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26 de Junho
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Início Entrevistas Entrevistas “Fantasiamos a qualidade poética dos espaços”, José Forjaz

“Fantasiamos a qualidade poética dos espaços”, José Forjaz

José Forjaz é dos rostos mais consagrados do ramo da arquitectura no país. Recentemente, com a sua equipa José Forjaz Arquitectos, expos Projectos no papel no Centro Cultural Português, em Maputo – segue depois para Beira, este mês –, pretexto para esta entrevista. Partindo de 40 obras que estiveram expostas, algumas com 50 anos, nunca construídas, Forjaz refere-se ao trabalho arquitectónico como uma forma de fantasiar a qualidade poética dos espaços, como um meio para ler as sociedades e de nelas introduzir mudanças. E o arquitecto vai longe ao referir-se que, em Moçambique, a maior parte da arquitectura construída ainda é espontânea, feita por saberes tradicionais, sem deixar de sublinhar a incapacidade administrativa que o Conselho Municipal de Maputo tem para tomar conta de uma cidade que cresce tão depressa do ponto de vista populacional. Nisso, José Forjaz expressa um desagrado atinente à Praça da Independência: “um desastre urbano, tanto esteticamente como em termos de circulação automóvel”.

 

É co-autor da exposição Projectos no papel, exposto no Camões este mês. Por quê mostrar agora, pela primeira vez publicamente, 40 projectos não construídos por si e pela equipa José Forjaz Arquitectos?

Na nossa vida profissional, cerca de 50% dos trabalhos que fazemos nunca é construído. Por variadíssimas razões. Então houve uma necessidade, que nos parece importante, de fazer ver um trabalho elaborado com igual dedicação e emoção, feitopor mim e pelo nosso grupo nestes anos todos. Alguns destes projectos são muito particulares, com valores diferentes de alguns já construídos. Pareceu-nos interessante fazê-lo mesmo porque vários de nós somos professores de faculdade e temos uma responsabilidade didáctica que gostamos de cumprir.

 

Projectos no papel tem obras com 50 anos. O que procuraram exprimir nesta exposição?

Mostramos que há um lote de projectos que não se submeteu em todo o seu desenvolvimento às mesmas condições dos projectos que foram construídos, quer porque não chegaram a uma fase de concretização, quer porque eram problemas de natureza diversa.

 

A mostra está agrupada em quatro temas: “Planos”, “Praças e monumentos”, “Equipamento público” e “Arquitectura residencial e concursos”. Foi por uma questão metódica esta preferência?

Sim. Pareceu-nos interessante que houvesse situações em que se percebesse que, dentro do mesmo tema, havia grandes variações na índole dos projectos, e que dava uma leitura mais coerente e lógica à exposição do que se fosse simplesmente por ordem cronológica. Penso que foi bem arrumada dessa maneira.

 

Partindo desta viagem pelo passado, sem esquecer o presente, como classifica a arquitectura actual do mundo?

Não acho que se possa fazer uma classificação da arquitectura. Tem-se arrumado a arquitectura em movimentos, idades, estilos, culturas e civilizações… Penso que a arquitectura actual do mundo, directa e imediatamente, é menos caracterizada pelo seu lugar. É muito difícil distinguir o que se faz em Sidney, na Austrália, do que se faz em Montevideo, ou do que se faz no Japão do que se faz em Cape Town. Portanto, é uma arquitectura mais internacional e que corresponde a uma realidade inegável que é a de que a sociedade humana vive cada vez mais da mesma maneira em todos lugares do mundo. Os hábitos sociais das pessoas são cada vez mais idênticas. Portanto, a identificação da arquitectura não se faz mais por uma cultura particular, sobretudo urbana, porque as rurais são outra coisa. Quando existem, não são muito ligadas aos arquitectos, mas à capacidade de construir das pessoas locais. Em Moçambique, a maior parte da arquitectura construída ainda é espontânea, feita por saberes tradicionais, das aldeias e etc. À partida, classifico a arquitectura actual, no mundo, como internacional, cada vez mais indistinta na forma como aparece.    

 

Seria possível traçarmos a identidade de um povo e de uma cultura a partir da arquitectura que se está a fazer?

Cada vez menos, e nem ponho sinal negativo ou positivo nisso. A arquitectura, hoje em dia, deve ser caracterizada pela maneira como responde a problemas ambientais, sobretudo. Deve ser diferente uma arquitectura que se faz num país subtropical, como o nosso, do que se faz numa zona fria, como a Sibéria ou Alasca, por razões científicas, técnicas e, sobretudo, ambientais, até mesmo por razões sociais, porque o habitante da Sibéria e de Joanesburgo vivem muito da mesma maneira. A diferença é que um se protege do frio e outro do calor.

 

Na concepção da arquitectura da vossa equipa pesam mais as componentes estéticas e utilitárias, certo?

Evidentemente. O utilitário é o termo mais interessante a explorar em muitos aspectos. Mas a arquitectura é diferente da construção, uma função meramente técnica. A projecção arquitectónica, depois de garantir todas respostas aos aspectos técnicos, deve ser atenta aos aspectos estéticos, naturalmente.

 

Acha que as obras do Projecto no papel podem vir a ser construídas?

Algumas, sim, gostaríamos muito. Outras, não tenho qualquer esperança que venham a ser…

 

Onde pretenderam chegar com esta exposição?

A aquilo que é o objectivo de qualquer exposição, que é dar a conhecer o que se faz, provocar debate, curiosidade e manter viva a cultura arquitectónica de um país, neste caso, o nosso.

 

Esta iniciativa insere-se na linha de programação Pensar a cidade, desenvolvida pelo Camões. Por quê tiveram esta pretensão de refectir sobre o espaço urbano?

Esta questão de pensar a cidade é um problema permanente, do qual não podemos fugir, seja qual for a dimensão do projecto. Nós somos arquitectos e urbanistas e assumimos essa responsabilidade. Estes projectos são implantados em tecidos urbanos, com outros edifícios à volta, com ruas e praças que limitam, justificam e orientam a sua concepção. É provável, e já tivemos ocasião de discutir com pessoas que visitaram a exposição, encontrar aspectos que tenham haver com a inserção da arquitectura na cidade.

 

Esta exposição inclui texto de João Paulo Borges Coelho, um autor que também pensa a cidade por via da escrita. Veja-se o caso da novela Hinyambaan, em parte, uma sátira à nossa capital. Foi uma forma de envolver a literatura?

Temos a noção de que a arquitectura não é um domínio fechado do conhecimento e da especulação intelectual. Deve ser cada vez mais aberta, e é propositado não escolher arquitectos ou críticos de arquitectura para nos avaliar na sua apresentação. Por isso escolhemos dois escritores, João Paulo Borges Coelho e António Cabrita. Com ambos temos uma longa convivência a discutir problemas da cultura geral e da arquitectura em particular. António Cabrita, aliás, publicou um livro em que me faz uma entrevista longa. É uma pessoa muito sensível aos problemas da arquitectura e dos espaços. E João Paulo Borges Coelho é uma pessoa muito sensível, também, à qualidade do espaço da cidade. Como sensível que é, artista da palavra e um grande desenhador, é uma pessoa muito apta a poder reflectir sobre o que lhe pedimos que fizesse, sobre este conjunto de obras e o seu significado.

 

E o que esta exposição pode permitir ao cidadão, considerando a ideia de que a cidade cresce numa desordem, de acordo com João Paulo Borges Coelho?

Estamos a tratar de dois temas nesta exposição. Uma é da cidade que cresce numa desordem, que considero até natural. Nós não temos capacidade administrativa para tomar conta de uma cidade que cresce tão depressa como esta, em termos de população. É impossível. O Conselho Municipal e Maputo não tem meios financeiros, materiais e nem humanos para controlar o que se passa em todos metros quadrados do sector urbano. Então, há muita coisa que acontece e que escapa ao seu controlo e à monotorização desse desenvolvimento. Por outro lado, há desenvolvimentos que podem ser discutidos do ponto de vista da sua adequação. Esta desordem urbana acontece em todas as nossas cidades, moçambicanas e africanas, em que o fenómeno urbano é recente em relação a outras cidades muito sedimentadas como são as europeias e asiáticas. Portanto, é muito difícil controlarmos todo este desenvolvimento. O João Paulo é uma pessoa atenta a estes fenómenos – como é outra gente. Não se tem que ser escritor para se ter sensibilidade a estas questões – e pronuncia-se como lhe compete sobre estes problemas. E a exposição levanta o tema para, de alguma maneira, poder-se discutir, porque a discussão deve ser continuada.

 

O que mais vos move, quando, num projecto como este, no papel, têm de erguer monumentos?

Trabalhamos porque alguém nos pede trabalho, por variadíssimas razões, até para ganhar dinheiro. Há casos em que nos move a oportunidade de projectar qualquer coisa nova a propor. Não é corrente, mas já fizemos umas duas vezes. Neste momento, se tenho tempo, dedico-me mais a escrever do que a especular sobre a arquitectura, até porque vamos tendo trabalho que nos ocupa suficientemente.

 

Ocorre à equipa José Forjaz Arquitectos enviar mensagens, quando exerce a actividade arquitectónica ou quando expõe?

Nós expomo-nos, quando expomos, à crítica, à apreciação e até à admiração. Não basta mostrarmos o que valemos, temos de nos expor àquilo que nos ajuda a melhorar. Estes são os pontos fundamentais de qualquer exposição. Se dali sai uma crítica mais acutilante, achamos interessante.

 

Do mesmo modo que acontece com a narrativa, há espaço para a vossa equipa deixar-se levar pela fantasia durante o trabalho?

Põe a coisa de uma maneira interessante. Fantasia é uma palavra muito ambígua. A arquitectura deve ser sempre o que está para lá da tecnologia e dos aspectos práticos. E nós, se é por aí que entende a fantasia, ao concebermos um edifício, fantasiamos a qualidade poética dos espaços.

 

No vosso repertório arquitectónico não falta atenção à água. Há alguma influência do Índico nisso?

É capaz de haver. A água, dito de uma maneira genérica ou de qualquer outra maneira, é um elemento fundamental na vida e cada vez mais crítico. Nós temos uma grande atenção tecnológica àquilo que o edifício pode ter em termos de capacidade de poupar e recuperar a água usada. Isso é uma atenção permanente e temos um alto sentido acerca desse aspecto, porque, muitas vezes, a maior parte dos nossos clientes ainda não estão conscientes dessa questão tão crucial.

 

E além da água, a vegetação também merece muito destaque, uma forma de dizer que devemos respeitar a natureza…

É, e muito importantemente. A presença do verde é cada vez mais crucial na concepção da arquitectura. O verde nas coberturas começa a ser corrente em quase todos os quadrantes culturais do mundo. A presença do verde não só é importante pela qualidade do espaço, como também pela regeneração do ambiente. Relacionando com a água, o elemento verde atrasa o escorrimento superficial da água, o que é fundamental, e que nós, em Moçambique, conhecemos bem a consequência funesta do escorrimento não atrasado. Aliás, este é um dos problemas que as nossas cidades têm: a erosão provocada pelas chuvas fortes que temos e que correspondem cada vez mais um desnudamento do terreno em termos de verde. De facto, para nós, o verde, tal como a água, é uma das preocupações iniciais de cada obra.

 

Já agora, como é que as condições climatéricas interferem na concepção de uma obra, no vosso caso?

As condições climatéricas são fundamentais. Nós partimos daí para conceber qualquer obra. A primeira das considerações é orientação do edifício, a maneira como as fachadas recebem o calor, a luz solar, o vento, a chuva. Trabalhamos conscientemente, sabendo que nos encontramos a uma determinada latitude e sabendo que o movimento do sol tem uma determinada inclinação em cada dia para sítio diferente. Os nossos edifícios devem responder a isso para poupar energia e para se tornarem mais cómodos e confortáveis. Aqueles são os elementos de partida de qualquer projecto. Os outros são, naturalmente, o terreno, o programa funcional do edifício, o valor que se quer investir. O resto é uma complementaridade de factores que a temos de responder.

 

Sentem-se na condição de estar a gerar uma vida, quando concebem um edifício?

Sentimo-nos a responsabilidade de influenciar vidas das pessoas, quando estamos a desenvolver o nosso trabalho. Certamente. E essa é uma das responsabilidades mais difíceis, porque a arquitectura afecta a vida das pessoas em muitos aspectos e todos os dias.

 

E isso passa, necessariamente, em sonhar o que as pessoas não conseguiram.

É bem dito. É exactamente isso. Gostaríamos de ser capazes de realizar os nossos sonhos dos clientes.

 

Têm um projecto para a Praça da Independência, que venceu um concurso público em 2011. O que vê, quando contempla aquele espaço?

Olho para aquele espaço com tristeza, muita, porque o que lá está é o pior que poderia estar. Aquela praça é um desastre urbano, tanto esteticamente como em termos de circulação automóvel. Sobretudo, é um espaço deserto, vazio, inóspito e que não oferece nada à cidade. E foi isso que, dentro das condições que nos impuseram, tentamos responder, a essa série de aspectos negativos, pensando num projecto de praça que fosse acolhedora, fresca e tanto quanto fosse possível verde, enquadrando a figura de Samora Machel, que está agora ali posta, no sítio errado e com altura errada. E aquele deveria ser o espaço que mais caracterizaria a sala de visita da cidade. É pena estar no estado em que se encontra.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro Água, de João Paulo Borges Coelho.

 

 

Perfil

José Forjaz nasceu em 1936, em Coimbra (Portugal). Veio ao país muito jovem, e trabalhou como arquitecto Pancho Guedes. Mais tarde, obteve o diploma de Master of Science in Architecture na Universidade de Columbia, em Nova York (EUA). Entre 1975 e 1985, foi Conselheiro do Ministro das Obras Públicas e Habitação e Secretário de Estado do Planeamento Físico. Foi professor convidado das universidades italianas, portuguesas e norte-americanas. É fundador da Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico da UEM, onde lecionou. É titular do escritório José Forjaz Arquitectos e conta com dezenas de projectos: residências de embaixadores e chefes de estado, pólos universitários e culturais, Campus da Universidade de Botswana e Suazilândia, o Parlamento Pan-Africano, na África do Sul.

 

 

Fotogaleria: DIA DOS HERÓIS MOÇAMBICANOS

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Fotogaleria :VISITA DE RECEP ERDOGAN A MOÇAMBIQUE

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"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


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