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25 de Março
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“Não estamos satisfeitos com o desempenho”

Salim Cripton Valá fala da evolução da Bolsa de valores de Moçambique e os seus desafios para o futuro

“O País” entrevistou o presidente da Bolsa de Valores de Moçambique (BVM), Salim Cripton Valá, que falou do processo evolutivo da instituição que dirige. Desde os actuais desafios, até como a situação actual influencia no desempenho da BVM. A Bolsa foi criada em 1998 e entrou em funcionamento no ano seguinte. Volvidos 19 anos, só estão cotadas até agora quatro empresas e o desafio assumido para o futuro é a entrada de Pequenas e Médias Empresas (PME) na BVM.

 

A Bolsa de Valores de Moçambique (BVM) foi criada há 19 anos com a finalidade de satisfazer às necessidades dos agentes económicos, promovendo o desenvolvimento sustentável da economia. De 1998 até hoje, que balanço é que faz da actuação da BVM?

Estes 19 anos foram de várias etapas. A primeira fase foi de implantação, criação de equipas de trabalho, a segunda fase foi de afirmação no mercado e posso dizer que estamos numa terceira fase, que é de expansão do impacto da bolsa. Até este momento temos quatro empresas cotadas na BVM. Através da bolsa de valores em termos de capitalização bolsista, nós temos cerca de sessenta e dois mil milhões de meticais que foram transaccionados através da bolsa, acima de sessenta e três mil milhões de meticais que o seu valor foi financiado pelas empresas e também pelo Estado através da bolsa. Temos agora 70 títulos que estão registados na central de valores na bolsa central de valores imobiliários e acima de seis mil cento e trinta são os títulos que estão registados na central de valores imobiliários. Este é um trabalho de registo, porque na primeira e segunda fase era necessário fazer-se conhecer a bolsa, conhecer-se o mercado de capitais e consciencializar o público-alvo, as empresas e os investidores, que existe um sistema alternativo de financiamento de valores.

 

Quando fala de primeira, segunda fase e terceira fases, em que fase estamos exactamente, tendo em conta que ao longo destes 19 anos só temos quatro empresas cotadas na bolsa. Este é um número que satisfaz?

Em termos de métricas, nunca foi definida, e esse é um dos indicadores, há empresas cotadas na bolsa, mas existem outros indicadores para medir o mercado bolsista. É verdade que para o nosso mercado de capitais, ainda é um mercado restrito aqui em Moçambique. Quatro empresas ainda é uma coisa que não satisfaz. Nós pretendemos ter muito mais empresas cotadas na bolsa, o movimento de termos muitas empresas a entrarem na bolsa é um sinal do ambiente de negócios que o país tem. A medida que muitas mais empresas estarem a entrar na bolsa e fazerem transacções na bolsa, vai fazer com que se amplie o leque de oportunidades de financiamento que as empresas vão poder contar com elas e também os investidores vão poder canalizar as suas poupanças, através de outros serviços e não através dos serviços e ofertas tradicionais do sistema bancário.

 

Como se explica que durante estes 19 anos a BVM não se tenha firmado fortemente no mercado?

Se tomarmos o facto de que no  sistema bancário temos cerca de quatro ponto dois milhões de moçambicanos que não tem conta bancária; o nível de bancarização no país ronda a cerca de 22% e de inclusão financeira são cerca de 14 à 15%. Estes são alguns dos indicadores que mostram que o nosso sistema financeiro ainda não está alargado, embora que nos últimos anos tenha havido um esforço de extensão dos serviços financeiros para as zonas rurais (a bancarização do campo). Mas mesmo que o sistema financeiro tenha o mercado de capitais, o mercado monetário e cambial também ainda é restrito. Dentro desta situação global, o sistema financeiro moçambicano e o mercado de capitais ainda continua sendo menos procurado, o com menor número de aderência, em virtude do que tem sido a formatação de muitos empresários que têm de fazer recurso do sistema bancário que é mais conhecido, mais tradicional e mais antigo do que propriamente ao mercado de capitais.

 

Dr. Valá reconhece aquilo que são os desafios da bancarização do país, mas também reconhece que houve uma evolução ao longo dos anos, que houve um alastramento do serviço para os distritos e actuando cada vez mais próximos da comunidade e que também o número de clientes que aderiu aos serviços financeiros cresceu no país e também aumentou o número de instituições bancárias que actuam no país. Quando se olha para a Bolsa de Valores de Moçambique e apontam-se quatro empresas cotadas, qual é o peso dessas empresas, tendo em conta aquilo que é desejável, acha que ainda estamos num ponto razoável, ou muito em conta daquilo que é o desejável?

Em termos de análise interna, apreciação crítica interna, nós não estamos satisfeitos com este leque. Não só do número de empresas cotadas, como do volume de negócios que é feito ao nível da bolsa, o número de títulos que são transaccionados na bolsa ainda não estamos satisfeitos. E por esse motivo estamos a criar uma série de mediadas de acção que vão permitir não apenas fazer aquilo que fizemos nesses 18, 19 anos. Se nós queremos atingir resultados diferentes, resultados mais proveitosos à aqueles que temos hoje, somos obrigados a ousar, fazer coisas que nunca fizemos.

 

Antes de olharmos para o que deve ser feito, temos que buscar o que terá fragilizado o crescimento da bolsa ao longo desses 19 anos?

Nós olhamos para isto como uma conjugação de vários factores. Um dos factores tem que ver com o desconhecimento que muitos empresários e muitas empresas têm sobre os serviços e produtos disponíveis no mercado de capitais, nomeadamente a bolsa. Por outro lado, sentimos como instituição termos défice de estarmos presentes onde se encontram as empresas, dando informação pertinente, a discutir, diversificando os canais de informação e de diálogo com as empresas e os investidores. Um terceiro factor que achamos que é muito importante para o processo de crescimento mais robusto do mercado de capitais é que neste momento os operadores de bolsa neste país são os tais bancos comerciais, mais precisamente 10 bancos, e não funcionam neste momento operadores de bolsa autónomos, empresas de corretagem de bolsa. Estes poderiam estar muito mais espevitados, porque o negócio deles é fazer a corretagem de negócios na bolsa, aproximar os investidores, as empresas a usarem os serviços da bolsa, porque eles ganham com isso. Portanto, há oportunidades de negócios que nós temos vindo a transmitir para o empresariado, abrir esta nova janela que é a criação de mais empresas de corretagem, que podem interagir com vários intervenientes no mercado de capitais, e assim aumentar o número de empresas a cotar e o volume de empresas na bolsa e o volume de negócios que são transaccionados. A bolsa deve ser um instrumento activo, dinâmico, um mercado permanentemente de venda e compra de acções, de títulos, de obrigações e isto ainda deve ser espevitado devidamente.

 

Isso é o desejável e aponta aqui também a fragilidade na existência dos promotores da bolsa. A nível interno, a par das actividades que outros terceiros podem prover para a BVM, existem pessoas treinadas para esta actividade?  

Existem pessoas treinadas, e neste momento temos um gabinete de apoio às empresas e aos investidores. Obviamente que queremos potenciar, queremos reforçar este gabinete que dá assistência às empresas, dá informação, apoio jurídico, planos de negócios para que no futuro possam se aproximar e fazer negócios com a bolsa. De 2013 à 2016, tínhamos um programa de educação financeira e nós queremos que o programa prossiga. Vamos difundir, vamos levar este programa a todas as províncias, pretendemos trabalhar com as empresas que lá se, de modo à acelerar este processo; para que mais pessoas, mais empresas conheçam a bolsa, o mercado de capitais e que possam tomar decisões sobre esta alternativa de financiamento e de canalização de poupanças. Queremos alargar o escopo da bolsa com medidas concretas no futuro, ampliando aquilo que não fizemos no passado.

 

A BVM foi criada num momento certo? Sente que Moçambique está preparado para ter este mercado bolsista activo? Ou ainda existe um trabalho que ainda deve ser feito que poderia justificar a criação a posterior e não muito antes?

A criação da bolsa em 1998 e a sua entrada em funcionamento em 1999 foi um marco muito importante e esta questão é muito fundamental. Nós estávamos numa condição de relançamento económico de infra-estruturas, nós tivemos um momento muito particular para aproveitamento de oportunidades. Nós temos duas situações que são vitais para a viabilidade da bolsa, a viabilidade dos negócios é feita na bolsa e a viabilidade dos investimentos. Por um lado, nós temos o sector empresarial do Estado em reestruturação e isso pode ser feito via bolsa, dispersão do seu capital, programas de privatização de parte dessas empresas, mas por outro lado temos esta dinâmica da exploração dos recursos naturais. No momento, o gás na bacia do Rovuma e outros mais recursos, parte do capital dessas empresas também pode estar disperso através da bolsa. Esses dois elementos, entre outros, como a dinâmica das infra-estruturas, podem tornar a bolsa um instrumento ainda mais vital para o desenvolvimento económico, para o financiamento da economia e assegurar que os investidores tenham um lugar seguro para colocar as suas poupanças para gerar benefícios.

 

Estando criadas as condições, como é que se justifica que o empresariado nacional não tenha ainda apetência de querer estar cotado na bolsa de valores?

As condições estão criadas, mas os programas de expansão e divulgação de informação devem continuar com ainda mais acutilância. Nós reconhecemos que temos que expandir, divulgar a visão do que é a bolsa, os serviços, os benefícios e as vantagens de investir na bolsa. Por outro lado, nós sentimos, no sector empresarial de Maputo, que há um interesse crescente de conhecer mais a bolsa. Neste momento, sentimos que eles se aproximam, entram no site, e querem conhecer mais a BVM, as informações que eles não compreendem devidamente, eles aproximam-se da nossa instituição para buscarem esclarecimento. Vamos dar uma capacitação em breve para os membros e colaboradores da CTA aqui em Maputo e esta formação vai acontecer ainda no mês de Março, vamos incluir as pequenas e médias empresas, porque queremos capturar este seguimento empresarial para a bolsa.

 

Qual é o papel da BVM no sistema financeiro e na economia moçambicana como um todo? 

A BVM posiciona-se como uma forma de alternativa de financiamento para as empresas. A bolsa também é um meio vital de promoção de hábitos de poupança, para que os investidores  e os aforadores possam canalizar esse investimento, através da bolsa, para investimentos produtivos. Algo que as pessoas não entendem, a BVM levando os recursos dos poupadores para aqueles que querem investimento, a bolsa também contribui para promover programas de financiamento de projectos sociais que não há muita apetência por parte do sector empresarial. Através dos recursos que se obtém através da bolsa, com um capital um pouco menos oneroso é possível o Estado reforçar a sua capacidade de reforçar o desenvolvimento social económico do país e esse é o seu papel de médio e longo prazo de obrigações. Devo realçar que há produtos que hoje podem ser explorados, mas a BVM não está dissociada do resto do mundo e estamos em permanente contacto com as bolsas da SADC, de África e queremos identificar e trazer para Moçambique outros pacotes de produtos e serviços de base tecnológica, para poder dinamizar ainda mais o mercado de capitais nacional.

 

Como se explica o facto de que deveria ser o Estado, ou as empresas estatais um exemplo de participação na BVM. Como se explica a ausência de grande parte das empresas na bolsa?

Um aspecto importante que até vem patente naqueles estudos da KPMG sobre as 100 maiores empresas de Moçambique é que as empresas públicas e participadas pelo Estado ainda não são um grupo significativo. Todavia, um dos aspectos mais importantes para qualquer economia dinâmica é o papel do sector privado, ele é o gerador de trabalho, de riqueza. É verdade que o desafio que nós temos é a EMOSE, que é uma empresa participada, uma sociedade anónima que esta cotada, e o desafio é ampliar o leque de empresas que possam cotar na bolsa e as suas acções estarem a ser transaccionadas nela. Um dos elementos vitais e as experiências dos outros países mostram isso claramente, que fez com que os mecanismos de gestão fossem mais eficazes e eficientes foi através da Bolsa de Valores. Quando as transacções são cotadas na bolsa, um primeiro elemento que sobressai é a transparência, a confiança, é também ampliar o escopo de financiamento e de investimentos que as empresas podem ter. Porque as empresas para serem cotadas devem ter a contabilidade organizada e publicitada? É porque o investidor quer canalizar as suas poupanças para uma empresa que é bem gerida, que tendencialmente tem benefícios.

 

E as empresas que são cotadas pelo Estado não são suficientemente transparentes e com a contabilidade em dia, ou melhor, não reúnem as condições exigidas para serem cotadas na bolsa? 

As empresas públicas e participadas publicam as suas contas. O grande diferencial é que podem abrir e dispersar o seu capital social lá, então a exigência do maior escrutínio por parte do investidor aparece como um elemento dominante diário. Portanto, em vários países os processos de privatização foram feitos via bolsa. Este modelo traz várias vantagens, permite um encaixe de recursos financeiros por parte do Estado, mas também permite que o cidadão, que o moçambicano, o investidor possa colocar lá os seus recursos e através dos seus investimentos fazer parte da sua emancipação económica, do seu empoderamento. Estar na bolsa significa estar do lado da boa governação, dar confiança ao investidor e queremos que os correctores de bolsa sejam credíveis. 

 

Quando falou da necessidade de potenciar o programa de educação financeira tem como prioridade as empresas participadas e do Estado?

Temos sim como alvo, nós já estamos em programas, temos uma parceira como IGEP, no sentido da Bolsa de Valores assistir o IGEP no trabalho de reestruturação das empresas do Estado. Estamos preparados, posicionados e temos um programa já amplo para intervir nessas empresas. Cada empresa obedece um tipo de tipificação, por área, por definição, por tipo de serviços prestados, e o IGEP está a fazer esse trabalho de segmentação das empresas, para se auferir como a BVM poderá ajudar essas empresas. Queremos que este processo seja feito via bolsa, para que mais moçambicanos tenham acesso e possam concorrer a esses recursos.

 

E quando fala em duplicar o número de empresas cotadas na bolsa, está marca abarca também as empresas participadas pelo Estado?

Quando falamos de quatro empresas, estamos a falar das de grande dimensão, empresas com participação do Estado, incluindo do segundo seguimento. Nós queremos que entre estas quatro, pelo menos uma faça parte da PME.

 

Foram criados produtos, serviços e facilitações para as PME. Sente que estes produtos foram criados mesmo às medidas da robustez das nossas PME?  

Em 2008, 2009, 2010 foram criados mecanismos para facilitar as condições de acesso, mas nenhuma PME entrou. A BVM esta apostada, e temos uma orientação direccionada para este seguimento, queremos que no mínimo uma ou duas PME entrem na bolsa. Queremos transmitir o sinal de que há espaço para interagir, investir e usar os serviços da bolsa. O nosso trabalho tem estado a ser muito meticuloso em termos de análise dos meios que nós temos, porque o mercado de capitais como o financeiro é dinâmico, tem muitas alterações, então nós estamos a ver quais são as lacunas sob ponto de vista de legislação, instrumentos de regulamentação, estamos a escrutinar e ver se esses instrumentos que orientam o mercado de capitais estão calibrados para lidar com o momento actual.

 

Moçambique vive um momento crítico, uma crise quer económica, quer política que vai abalando o crescimento económico do nosso país. Como esta crise impacta negativamente os trabalhos da bolsa?

Nós acreditamos no papel tradicional de uma bolsa e a BVM quer ocupar esse papel, é nestes momentos que nós nos pudemos assumir como uma alternativa e usada de forma mais massiva, porque o grosso das empresas usa a via bancária. Podemos aproveitar o momento para quebrar paradigmas.

 

Que oportunidades a bolsa oferece em tempos de crise para quebrar paradigmas?

A BVM permite que hoje a empresa de um moçambicano possa se financiar com um custo relativamente mais baixo que a do crédito bancário, hoje é possível fazer isso. Simplesmente é preciso reunir os requisitos necessários para aceder a estes serviços.


 

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"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


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