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“Gostaria de ver a nossa literatura mais traduzida”

O escritor e docente moçambicano, Lucílio Manjate, diz que a falta de tradução e exploração em outras artes da literatura moçambicana diminui a visibilidade dos escritores. Além desta colocação, o primeiro vencedor do Prémio Eduardo Costley White partilhou com o jornal o seu pensamento sobre o estágio da literatura e outros assuntos afins.  Manjate falava cinco dias depois de ter sido anunciado vencedor do concurso literário que tinha Mia Couto como presidente do júri.

O que é que significa para si este prémio e para a literatura moçambicana?

Para mim, na qualidade de autor, significa muita coisa. Significa que estou a trilhar este percurso de escrita com alguma, talvez, qualidade. É motivo de orgulho ver o trabalho reconhecido. Isso me estimula a produzir e a escrever cada vez mais. Mas isso não tem a ver apenas comigo, tem a ver com a classe dos escritores moçambicanos que também está representada neste prémio; esta obra é produto de debate entre escritores. Resulta deste envolvimento que todos temos no percurso uns dos outros. É um livro que fala sobre a realidade moçambicana e representa, de alguma forma, o povo moçambicano. Parte de mim mas, depois, tem a ver com os escritores e com Moçambique, de uma forma geral, porque, acima de mim, está a arte, a literatura e cultura moçambicanas.

 

Vê neste prémio uma forma de legitimar a literatura moçambicana entre outros países africanos de língua portuguesa?

Acho que todas as literaturas têm seus ícones. Todos os países que concorreram têm suas referências. Eu acho que a literatura moçambicana já está legitimada. Repara que temos dois prémios Camões – José Craveirinha e Mia Couto. A partir daí temos provas de que temos uma literatura consistente, uma literatura que já criou uma memória porque temos heranças literárias da minha geração. Temos João Paulo Borges Coelho, que já foi buscar o Prémio LeYa, por exemplo. Podíamos recuar e voltar a falar de Mia Couto e Ungulani Ba Ka Khossa, cujas obras estão entre as 100 melhores africanas do séc. XXI. Mais recentemente, olhando particularmente para a minha geração, de facto temos esse reconhecimento público não só de dentro como de fora. Isso é bom porque mostra que a literatura não só está consolidada como também tem futuro. Vou pegar um exemplo paradigmático: O Mbate Pedro foi finalista de Glória de Sant’anna e que aqui arrecadou o Prémio BCI de Literatura. São sinais evidentes de que a nossa literatura está no bom caminho, capaz de se internacionalizar e com qualidade. Uma das questões que tem animado muito a nossa conversa entre escritores da minha geração é a qualidade, tentar trazer para os textos esta vibração que vivemos no social, político e cultural.

 

Quais são os seus grandes desafios como escritor?

Para mim, o desafio permanente como escritor é escrever sempre um livro melhor do que o anterior. Depois do livro escrito, quero que circule, que o livro seja discutido, analisado, enfim. Uma das questões que nós temos agora na ideia da internacionalização é a tradução. Pouquíssimas obras são traduzidas em Moçambique. Temos que olhar não só para o espaço da língua portuguesa como também para outros espaços de outras línguas. Eu gostaria de ver a nossa literatura mais traduzida, ver a nossa literatura nos palcos de teatro e no cinema. Acho que temos estórias e textos muito bem conseguidos que dariam boas peças e bons filmes. Esta componente dá mais visibilidade a obra e ao autor e à nação que está lá. É a nação a ser adaptada para o cinema e para o teatro. É o desafio de criar outras formas de difundir a obra.

 

Porquê continuar a escrever numa sociedade onde se lê cada vez menos? 

Escrevo porque gosto de escrever. Alguém há-de ler. Os autores têm que fazer um percurso. Quando a gente entra na literatura é para produzir. As opiniões são divergentes. A quem diz que o autor produz no seu ritmo. Que seja, mais tem que produzir. Porque muitos anos sem publicação provoca esquecimento por parte dos leitores. A partir do momento que vamos construindo os nossos leitores temos que os alimentar. Tem que se perceber que há um compromisso com o texto, com o leitor, é este lado profissional da arte que deve ser chamada aqui. O escritor é um leitor e deve ser capaz de se inspirar, não ficar à espera de uma ideia. É nesse processo de leitura que ele descobre questões para discutir.

 

 

Já que o escritor é um leitor, como é que Lucílio Manjate lê o nosso país?

A melhor resposta está na minha obra. Não faço outra coisa senão pensar o país de alguma forma, de uma forma prosaica e artística. Olho para Moçambique com muita esperança porque não posso ter outra forma de pensar, porque no dia que perdermos esperança deixamos de existir.

 

Imaginemos que construa uma história em que um dos personagens deve propor uma solução ao país. O que diria?

Acho que haveria de colocar na fala desse personagem qualquer coisa como isto: precisamos de ética, de dirigentes e governantes com princípio e com moral e que percebam que eles são servidores. Este discurso não é novo, mas há Dalai Lama que diz que é preciso repetir o óbvio.

 

 

Perfli

Lucílio Manjate nasceu em Maputo, em 1981. Escritor, ensaísta, crítico literário e professor de Literatura na Universidade Eduardo Mondlane. Publicou “Manifesto” (TDM, 2006, Prémio Revelação – TDM ), “Os Silêncios do Narrador” (AEMO, 2010, Prémio 10 de Novembro), “O Contador de Palavras” (Alcance, 2012), “A Legítima Dor da Dona Sebastião” (Alcance, 2013), “O Jovem Caçador e a Velha Dentuça” (Kapulana, 2016). Assinou ainda, em co-autoria, “Literatura Moçambicana – da Ameaça do Esquecimento à Urgência do Resgate” (Alcance, 2015), e foi co-organizador dos volumes “Era Uma Vez… Moçambique” (AEMO, 2009) e “Antologia inédita – Outras Vozes de Moçambique” (Alcance, 2014).

 

 

 

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"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


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