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23 de Outubro
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Houve pessoas que não acataram as decisões do II Congresso

Feliciano Gundana é um dos raros homens em vida, que esteve em todos os momentos dos 50 anos da Frelimo. Participou em todos os congressos da Frelimo, tanto como movimento como como partido. É, portanto, um dos legítimos “pais fundadores” da nossa Independência Nacional.  

Em 1962, Feliciano Gundana chega a Tanzania e filia-se à União Nacional Democrática de Moçambique (UDENAMO). Como chega à Frelimo?

A Frelimo é o resultado dos três movimentos que existiam na época, nomeadamente, UDENAMO, MANU e UNAMI. Portanto, a Frelimo é uma fusão destes três movimentos que existiam. Aqueles que chegaram antes da Frelimo, naturalmente, pertenciam aos outros movimentos de libertação ou a nenhum movimento.

Como é que foi estabelecido o contacto entre estes três movimentos para a constituição da Frelimo?

O contacto foi estabelecido pelos membros e pelos dirigentes, porque quando a UDENAMO sai da Rodésia do Sul para Tanganhica, a maior parte dos membros queria que o movimento se organizasse melhor. Militantes foram enviados para Gana, para formação ideológica, no tempo de Kwame Nkrumah. Entretanto, esses militantes, mais tarde, não se deram bem com a direcção da UDENAMO, regressaram para Tanganhica. Por isso mesmo, divididos como estávamos, a existência de muitos movimentos enfraquecia a libertação do país. A preocupação era procurar todas as formas para unir os moçambicanos, e alguns tiveram contactos com o Dr. Eduardo Mondlane, quando estava ainda nos Estados Unidos da América. Primeiro, ele veio a Moçambique com a família (esposa e filhos).

Como é que Eduardo Mondlane chega à Frelimo?

Quando ele vem a Moçambique, já tinha o plano  de se juntar ao movimento de libertação, porque, depois de ter estado em Moçambique, quando regressa ao Estados Unidos, faz o trabalho que fazia nas Nações Unidas, o que não permitia movimentação, muito menos contactar os movimentos de libertação, e, portanto, procura trabalho na Universidade de Siracusa, como professor. Depois disso, naturalmente, já tinha mais facilidade para se movimentar e ausentar-se. No mês de Maio, chega a Dar-es-salaam, onde manteve contactos com vários combatentes, que viviam lá em vários campos cedidos pelo governo de Tanganhica. Manteve encontros individuais com grupos, para ter informações frescas sobre a situação de Moçambique. Igualmente, teve contactos com os dirigentes dos movimentos de libertação que existiam lá, nomeadamente, a UDENAMO e a MANU. Ele já conhecia o presidente Nyerere, conheceu-o durante a ida de Nyerere às Nações Unidas, onde trabalharam juntos.

A UDENAMO é descrita como sendo o movimento que tinha mais notoriedade no período que antecedeu à criação da Frelimo. Quem eram os membros da UDENAMO?

Os membros da UDENAMO são vários, e muitos hoje já não estão entre nós. Mas destacam-se o próprio presidente da UDENAMO, Adelino Guambe; Fanuel Maxuzha, vice-presidente; Calvino Machaieie, secretário-geral; entre tantos outros que estavam no campo de refugiados, que participaram nesse movimento.

Relativamente à constituição da Frelimo como frente de libertação, Jaime Nkamba diz que o dia 25 de Junho de 1962 foi das eleições na Frelimo, mas a mesma havia sido constituída em Acra, em Fevereiro de 1962. Confirma esta afirmação?

A Frelimo não foi constituída em Acra. A Frelimo foi constituída em Dar-es-salaam, entretanto, antes do 25 de Junho de 1962, teve lugar em Acra uma conferência dos combatentes da liberdade, e os membros da UDENAMO foram convidados, nomeadamente, o Adelino Guambe. Nessa altura, já decorria o trabalho de preparação da própria conferência constituinte da Frelimo, e, por outro lado, aqueles que foram para a Acra já tinham participado nessas reuniões. Portanto, a conferência constituinte teve lugar após o regresso desses membros.

Mas foi em Acra onde se criou o nome Frelimo...

A ideia foi criada em Dar-es-salaam, porque é onde havia a maioria dos membros; é onde as discussões da unificação dos movimentos tiveram lugar. Quando foram a Acra não era para criarem a Frelimo, era para participarem na conferência dos combatentes. Por isso, a Frelimo é criada no dia 25 de Junho de 1962, numa conferência constituinte...

Feliciano Gundana disse, este ano, que houve um grupo de pessoas que tentaram desestabilizar e inviabilizar a unidade na criação da Frelimo para lutar pela independência nacional. Quem eram essas pessoas. Que motivações tinham para o efeito?

Não sei se foi exactamente isso. O que existiu foi que para os grupos de militantes que chegavam, a preocupação maior que eles tinham era ter um movimento forte, capaz de enfrentar a máquina opressiva colonial. É por isso que estavam preocupados com a existência de muitos movimentos. Portanto, a questão da unificação dos movimentos era o problema que preocupava os militantes que iam chegando.

Feliciano Gundana também afirmou que a UDENAMO não queria a união com a UNAMI e MANU, e tentou desestabilizar um grupo de 50 membros da Frelimo que iam treinar na Argélia, alguns dos quais acabaram por desertar do movimento. Eles pensavam que a Frelimo era um movimento para produzir dinheiro e beneficiar os membros. Costuma-se dizer que não há fumo sem fogo. O que os levava a pensar dessa forma?

Sim, talvez é a sequência das coisas. O que teria dito nesse encontro tem que ver com os acontecimentos após o I Congresso. Portanto, realiza-se o I Congresso entre 23 e 28 de Setembro de 1962. Logo que terminou o congresso, muitos dirigentes da UDENAMO abandonaram a Frelimo. Nessa altura, o presidente Mondlane já tinha regressado aos Estados Unidos, depois de ter passado por Argélia para contactar o governo argelino, missão essa que incumbiu ao camarada Marcelino dos Santos, para a Argélia receber e treinar os combatentes. Portanto, esses combatentes deviam vir através de Dar-es-salaam, que era a sede da Frelimo. Portanto, os membros da direcção da Frelimo que estavam em Dar-es-salaam deviam garantir e segurar a organização e preparação dos que deviam ir para Argélia.

Quais eram as razões dos desertores?

É nesse âmbito que aqueles que desertaram, os membros da direcção da UDENAMO, quiseram ir com os outros, incluindo aqueles que faziam parte deste grupo que devia ir para Argélia, para os treinos militares. Entretanto, essa questão, felizmente, não aconteceu, consegui-se ultrapassar a tempo e salvar-se o grupo (...). Penso que foi isso que eu disse.

Pode dizer-se que o surgimento da Frelimo foi um parto à cesariana, na medida em que muitos conflitos surgiram internamente (...) o que culminou com o encerramento do Instituto Moçambicano e abertura do Centro de Formação do Tunduro. Quais foram as razões que ditaram essas tensões no seio da Frelimo aquando da sua criação?

O Instituto Moçambicano foi encerrado em 1968 e a Frelimo foi fundada em 1962... mas é evidente que tinha que haver isso, porque mesmo onde há duas pessoas há sempre opiniões diferentes, e as pessoas não conheciam ainda as actividades que deviam realizar na frente nem sabiam qual devia ser o comportamento, a atitude perante o trabalho, a actividade que deviam realizar, e foram surgindo opiniões diferentes e contradições. Portanto, a Frelimo foi fundada em 1962 e iniciou a implementação do seu programa aprovado no Congresso, nomeadamente, criar todos os meios para libertar o país, sabendo que o governo colonial tinha forças armadas, forças secretas, que desenvolviam a guerra com Angola, e que não se podia esperar que dessem a independência de bandeja. Portanto, enquanto se preparava a obtenção da independência por meios pacíficos, a Frelimo foi-se preparando militarmente. É por isso que, menos de seis meses depois do Congresso, o primeiro grupo foi enviado para Argélia, para os treinos político-militares. Portanto, isto significa que aquilo que foram decisões do Congresso (criar todos os meios para a obtenção da independência de Moçambique o mais rapidamente possível) foi implementado pela direcção da Frelimo, logo que terminou o Congresso.

Refere-se que logo após esse período, criaram-se duas alas no seio da Frelimo: uma militar, que participava nos treinos em Nachingwea; e outra política, que tinha uma vida mais faustosa em Dar-es-salaam. Concorda?

Sim, mas o meu problema é a maneira como essas épocas todas são misturadas. Como eu disse, aquilo que foram os programas, decisões tomadas no Congresso, foram sendo implementadas. Foi aberto o Instituto Moçambicano porque havia muitos e muitos jovens que não podiam ir aos treinos militares e deviam continuar os seus estudos (...). Portanto, essa questão que levantou não foi exactamente isso, porque as alas foram criadas. Há um grupo que eu disse que desertou, porque não queria estar à frente, tanto mais que muitas pessoas, incluindo a direcção da UDENAMO, pensavam que a Frelimo seria uma Frente que não haveria de dissolver os movimentos de libertação que existiam; a Frelimo havia de angariar meios materiais e financeiros que seriam distribuídos proporcionalmente, de acordo com as necessidades dos movimentos de libertação (...). Mas quando se aperceberam que não era esse o objectivo dos outros membros da direcção da Frelimo, acharam que não tinham espaço...

Por que é que houve preferência por Mondlane na liderança da Frelimo, quando existia, por exemplo, Adelino Guambe, que era o líder da UDENAMO, um dos movimentos com mais notoriedade naquela altura?

O voto foi secreto. Os membros decidiram aquilo que acharam que seria melhor para a organização, para o país, sobretudo para a direcção da luta. Guambe eles conheciam, sabiam o que tinha feito e o que era capaz de fazer, e conheciam também as pontencialidades do Dr. Mondlane, então, optaram por ele.

Lopes Tembe diz que Adelino Guambe tinha características de ditador. Concorda?

Sim, eu disse há bocado que os militantes preferiram o Dr. Eduardo Mondlane, tinham solicitado o Dr. Eduardo Mondlane para vir dirigir o movimento de libertação. Portanto, já havia uma preparação prévia da escolha que devia ser feita. Não só características de ditador, aconteceram muitas outras coisas, como, por exemplo, o Guambe tinha declarado que tinha 15 mil homens para invadir Moçambique como presidente da UDENAMO. Na altura, quando declarou, foi antes da aprovação da República da Tanzania, e isso criou um grande embaraço na segurança da Tanzania. Isso fez com que Guambe fosse expulso de Tanzania e só voltou a entrar na altura que estava a preparar-se a criação da Frelimo.

Onde é que estava Feliciano Gundana no início da luta armada para libertação nacional?

A luta armada inicia a 25 de Setembro de 1964. Eu havia estado na Argélia, nos treinos militares, fui no primeiro grupo. Os treinos começaram em Janeiro e terminaram em Maio. Eu acabei por ficar lá, com o camarada Milagre Mabote, para recebermos os outros grupos. Ficámos lá mais um ano e só regressámos em 1964. Estive em Kóngoè e, depois, nos escritórios centrais, no Departamento de Segurança e Defesa.

Teve treinos militares na Argélia, tal como revelou, mas, durante a luta de libertação nacional, qual foi o contributo que teve? Em que frente esteve neste processo?

Como eu disse, quando terminei os treinos, fiquei na Argélia e participei no treinamento dos outros dois grupos que estiveram lá, como um dos intérpretes de francês para português, porque o treino era dado em francês. Portanto, fiquei eu e o Milagre Mabote. Acabei por ficar um ano e três meses nos treinos militares. Quando regressei, estive no campo de Kóngoè, campo de operação político-militar, e depois fui designado pelo chefe do Departamento de Segurança e Defesa, Filipe Samuel Magaia, para ir trabalhar com ele na área da defesa, concretamente no sector de administração e finanças, no Departamento de Segurança e Defesa.

Aquando da luta armada para a libertação nacional, vários brancos portugueses aderiram aos ideais nacionalistas e filiaram-se à Frelimo. Como é que a Frelimo conquistou a confiança destes brancos?

A Frelimo conquistou a confiança desses camaradas por causa da justeza da sua linha política. Portanto, as pessoas sabiam, quando aderiam à Frelimo, qual é o trabalho a fazer; qual era o papel a desempenhar, porque a Frelimo não só declarava que estava aberta a todos os moçambicanos, sem distinção de raça, sexo, confissão religiosa, mas praticava isso. É por isso que, naturalmente, todos viam que tinham lugar na Frelimo. Quando se realizou o I Congresso, um dos documentos que foi aprovado pelo congresso foram monções de apelo a todos os moçambicanos para aderirem ao movimento.

 Leo Milas era um agente da CIA infiltrado para desestabilizar a Frelimo. A dada altura, Eduardo Mondlane viaja e deixa Leo Millas com poderes para o representar na organização. Quem era de facto Leo Millas? Qual era o seu papel?

Não foi exactamente a dada altura. Como eu disse, o Dr. Eduardo Mondlane, depois de deixar as Nações Unidas, empregou-se na Universidade de Siracusa, como professor, e veio ao Congresso. Era Professor ainda e, quando termina o Congresso, ele volta aos Estados Unidos de América para desfazer os seus contratos como Professor. Portanto, tinha-lhe sido apresentado por Adelino Guambe o “moçambicano” Leo Millas, que estava na América. Naturalmente, o movimento precisava de quadros para várias tarefas e ele contactou Leo Millas para o deixar em Dar-es-salaam.

E qual foi o papel que ele tinha na organização?

(…) o Leo Millas, foi descoberto mais tarde que na verdade não era moçambicano, era um agente da CIA, e, portanto, estava a desestabilizar a Frelimo, porque, quando chegou, tomou conta do Departamento de Segurança e Defesa…

Por que Mondlane ia confiar no Leo Millas para tomar conta de uma frente, sendo ele um estrangeiro, um estranho, quando existiam outras figuras internamente?

Sim, mas a questão não era confiar em pessoas estranhas. Ele foi apresentado por um moçambicano, aliás, Adelino Guambe era presidente da UDENAMO, e esta já existia antes da Frelimo. Portanto, quando apresenta este indivíduo, foi como se estivesse a apresentar tantos outros que foram membros da UDENAMO, que, naturalmente, podiam aderir à Frelimo. Pensou que fosse um moçambicano útil, que podia ajudar, participando no movimento de libertação nacional. A questão não foi ele pegar num estrangeiro e dar todas essas tarefas, não foi isso. Porque, além do Leo Millas, havia muitos estrangeiros no Instituto Moçambicano, que eram professores, e não exerciam  nenhuma actividade política.

“Filipe Samuel Magaia foi barbaramente assassinado por um quadro da Frelimo”

Filipe Samuel Magaia foi chefe do Departamento da Segurança e Defesa e teve uma morte não muito clara. Refere-se que morreu em combate, levou um tiro nas costas. Em que circunstâncias morreu, de facto, Filipe Samuel Magaia?

Eu viajei com Filipe Samuel Magaia da Beira até Dar-es-salaam. Estive com ele na Argélia, era o chefe do primeiro grupo, e, mais tarde, quando voltei a Dar-es-salaam, trabalhei com ele no Departamento da Segurança e Defesa. Ele, como chefe do Departamento da Segurança e Defesa, tinha muitas missões operacionais para o interior do país, e, numa das vezes que foi para lá, em 1966, porque na altura estava a preparar-se a estrutura de direcção da luta armada, o Estado Maior, como muitos quadros não conheciam o teatro das operações no interior do país, achou-se que fosse bem organizar uma visita às zonas de combate, para as pessoas se familiarizarem com a situação, antes da criação dessa estrutura de direcção da luta de libertação nacional (…) então ele é que dirigiu esse grupo de quadros que foi a Niassa. Já no regresso, foi barbaramente assassinado por um elemento infiltrado, que era nosso quadro.

Quem era esse elemento?

Lourenço Matola.

Havia razões para Filipe Samuel Magaia ser uma pessoa não grata no seio da Frelimo?

Que eu saiba, não.

Feliciano Gundana participava nos órgãos de decisão da Frelimo, nos congressos, nos comités centrais. Como é que explica a sucessão de Filipe Samuel Magaia no cargo?

A sucessão do Filipe Samuel Magaia é a sucessão dos outros também. Portanto, o órgão é que decide, neste caso o Comité Central, quem deve estar, quem não deve estar, quem deve fazer o quê, e o presidente designou-me, apresentou-me ao órgão e este aprovou. E houve muitos outros casos, este não foi o primeiro. Sucedeu na educação, assuntos sociais, informação, passaram vários quadros por esses organismos.

Avançando já para 1978, na altura em que decorreu o II Congresso, consta que este terminou em alvoroço e puseram-se em fuga. O que aconteceu exactamente?

No ano de 2008 celebraram-se 40 anos da realização do II Congresso, com uma grande actividade político-cultural na província do Niassa. Muitos não conheciam o lugar do II Congresso, tinham dúvidas, pensavam que era Tanzania, mas viram que era Moçambique. Portanto, o II Congresso terminou, os portugueses bombardearam depois do congresso terminar. O próprio congresso realizou-se num clima bastante controverso dentro da Frelimo, principalmente por causa da gestão das zonas libertadas e o comércio devia realizar-se nessas zonas.

Que medidas este congresso tomou para estancar esta conflitualidade que existia no seio da Frelimo?

O congresso foi realizado, realmente, num momento crucial do desenvolvimento da luta de libertação nacional e já com zonas libertadas. Era o primeiro congresso que tinha lugar em Moçambique, e, portanto, na altura, a guerra já havia avançado; já havia zonas onde a Frelimo dirigia e onde já tínhamos esses problemas de exploração do homem pelo homem, sobretudo apoderarem-se dos produtos das cooperativas e tudo mais. Durante a preparação do congresso, houve grupos que se recusaram a ir ao congresso, porque queriam que o mesmo se fizesse em Cabo Delgado, e há outros que, mesmo depois de se realizar o congresso, não aceitaram acatar as decisões. Mas o congresso teve representação de todo o país, todos os quadros estavam lá, não só nacionais, mas também estiveram muitos convidados estrangeiros. O congresso tomou decisões importantes, como desenvolvimento das zonas libertadas; a guerra prolongada, porque alguns pensavam que se podia concentrar as forças na província de Cabo Delgado, porque já tínhamos zonas libertadas, proclamar a independência e, a partir dali, apoiar os outros. Essas ideias todas ficaram derrotadas e prevaleceu a guerra prolongada; consolidar a unidade e o papel do destacamento feminino, mas havia grupos que estavam contra. Com efeito, depois do II Congresso, a guerra avançou tanto.

A guerra foi mais intensa e teve muita participação das massas...

Sim, o inimigo multiplicou as acções contra o movimento.

Em 1969 morreu Eduardo Mondlane, primeiro presidente da Frelimo, e Samora Moisés Machel o substituiu. Houve alguma diferença no modelo de luta e gestão política do movimento nesta transição de poder?

Samora foi eleito pelo Comité Central. A luta é um processo e a Frelimo tinha estruturas. Portanto, o Congresso reuniu-se, elegeu o Comité Central, o qual elegeu o Comité Político Permanente, Comité Executivo. São órgãos do dia-a-dia, que dirigiam o processo de luta de libertação nacional. Portanto, a Frelimo tinha o princípio da direcção colectiva; fazer com que todos os quadros participassem no processo de tomada de decisões, através de realização de reuniões contínuas dos órgãos...

Isso para dizer que a gestão foi a mesma?

Não se pode dizer que é  mesma ou diferente, porque ela está condicionada aos problemas, às situações que aparecem em cada momento e, portanto, já o Presidente Samora, quando foi eleito, tinha sido retomada a luta na província de Tete. Só a retomada da luta na província de Tete é um problema, porque tinha que se criar condições, assegurar que os materiais chegavam lá e assegurar que a abertura da frente de Tete não fosse temporária, mas definitiva. Portanto, são novos problemas que aparecem, que exigem uma direcção capaz de assegurar que não haja paralisação de algumas tarefas, e o Presidente Samora realizou as tarefas necessárias na fase em que foi eleito.

Em 1977, a Frelimo organiza o III Congresso, o primeiro após a independência, que tomou várias decisões que mudaram radicalmente a orientação política da Frente de Libertação de Moçambique. Como é que perceberam essas opções?

Em 1977, de 3 a 7 de Fevereiro, em Maputo, realizou-se o III Congresso da Frelimo, e o mesmo proclamou a construção do socialismo, que a Frelimo seguia a orientação marxista-leninista. Mas essas decisões não aparecem por acaso. Durante o processo da luta de libertação nacional, com o crescimento da Frelimo, essas ideias já existiam, tanto mais que ao nível das próprias forças de populares de Moçambique já havia comités do partido, da vanguarda. Portanto, a Frelimo já falava da exploração do homem pelo homem. Já era evidente que a independência que se queria em Moçambique era uma independência ao serviço de todos. Porque a luta de libertação nacional era para libertar a terra e os homens; criar as bases para o desenvolvimento do país. Daí que foi a consumação do processo de crescimento da própria Frelimo e dos seus militantes, era uma necessidade naquela fase.

O IV e o V congressos foram decisivos para o abandono da orientação política marxista-leninista. Foi pacífica esta transição?

Não é o abandono, os congressos têm um papel importante, porque são momentos em que se faz o balanço do trabalho realizado no intervalo entre dois congressos. Nesse balanço, naturalmente, é para se valorizar os aspectos positivos, o bom trabalho que foi realizado, e, naturalmente, para assegurar que esses aspectos positivos possam prevalecer, combatendo aquilo que foram os aspectos negativos. Quando se chega ao IV Congresso, a Frelimo, nessa altura, 1983, sentia a necessidade de que era preciso empenhar-se na produção. Antes mesmo do congresso, o Presidente Samora lançou a ofensiva política organizacional, que apontava que o Governo não pode ocupar da agulha, da linha, da cebola, da batata, do fósforo. O Governo deve ocupar-se das grandes questões, dos grandes problemas, e libertar essas áreas para os outros realizarem. Quando chega o IV Congresso, as ideias já estavam claras de que mesmo os membros do partido podiam produzir nas suas machambas; podiam ter duas ou três pessoas para ajudar a produzir, porque era preciso combater a fome, a pobreza. Mas não se abandonou o socialismo nessa altura.

Em que momento se abandonou, se no V Congresso já estávamos praticamente a caminhar para a implementação do Programa de Reabilitação Económica?

Sim, o V Congresso teve lugar em 1989. Já no V Congresso, havia vários problemas por se resolver, o primeiro congresso que se faz após a morte do Presidente Samora. Portanto, no percurso do IV para o V congresso houve várias transformações que ocorreram no país, e a Frelimo sempre tem dito que é o partido das mudanças, de transformações, que se adapta à realidade e procura os meios para realizar melhor os seus planos.

Está satisfeito com actuação da Frelimo hoje? 50 anos depois, qual é a avaliação que faz?

A avaliação que faço tem que ser boa. Se a Frelimo conseguiu viver 50 anos, é porque é um partido maduro, tem uma linha política clara e a sua justeza teve uma direcção clara. Soube enquadrar todos os moçambicanos para as várias frentes, a frente de libertação nacional, a frente de distribuição, a frente de produção.

Qual é o maior desafio da Frelimo hoje?

O maior desafio continua a ser criar condições para que o povo viva melhor amanhã. É por isso esse desígnio de acabar com a pobreza, porque a Frelimo, já no seu I Congresso, dizia que quer construir um Moçambique desenvolvido, próspero e forte.

Como perspectiva a Frelimo no futuro?

A Frelimo é um movimento de massas. Hoje, a Frelimo tem cerca de 4 milhões de membros e essas pessoas o que é que querem na Frelimo? Querem aquilo que sabem que só a Frelimo vai realizar, que é o bem-estar do povo moçambicano. Se vermos as realizações feitas, podemos perceber e ver facilmente que hoje temos um médico em todos os distritos, e em alguns distritos temos mais que um médico. Depois, temos ensino secundário em todos os distritos, era um sonho. No passado, não havia isso. Nos tínhamos cerca de 600 mil alunos, quando se proclamou a independência, mas hoje, há cerca de seis milhões. Quem fez essa maravilha? É o povo dirigido pela Frelimo…

Qual foi o seu maior contributo nesses 50 anos?

O maior contributo foi procurar, dentro das minhas capacidades, realizar as missões que sempre me foram confiadas. Portanto, eu fui primeiro secretário; fui governador; presidente da Assembleia, passei por várias instituições…

Mesmo para terminar, de que geração deve vir o próximo presidente da Frelimo?

Penso que há uma geração que não deve ter idade. A Constituição já tem limite de cinco anos mínimos. A Geração da Viragem já tem 35 anos, mas essa questão de sucessão, a Frelimo realizou isso sempre.

Quais devem ser as características do próximo presidente da Frelimo?

No momento em que vai ser eleito, a Frelimo vai decidir, porque se trata do candidato da Frelimo, não é o candidato da República. Portanto, a Frelimo funciona através dos seus membros e órgãos. Órgãos competentes devem aprovar as candidaturas. No momento oportuno vão aprovar e anunciar qual é o candidato, e os militantes, naturalmente, vão concordar, porque querem um candidato capaz de realizar as missões da Frelimo nesta fase que estamos a atravessar e no futuro.

Leia mais na edição impressa o "Suplemento Especial- 50 anos- Frelimo "do «Jornal O País»

 

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Edição Impressa 262

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