começou há 10 anos, tudo foi de uma maneira muito positiva, que nos levou a prosseguir até à fase em que nos encontramos agora, que é a chamada fase-III, da avaliação desta vacina. Estamos satisfeitos com os resultados obtidos até agora e continuamos a trabalhar no sentido de garantir que o desenvolvimento da vacina possa alcançar aquilo que todos almejamos, que é o reconhecimento e o registo para o uso dos países endémicos, dependendo do conselho que virá das instituições dos diferentes países e do mundo em geral.

10 anos não é muito tempo para se produzir uma vacina contra doenças dessa natureza?

Não é tanto tempo como se pode pensar, porque o próprio trabalho exige muito rigor, procedimentos rigorosos, gente capacitada para realizar com sucesso e disponibilidade dos recursos para financiar essa toda operação. Começámos, como se lembra, por testar em crianças para verificar se a própria vacina é segura. Garantida a segurança (não havia risco nenhum), avançámos para a fase seguinte, que é a eficácia da própria vacina. os resultados obtidos permitiram que passássemos para a fase-II do estudo, que envolveu cerca de 2 mil crianças que estão a ser seguidas através do funcionamento da nossa plataforma demográfica na Manhiça, e outros países entraram no programa por verem os resultados que Moçambique alcançou. Estou a falar da fase em que nos encontramos agora, que é a fase-III, e que comporta mais sete países e, ao todo, são 11 organizações e centros de pesquisas africanas que estão envolvidas.

Em que consiste esta fase-III?

Esta fase consiste em verificar a eficácia da vacina num maior número de crianças, estamos a falar de cerca de 16 mil, enquanto no início começámos com pouca gente. Este número cresce à medida em que queremos avaliar em regiões diferentes, em zonas de hábitos e tradições diferentes, com clima onde os mosquitos e os próprios parasitas se sentem bem. portanto, trata-se de zonas indémicas, de modo a que o estudo seja feito com uma população muito enorme, digamos mais abrangente, para se verificar a sua eficácia.

“É uma vergonha, num país como Moçambique, deixar crianças morrerem por causa da malária”

Médico sueco Hans Rosling desabafa a Mocumbi

Precisamos de mais quantos anos para termos a vacina?

Estamos num estado mais avançado e vamos esperar três ou quatro anos no máximo, para que as instituições continuem o seu trabalho. Estou a falar das instituições que fazem o desenvolvimento e dos centros de pesquisas que fazem o estudo, tendo em conta que o mesmo terminou e agora é a fase de resultados. o que foi anunciado há uma semana foi uma análise dos primeiros 6 mil participantes, tanto moçambicanos como dos outros países, dos 16 mil que de que estamos a falar. Isso significa que, sim, esta vacina vale a pena continuar a ser desenvolvida, porque os resultados obtidos são positivos. Dentro de três ou quatro anos teremos resultados completos e os dossiers entregues às instituições reguladoras a nível mundial. E, sabemos que, para África, a decisão da Organização Mundial da Saúde é fundamental e é ela que vai dar a luz verde para que os países decidam introduzir a vacina nos seus programas de vacinação.

Recentemente, entrevistei o Dr. Hans Rosling, um médico sueco que trabalhou no nosso país durante alguns anos (de 1979 a 1981). Ele considerou uma vergonha, num país como nosso, deixar crianças morrerem por causa da malária, por ser uma doenças cujos tratamento e prevenção são de baixo custo. Por quê muitas crianças a morrer desta doença?

Ele falou assim porque já verificou que, mesmo no nosso país, se olhar para a população que vive numa zona com saneamento garantido, não há infecção pelo paludismo (...). Em Maputo, por exemplo, posso dizer que quem vive na Sommerschild e não se expõe ao mosquito infectado, toma repelentes que já existem no nosso país, evita que o mosquito se aproximem para o picar e transmitir-lhe a doença, é possível evitar a doença e manter-se são. Se estiver numa zona onde não há saneamento, mas vivendo com redes mosquiteiras, nem a criança e nem adulto apanham a infecção. Se logo que começam os sintomas de malária por falha de prevenção fizer o tratamento, também não há mortalidade possível. Portanto, existem meios; existem instrumentos clínicos e também existem instrumentos não clínicos, que são a higiene e saneamento do meio; existe dinheiro para garantir que os medicamentos sejam acessíveis para comprar e utilizar quando há situação da doença. Nesse aspecto, o Dr. Hans Rosling tem razão. eu conheço-o muito bem, ele foi meu colega.

Falou da existência de condições para que as pessoas não apanhem essa doença e como é que se justifica a alta mortalidade por malária?

Isto justifica-se quando não há capacidade para realizar aquilo que deve ser feito. primeiro, a vontade política; segundo, recursos financeiros; terceiro, recursos para se fazer um saneamento do meio e garantir o esforço que os outros países fizeram, como é o caso dos países da Europa, onde a malária não constituirá um problema e não foi preciso tanta ajuda externa para realizarem isso. Portanto, devemos ter capacidade de realizar aquilo que deve ser feito para que cada um tenha acesso aos meios que controlam o paludismo.

“FORMAÇÃO DE MÉDICOS É MÁ”

Recentemente, a Ordem dos Médicos realizou um seminário para discutir a formação dos médicos em Moçambique. Uma das questões colocadas tem que ver com o facto de estar a baixar a qualidade dos médicos formados em Moçambique. Agradecia se comentasse sobre essa constatação?

Eu não estive nessa reunião, mas fui informado. Estou a sair da reunião da Academia das Ciências de Moçambique, onde se discutiu esse tema, na perspectiva de como garantir a formação em saúde pública em Moçambique para aquele que tem a responsabilidade de gerir ou de organizar a saúde pública em Moçambique, de modo a que tenhamos boa saúde pública. de facto, é necessário investir com clareza e seguir a experiência que Moçambique tem, através das suas universidades, adoptando um sistema de formação que dê continuidade de uma formação qualificada.

Mas a qualidade está a baixar ou a subir?

A informação que tenho indica que tem estado a baixar e que a questão já está a ser tratada pelas instituições competentes (...).

Há três ou quatro anos, a Universidade Eduardo Mondlane (UEM) introduziu o novo currículo que preconiza o método PBL. Passados três anos, a UEM recua, alegando que não há garantia de qualidade. Essas mudanças não vão criar alguma descontinuidade de qualidade?

A UEM é autónoma e toma decisões que acha apropriadas para a formação de profissionais de boa qualidade na medicina e, quando descobre que pode haver implicações negativas, é muito justo que corrija o erro.

Numa das conversas, afirmou que não pretendia voltar mais à política, porquê?

Eu penso que fazer política é estar numa função de política, eu considero que fazia política quando exercia funções como membro do Conselho de Ministros; do ministro do governo do meu país, mas isso não significa que o ser humano não seja político por natureza. quando digo que não quero voltar à política é na perspectiva de não voltar a exercer a função de ministro. É meu direito, como cidadão, utilizar aquilo que é minha profissão para continuar ligado a uma actividade da minha própria função. 

Está disponível a exercer alguma função política, fora de ser ministro?

Como ser humano que se interessa pela qualidade de vida, pela paz e traquilidade no meu país, estou livre de não procurar um trabalho para o qual não pareço ser necessário.

Mas por que acha que não é necessário para algum cargo político?

Porque eu tenho a idade que tenho, que são 70 anos, e mesmo lendo as escrituras vai saber que quem tem mais de 70 anos viveu o suficiente.

 

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