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“A música é uma forma de dar expressão ao meu país”

Ainda na atmosfera do 8 de Março, reservamos uma conversa com Gabriela, Embaixadora da ONE em Moçambique, instituição que luta pelo bem-estar da rapariga/mulher. Partindo da sua arte, a cantora fala do que gostaria de ver alterado no mundo, sublinhando que “a música é uma forma de dar expressão ao meu país”. Gabriela refere-se ainda ao seu novo trabalho, “Senta no prego”, como um instrumento versado a sensibilizar as mulheres, de modo a serem vozes activas nos seus lares.

 

É uma cantora irrequieta, no sentido de não se apegar a um e único estilo musical. Só assim consegue expressar melhor os sentimentos de tantos “eus” que lhe habitam?

Realmente, faço vários estilos, embora apenas um seja preferido: pop-rock. Mas, se consigo fazer outros, porquê não, e dar aos fãs aquilo que gostam de ouvir? Como cantora, comecei com dois álbuns de passada, com Yeye, e, na altura, sempre dizia que algum dia faria o meu estilo – e hoje faço –, mas acho justo que continue fazendo outros estilos, para não ficar na saudade.

 

A música é, para si, uma forma de conhecer o mundo e, com isso, fazer-se conhecer também?

Não. Sou cantora e, como outros artistas, tenho o objectivo de gritar para várias pessoas. O que quero é levar a minha música para o mundo e, a partir daí, levar Moçambique comigo. A música é uma forma de eu ganhar e dar expressão ao meu país.

 

E nesse processo de ganhar expressão, as línguas são instrumentos importantes, o que faz de si uma cantora poliglota. Já deu conta?

De certa forma, sim. Penso que, além do português, é importante valorizar outras línguas do país, para passar a mensagem que pretendo nas músicas. E recebo um bom feedback por isso. Ao mesmo tempo que valorizamos o que nosso, não devemos nos esquecer que o mundo está globalizado e que uma das formas de chegar às pessoas é o inglês. Daí recorrer a esta língua para que mais pessoas percebam o que estou a dizer, porque gosto muito de cantar mensagens que podem ajudar a mudar alguma coisa.

 

Das várias que usa, existe alguma língua que lhe permite exprimir-se melhor do que as outras?

No campo dos sentimentos, independentemente da língua que uso, tenho de conseguir transmitir o que pretendo. Para mim a música não só a instrumental, a melodia, é informação, seja boa ou má. Então, essa informação deve ser transmitida de modo que as pessoas consigam captar imediatamente. Para o efeito, temos de encarnar os papéis, como se estivéssemos a fazer teatro.

 

Nesse processo de encarnar personagens, já aconteceu ficar afectada pelas emoções que veicula?

Não. O que me afecta e entristece é saber que aquilo que canto acontece. No momento em que canto, sei que existem pessoas a enfrentarem determinadas situações, mas aí, apenas vivo a interpretação do papel. E na interpretação não consigo sentir nem tristeza porque é como se estivesse a viver um sonho que se mistura com realidade. E quando termino de cantar uma música, seja no estúdio ou no espectáculo, é como estivesse a acordar de um sonho, sem saber o que aconteceu nele.   

 

O seu novo trabalho é intitulado “Senta no prego”. Assume esta música como um grito que as mulheres deveriam dar em determinada circunstâncias?

Sim, e a ideia foi fazer com que a mensagem chegue às pessoas da forma mais clara possível e daí começar a forjar uma mudança positiva nas pessoas. É uma forma de sensibilizar as mulheres, de modo que elas percebam que há certos momentos da vida que, nos nossos lares, temos de gritar. E não estou a referir-me a um grito sem educação. Não. É no sentido de termos a coragem de dizer que as coisas não estão certas e de mostrar o melhor caminho. E esta música tem a particularidade de ter envolvido uma equipa vasta, com Caló Pascoal, Thierry Delannay, dos Kassave, e Carla Moreno, sempre à busca da qualidade.

 

À imagem de Otis, homenageia Lurdes Mutola numa das suas músicas: “Longa estrada”. Além dela ser uma campeã olímpica, o que mais pesou neste gesto?

Lurdes Mutola é uma mulher que começou de baixo e que nunca desistiu na luta pelo alcance dos seus objectivos. Então pensei, por quê não pegar num exemplo de mulher para dar força às outras? Há muita gente que não acredita que as coisas podem acontecer, que têm sonhos e que têm medo de sonhar. Então a homenagem à Mutola é uma forma de dizer que cada um de nós deve sonhar sem receio de chegar à glória. O sonho deve ser vivido e as pessoas precisam cada vez mais de energias positivas.

 

Tem um projecto com Caló Pascoal: MOZANGO. O que se pretende?

É uma união de forças entre Moçambique e Angola para juntos produzirmos mensagens que atingiam as pessoas.

 

“Que belo és tu, Moçambique” é o título de uma das suas músicas. Quais são as belezas do seu país que mais lhe comovem?

Eu ainda acho que são pessoas, porque somos um povo acolhedor, carinhoso. Quando viajo pelo mundo fora, não faltam elogios ao nosso país nesse sentido.

 

Em “Mina na wena”, temos um verso que diz: “Tu e eu seremos a mesma alma”. Acredita ainda neste amor cor-de-rosa nesta época?

Acredito, sim, tanto que vivo uma história assim. As pessoas só têm que ter vontade.

 

De onde vem o efeito taciturno das suas músicas?

Sinceramente, vem de eu saber que o que canto é real.

 

O que mais a moveu para abraçar a iniciativa Strong Girl, na África do Sul, que luta pelos direitos da rapariga e pelo empoderamento da mulher?

Moveu-me saber que o que a ONE defende é uma realidade e que precisa de líderes de opinião com voz, para dar eco ao projecto. Além disso, sou mulher, e não gostaria que nada do que sucede a várias mulheres do mundo, como a agressão e o abuso, acontecesse-me a mim. Por saber que tenho a força para fazer mudar, aceitei logo.

 

O facto do projecto ter envolvimento várias Primeiras-Damas do mundo, que responsabilidade vos deu?

Deu-nos a responsabilidade de fazer com que a mensagem para o bem-estar da mulher/rapariga seja percebida; deu-nos a responsabilidade de ter que mostrar aquela mulher fraca ou enfraquecida que ela é Strong Girl. Mas, para isso, também é importante que comecemos a preocuparmo-nos com a emancipação da mulher, porque só assim ela pode conseguir o empoderamento. Para o efeito, a escola deve ser um aliado e os pais têm uma missão importante.

 

Como vive e celebra a música, enquanto manifestação artístico-cultural?

Com respeito, muito trabalho diário (como ensaios), com sacrifícios, procurando mensagens e vivências. Porque, no final do dia, o que mais me interessa não é as pessoas dizerem que gostam da minha voz, mas que se identifiquem com o conteúdo.

 

O que lhe falta cantar?

Esta pergunta é difícil. Sinceramente, não sei.

 

Alguns anos cantou “Tempestade”. Se pudesse, que tempestade arrancaria do seu coração, do seu povo e do mundo inteiro?

Costumo dizer que se o meu indicador fosse mágico, pintava toda a pobreza, e, principalmente, pintava todas as crianças, para que fossem felizes, não perdessem os pais cedos, para que tivessem uma escola, carinho e muita saúde.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro a poesia de Calane da Silva.

 

 

Perfil

 

Gabriela nasceu a 16 de Fevereiro de 1980, em Maputo. Publicou o seu primeiro CD em 2001, “100% Amor e Paixão”. Quatro anos mais tarde, lançou o segundo, “Felicidade”, sempre com a colaboração de Yeye. Em 2015, seguiu-se “Acontece”. Foi prémio “Cantor Revelação no Ngoma Moçambique 2001” com a música “Meu Marido” e, em 2013, foi premiada com “BCI Music Awards”, na categoria “Melhor Vídeo Musical” e “Melhor Música R&B”. É Embaixadora da ONE, instituição que junta várias vozes consagradas do continente para proteger os direitos da mulher e da rapariga.

 

Fotogaleria: DIA DOS HERÓIS MOÇAMBICANOS

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Fotogaleria :VISITA DE RECEP ERDOGAN A MOÇAMBIQUE

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"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


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