O País Online - A verdade como notícia

Sábado
27 de Maio
Tamanho do texto
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size
Início Entrevistas Entrevistas “Tenho preocupações éticas, quando escrevo”

“Tenho preocupações éticas, quando escrevo”

afonsoEntrevista a Afonso Cruz.

O escritor português Afonso Cruz esteve em Maputo recentemente para participar no 26º curso de Literaturas, organizado pelo Centro Cultural Português. Nessa ocasião, Cruz falou-nos da sua obra, dos seus prémios e das suas preferências.

É um artista multifacetado. Como é conciliar as artes que exerce?

Apesar de as artes serem diferentes, fui parar a uma série destas áreas quase por acaso, com a excepção, talvez, do desenho, que é uma inclinação que tenho desde criança. A minha família sempre me empurrou para as artes, de modo que sempre segui com muita naturalidade este mundo. A escrita nasce do reflexo do gosto da leitura. Comecei a escrever num blogue privado. Torno-me realizador para a área de filmes de animação porque, na altura, queria comprar uma mota. E como os meus pais não me davam dinheiro para isso, arranjei um emprego nessa área. Mas acabei por não comprar a mota e nem sequer tenho carta de mota. A certa altura, passei a viver no campo, e aí dediquei-me mais à ilustração.

Qual dessas artes lhe dá mais prazer?

São completamente diferentes. Por exemplo, se eu quiser fazer uma ilustração, demoro entre duas horas a uma semana. É período de tempo diferente daquele que levo quando escrevo um romance. De um lado, o prazer fica diluído em meses, mas, por outro lado, fico mais embrenhado na criação, e, no final, tenho um outro tipo de recompensa. A música é perfeitamente imediata. Tocamos um instrumento e mudamos o nosso humor automaticamente. Acho que, se tivesse de escolher uma arte, seria a literatura, porque não sou muito inteligente. Se fosse inteligente, escolhia a música, porque é mais imediata e, provavelmente, seria mais feliz como músico do que como escritor.

Publicou o seu primeiro livro, “A carne de Deus”, em 2008. De lá para cá, venceu vários prémios. Que representam para si?

Têm importâncias diferentes. Depende, por exemplo, de com quem estamos a concorrer. Um prémio até aos 35 anos é uma  coisa; se for um prémio temático também, porque é mais limitado, o valor é mais relativo. Acima de tudo, é um reconhecimento.

Há algum de que gostou mais?

Sim, foi o Prémio de conto Camilo Castelo Branco. Gosto especialmente desse, apesar de não ser o mais sonante, porque me foi dado para o primeiro livro que escrevi: o primeiro volume da Enciclopedia da História Universal.

Dois dos seus livros remetem o leitor a duas entidades especiais: Deus, em “A carne de Deus”, e Jesus Cristo, em “Jesus Cristo bebia cerveja”. Porquê tais títulos?

O primeiro, apesar de ter aquele nome, tem pouco a ver com Deus – era o nome que se dava a alguns cogumelos alucinogénicos, “A carne de Deus”. É um romance que tem um pouco essa onda de cogumelos mágicos. Quanto ao segundo, o livro fala muito de transformações, de sacrifícios, em torno do que podemos fazer para mudarmos, e, em certa medida, o que sou capaz de entregar para me transformar noutra coisa e melhorar, de alguma maneira. E isso é um sacrifício total. É um livro que narra muito essa possibilidade de nos sacrificarmos pelo outro. E a cerveja entre porque é feita à base de muitas transformações, desde o apodrecimento da casca do cereal até a bebida ganhar uma nova vida.

Foi eleito um dos talentos portugueses a vigiar no futuro. Isto dá-lhe responsabilidade?

Não, ou melhor, não me dá mais do que aquela que já tinha, porque este tipo de trabalho tem a ver com a criatividade, e quando gostamos do que fazemos, damos o melhor que conseguimos.

É leitor das literaturas africanas em língua portuguesa?

Não muito. Tento colmatar a minha ignorância em relação às coisas de Moçambique.

Quando exerce a arte, ocorre-lhe concertar a sociedade?

Sim, muitas vezes tenho preocupações éticas, quando escrevo, toco ou desenho. É importante que a arte tenha essa mensagem…

Perfil

Afonso Cruz é escritor, realizador de filmes de animação, ilustrador e músico português. Nasceu em 1971, na Figueira da Foz. Publicou obras como “A Carne de Deus”; “Enciclopédia da Estória Universal”, distinguido com o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco; “Os Livros Que Devoraram o Meu Pai”, galardoado com o Prémio

 

Fotogaleria: DIA DOS HERÓIS MOÇAMBICANOS

DESTAQUE.jpg

Link Externo Esta ligação irá abrir o SAPO Fotos.

Fotogaleria :VISITA DE RECEP ERDOGAN A MOÇAMBIQUE

DESTAQUE2.jpg

Link Externo Esta ligação irá abrir o SAPO Fotos.

"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


publicidade

Edição Impressa e O Tempo

 Edição  O Tempo

 Edição Impressa -25-05-2017

Impressa

 

Maputo

 

Inhambane

 Beira
 

Nampula

 
 

Edição Impressa 398