O País Online - A verdade como notícia

Quinta-feira
23 de Fevereiro
Tamanho do texto
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size
Início Entrevistas Entrevistas “Nossa aposta é multiplicar a nossa intervenção”, Guilherme d’Oliveira Martins

“Nossa aposta é multiplicar a nossa intervenção”, Guilherme d’Oliveira Martins


Nascida em 1956 como fundação portuguesa para toda a humanidade, destinada a fomentar o conhecimento a melhorar a qualidade de vida das pessoas através das artes, da beneficência, da ciência e da educação, a Fundação Calouste Gulbenkian intervém no país com acções no HCM e nas universidades Eduardo Mondlane e Pedagógica.

 

De que forma a Fundação Colouste Gulbenkian intervém activamente para o desenvolvimento da sociedade moçambicana?

A Fundação Colouste Gulbenkian tem uma longa tradição de cooperação aqui em Moçambique em vários domínios. Calouste Gulbenkian foi um grande mecenas, um grande homem de negócios, que legou a Fundação com sede em Lisboa, Portugal, a sua colecção de arte e daí a importância do museu e recursos para apoio às artes, à educação, à ciência e à beneficência. Em Moçambique, tive a oportunidade de visitar alguns dos nossos parceiros, o Hospital Central de Maputo (HCM). Trata-se de uma acção extraordinariamente relevante no tocante, designadamente, ao combate do cancro, a sua terapêutica e, simultaneamente, a formação de médicos e enfermeiros de modo a responder um desafio extremamente premente na sociedade moçambicana, mas também em todo o mundo. Devo recordar que a Fundação Calouste Gulbenkian dedica-se não apenas a investigação aplicada, a cooperação nos domínios da saúde, mas também a investigação fundamental. O Instituto Gulbenkian de Ciência é uma instituição com prestígio mundial, onde se está a fazer-se uma investigação de ponta relativamente em domínios no tocante a saúde. Quanto a Moçambique, a grande questão é o impacto para o desenvolvimento humano nesta sociedade que em muitos domínios tem feito da cooperação um factor decisivo de desenvolvimento. Cooperação, como nós sabemos, envolve sempre uma troca – dar e receber – e tive a oportunidade de visitar as instalações que vão ser reabilitadas em Abril do próximo ano, no HCM relativamente a radioterapia. Como se compreende, isso é importante, mas deve-se ao envolvimento dos cientistas moçambicanos, de médicos, ainda profissionais de saúde de Moçambique. O que permite, por um lado, dotar a sociedade moçambicana desses equipamentos ao nível daquilo que melhor se faz no mundo e simultaneamente, também, formar as pessoas para que haja um acompanhamento e um progresso no que se refere ao tratamento, mas também à prevenção e no tocante a todo um conjunto de exigências que são necessárias e, aliás, segundo até as orientações da Organização Mundial da Saúde.

Recuperando o evento que aconteceu no dia 14 deste mês, - a reabertura da Biblioteca do Camões - no Centro Cultural Português em Maputo, incrementada com 170 títulos de história de arte... De que forma essas obras vão ajudar aos alunos da Escola Nacional de Artes Visuais e aos cultores de arte no geral?

O caso do Centro Cultural Português, aqui na cidade de Maputo, merece uma análise especial, uma vez que é um dos centros de África com uma receptividade maior, estamos a falar de 25 mil utentes por ano. É um número bastante relevante, uma vez que se singulariza comparativamente a outros centros. Isso deve-se ao facto de Maputo ser o centro de grande vitalidade cultural e artística. Maputo é uma cidade tradicionalmente rica, no que se refere a actividade cultural. É por isso que nós, a Fundação Colouste Culbenkian, reforçamos com muito gosto o acervo artístico da biblioteca do Camões, que é extremamente relevante. Estamos a falar de obras que dão conta dos movimentos contemporâneos de arte, portanto, há uma relação entre a história da arte, mas, simultaneamente, as modernas tendências. Representados numa mostra patente no Centro Cultural Português, no âmbito do 11º Encontro das Fundações da CPLP. Ora, esta dimensão artística, é, a meu ver, extremamente importante, e estamos certos, por isso o nosso investimento, que o retorno vai ser extraordinário, porque já temos tido ecos por parte de jovens que estudam a arte, dos artistas que precisam de espaço para a sua criação e também documentar-se e informar-se sobre aquilo de mais recente não só em África, como também no mundo. Nós sabemos que no último século a arte africana teve (e tem tido) um papel na renovação global das artes e no enriquecimento da criação artística.

Uma das fragilidades de Moçambique e de outros países africanos é a pouca aderência ao livro. De que forma a Fundação Colouste Gulbenkian pode mudar esse cenário?

É um problema que nos preocupa, é um problema que não podemos resolver com uma varinha mágica. Em primeiro lugar, nós apostamos muito no efeito multiplicador do próprio Centro Cultural Português. Não é apenas uma biblioteca, é um centro de recursos, uma vez que há também acesso às novas tecnologias de comunicação e informação, que também não são acessíveis, relativamente aos jovens moçambicanos. A minha preocupação é de ter outros pólos além de Maputo. Nós sabemos que há uma ainda lentidão e impossibilidade de acesso aos meios de comunicação. Nós temos muita consciência dessas carências, por isso a nossa aposta é multiplicar e descentralizar a nossa intervenção.

Um dos desafios da Universidade Eduardo Mondlane e a Universidade Pedagógica, instituições que trabalham com a Fundação já há algum tempo, é o facto das bibliotecas não estarem apetrechadas. Que intervenção deve ser feita nesse sentido e quais são outras acções levadas a ter em conta?

Em primeiro lugar, no domínio artístico, a resposta já foi referida. O Centro Cultural Português dá apoio a essas instituições. Mas, simultaneamente, há possibilidade de, perante essas carências, haver modos diversos de fazer aceder há aqueles que careçam de informação. Eu falaria, designadamente, da formação avançada, das formações pós-graduadas, que tem um apoio complementado com essa preocupação de acesso à informação mais actualizada e a investigação mais actualizada. A fundação tem uma preocupação em concreto face às necessidades de cada um e de corresponder o melhor possível para esse efeito multiplicador.

Além do Hospital Central de Maputo e as duas universidades públicas, quais são as outras actividades que levam a cabo no país?

O primeiro desafio é de encontrar novos parceiros que completem a acção que temos desenvolvido; em segundo lugar, reforçar os parceiros tradicionais e que a sua acção tem resultados extremamente positivos. Portanto, a nossa preocupação é encontrar respostas que possam ligar o desenvolvimento de Moçambique ao desenvolvimento global da investigação científica e médica. 

De que forma a exposição que cruzou artistas lusófonos no Centro Cultural Português vai influenciar na criação artística e de que maneira a Fundação pode ajudar esta arte bastante aderida, mas que limita alguns pelo elevado custo de materiais?

A Fundação Colouste Gulbenkian tem aqui, no domínio artístico, um papel absolutamente fundamental e há provas dadas ao longo de 60 anos. Artistas extraordinariamente relevantes do espaço lusófono tem sido apoiados, tem tido bolsas por parte da Fundação. Este contacto, este diálogo e este intercâmbio é importante, pois permite que haja o enriquecimento mútuo, o melhor conhecimento das novas tendências. A arte contemporânea tem várias pistas e que obriga o conhecimento desses vários caminhos e que exigem apoio e incentivo aos artistas. Pois, se não tiverem contactos e iniciativas e não chegarem aos apreciadores da sua arte, não poderão singrar.

 

Perfil

Guilherme d’Oliveira Martins nasceu em Lisboa, a 23 de Setembro de 1952. É Administrador Executivo da Fundação Calouste Gulbenkian (desde 16 de Novembro de 2015).

Preside (desde 2002) o Centro Nacional de Cultura; É Sócio Correspondente da Academia das Ciências de Lisboa; Membro efectivo da Academia de Marinha; Académico de mérito da Academia Portuguesa da História; Professor Catedrático Convidado da Universidade Lusíada de Lisboa e do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa.

Entre várias, exerceu as funções de presidente do Tribunal de contas (2005-2015), do Conselho de Prevenção da Corrupção (2008-2015), da EUROSAI – organização das instituições superiores de controlo das finanças públicas da europa (2011-2014) e do comité de contacto dos presidentes das Instituições Superiores de Controlo da União Europeia (2011-2012); Auditor Geral da Assembleia da UEO – União Europeia Ocidental (2008-2011); Ministro da Presidência (2000-2002), das Finanças (2001-2002) e da Educação (1999-2000).

 

Fotogaleria: DIA DOS HERÓIS MOÇAMBICANOS

DESTAQUE.jpg

Link Externo Esta ligação irá abrir o SAPO Fotos.

Fotogaleria :VISITA DE RECEP ERDOGAN A MOÇAMBIQUE

Destaque3.jpg

Link Externo Esta ligação irá abrir o SAPO Fotos.

"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


publicidade

Edição Impressa e O Tempo

 Edição  O Tempo

 Edição Impressa -23-02-2017

Impressa

 

Maputo

 

Inhambane

 Beira
 

Nampula

 
 

Edição Impressa 384