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Início Entrevistas Entrevistas “Actor tem que ter a qualidade de saber fazer rir, chorar e pensar”, Adelino Branquinho

“Actor tem que ter a qualidade de saber fazer rir, chorar e pensar”, Adelino Branquinho

Branquinho é co-fundador do primeiro grupo profissional de teatro no país

Adelino Branquinho é um dos primeiros rostos que subiu ao palco do Teatro Avenida em 1986, começando, dessa forma, uma nova etapa nas lides artísticas nacionais. Afinal, formava-se, naquele bendito 6 de Novembro, o primeiro grupo teatral profissional da história desta pérola do índico. O técnico de luz e de refrigeração sentiu qualquer coisa na arte que a sua profissão não conseguia despertar. Como prova de que o seu amor pela arte é verdadeiro, passam 30 anos mas ele, com o seu jeito inconfundível e sempre marcante nas suas peças, continua ali naquele palco (mas também viajou por outros tantos da diáspora). Sem dúvidas, Branquinho nasceu para isto, aliás, para o teatro. A entrevista a seguir traz a sua visão em relação ao universo artístico no geral e em particular sobre o teatro.

Como é que Adelino Branquinho se descobre actor de teatro?

Eu comecei a sentir este bichinho de teatro, ou seja, esta arte de representar a vida, representar histórias e sentimentos dos moçambicanos - praticamente quando estava na escola primária, nos anos de 1962, quando o curriculum escolar envolvia esta arte de representar. Mas depois eu participei num final de ano para os pais e encarregados de educação – exactamente no período da festa de natal. Fiz uma representação de Presépio. Então comecei a sentir que esta coisa era importante e de salutar para o próprio praticante. Senti também que quanto mais lês, mais te apetece representar.

E como entra no teatro profissional?

Eu trabalhava numa empresa de pescado em Cabo-Delgado, mas, ao mesmo tempo, todos nós (em Pemba) fazíamos qualquer coisa para preencher os tempos livres. Fazíamos teatro e poesia – através da Rádio Moçambique – sempre a fazer uma actividade cultural e intelectual. O Víctor Raposo, que hoje está em Pemba, tem um teatro lá, montou uma peça chamada “Apié” e ele chamou-me não para fazer parte do elenco de artistas, mas para fazer parte do elenco técnico. Eu formei-me em Refrigeração Industrial e também, já na escola, em Electricidade. Ele convidou-me para vir a Maputo, porque naturalmente viu em mim algum sinal interior para representar. Já em Maputo, encontro todos membros do grupo Tchova Xitaduma e o pessoal da Casa Velha. Portanto, vejo aí a oportunidade de libertar esta minha energia do campo teatral de representar, para além de ser técnico de electricidade. E por coincidência encontro Manuela Soeiro, que é directora do Teatro Avenida. Ela foi uma visionária. Pensou que para o teatro poder singrar na sociedade, tinha que se montar um grupo profissional, isso em 1986. Naquela altura, não se sabia muito bem sobre o teatro, para nós a cultura eram apenas as danças tradicionais. Ela convidou alguns membros para fazer para fazer parte do elenco da peça “Qual é a coisa qual é ela”. Dividia-me entre técnico de refrigeração, de luz e, ao mesmo tempo, era actor. Apareci assim no Mutumbela Gogo.

Ao longo desses anos, qual foi o factor determinante para que este grupo se mantivesse 30 anos em actividade?

Eu as vezes vejo a coisa de uma forma muito directa. Se não tens um dirigente, uma figura, uma pessoa que não tem amor a esta arte, ela não vinca. Ou se vinca, é de uma forma atabalhoada. Por isso, Manuel Soeiro teve uma ideia brilhante, porque ela viu que para o teatro poder manter-se com uma certa regularidade e, essencialmente, com qualidade, era necessário profissionalizar-se. Não profissionalizar-se no sentido de ganhar-se algum salário no fim do mês, é por fazer as coisas com persistência. Então, foi a persistência que conseguiu manter o Mutumbela Gogo no rumo em que está. Nós chegávamos a produzir duas ou três peças por ano. E para além disso, os próprios apoios... Houve uma força muito grande de nós divulgarmo-nos para o mundo e o mundo, por sua vez, nos apoiar. A Suécia, a Noruega, a Dinamarca, mesmo Portugal, são alguns países que nos deram sempre uma mão. É isso que conseguiu manter Mutumbela Gogo com a perspectiva de futuro.

Hoje em dia quando se fala do teatro, não se fala do estilo de Mutumbela. Olha-se mais pelo lado satírico.

A história do teatro em Moçambique vem do tempo colonial. Em qualquer país, em qualquer parte do mundo, o teatro abre perspectivas, abre portas, abre janela, abre tudo, através deste exercício intelectual: faz as pessoas pensarem. O Mutumbela Gogo sempre pautou pela qualidade e pelo trabalho de pesquisa. Pesquisar o que está mal na sociedade e o resultado dessa pesquisa não ser apresentada de uma forma banal. Vimos que devíamos criar um exercício de fazermos do teatro como um veículo rápido para se chegar a um determinado objectivo. Porque se tu não fazes uma pesquisa na sociedade, dificilmente podes apresentar um teatro de qualidade, podes, mais é, apresentar um teatro banal, aquele de apenas fazer rir. Esse não é o nosso objectivo. O nosso objectivo é exercitar as pessoas a pensar, meditar e a reflectir. 

A maioria dos moçambicanos pensa que o teatro é algo apenas de fazer rir.

O que é errado. O riso no teatro vem com a qualidade do texto e a qualidade do actor. Por exemplo, se eu vou contar uma anedota, não posso ser a primeira pessoa a rir. Eu tenho que contar de uma forma que vai excitar o riso, vai excitar o pensamento da pessoa que me está a assistir. Houve uma altura que aqui em Moçambique ficámos preocupados pelo rumo que o teatro estava a ser levado,  que era só de banalizar o riso. Para tu rires, tens que ter motivo e esse motivo não pode ser banal, que não te faz pensar por que estás a rir.

Conseguiu-se reverter essa tendência?

Sim, conseguiu-se, e eu estou feliz nesse aspecto. Porque a qualidade dos espectadores que vêm ver Mutumbela Gogo, ou outros grupos teatrais é (hoje) diferente. Nós “obrigamos” o espectador a pensar, por que é que está a rir, por que está animado com o que está a ver. Também há um pormenor: que é a qualidade do actor. O actor tem de ter uma a qualidade de saber fazer rir, saber fazer chorar e saber fazer pensar. Nós descobrimos uma coisa esse tempo todo, que ainda há uma dificuldade das pessoas perceberem que no teatro há drama, assim como no cinema. Para tu chegares ao cinema, tens que aprender o “abc” do teatro, o saber representar. Não faz sentido nenhum teres que montar uma telenovela ou um filme e não arranjar um modelo, um estereótipo. É preciso que o actor saiba que vai contar uma história e essa ou é dramática, ou é uma comédia, ou ainda que tem muito humor. Mas há aqueles actores que representam uma determinada história e são apenas humoristas, que brincam com as pessoas.

Confunde-se muito o teatro com humor em Moçambique, ou não?

Há uma confusão nas pessoas, porque não estão a ser educadas para isso. O Mutumbela Gogo está a fazer um esforço para passar isso aos espectadores. É que na peça de teatro, há diferentes etapas. Mas para passar isso, é muito complicado, porque passamos muito tempo a banalizar o teatro.

Vive-se de teatro em Moçambique?

É quase impossível viver só de teatro. Por isso, nós pedimos alguém que tenha uma ideia de fazer publicidade para escolher-te. Também penso que não é possível viver só de música. A arte é complicada por isto, porque não tens balizas para te poderes sustentar, para saber que o golo vai entrar por aqui. A arte é uma coisa que é espontânea. Não é possível viver só de arte.

Como é possível noutros países?

Charlie Chaplin, o Charlotte que nós conhecemos, disse uma coisa: que o mundo é um palco e todos somos actores. Os europeus perceberam que não podem dirigir a sociedade com uma política só de ganhar dinheiro. Porque na arte, tu não ganhas de dinheiro, cultivas um sentimento patriótico e o amor.

Até certo ponto estas questões das artes estão um pouco esquecidas na gestão do dia-à-dia dos moçambicanos.

Nem diria esquecidas. Estão propositadamente postas de lado. Tu não podes esquecer uma arte nem fazer tensões de esquecer uma arte. Tenho dito que todos (mas todos mesmo) habitantes de Moçambique são actores naturais. Há coisas que vimos no dia-a-dia que nos mostram que as pessoas estão a fazer teatro, os noticiários são prova disso.

Houve uma altura que era frequente o teatro passar pela televisão. Hoje em dia isso já não se assiste. O que está acontecer?

Há falta de uma política cultural. Nós temos 40 anos de independência, e não acredito que não tenha existido nos governos, alguém sensível a este aspecto. É esta política que a partir do Ministério da Cultura tem que existir.

 


 

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"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


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