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“A minha música não é explosiva... ela penetra devagar e depois fica”

Aniano Tamele é um dos 10 filhos do lendário Eusébio Tamele (Zeburani), o terceiro moçambicano a gravar um CD no país. Cresceu num ambiente de músicos, mas os irmãos não resistiram às intempéries profissionais. Toca profissionalmente desde 1976, mas só agora pretende aventurar-se em álbum. Concorda que sua música é viciante, mas penetra lentamente. O único ingrediente que usa é a paciência.

Aniano Tamele é o quarto dos 10 irmãos, com que se iniciou nas lides musicais. Acredita que se não tivesse essa companhia desde a infância, um dos seus caminhos seguiria à arte?

A arte nasce com a pessoa ou a pessoa nasce com a arte. Se calhar seria um artista com uma vertente diferente desta. A minha forma de compor, eventualmente, podia ser diferente. Porque, de algum modo, nas minhas composições, sinto alguma influência do meu pai, dos meus irmãos e das músicas que ouvia em casa.

 

Inicia-se precisamente em 1976, um ano depois da Independência. Celebramos semana passada 42 anos dessa efeméride. Acredita que a música está independente?

Penso que sim. Faço referência de ter entrado no mundo da música em 1976 por ser aquele ano em que começo a tocar guitarra e a cantar já me sentido artista, digamos. Mas um pouco antes fazia actividades culturais no bairro. Lembro-me aquando da viagem triunfal do Rovuma ao Maputo do presidente Samora Machel. Quando passou de Xai-Xai, no Bairro 18, o meu grupo de makwaela e outros grupos foram o receber com cânticos e dança. A altura da independência foi de exaltação da moçambicanidade no ponto de vista cultural e soubemos da existência da infinidade de ritmos que corporizam o cenário artístico-cultural moçambicano. A independência trouxe de facto esta valorização daquilo que o colono chamava de cultura de selvagem. Tenho conhecimento que as festas nas zonas urbanas eram de músicas brasileiras. Só mais para o interior é que se dançava as músicas tradicionais que nunca foram à cidade. A independência trouxe este rebuscar da nossa identidade. E ao longo dos 42 anos da independência houve vários momentos que contribuíram para a exaltação e criação da marca moçambicana nas artes.

 

Aniano Tamele se revê na música que é feita actualmente?

Trago no meu estilo de música um pouco do que bebi nos grupos de dança tradicionais; trago também influências do meu pai e das coisas que ouvia. Ouvia muita música da África do Sul, do Brasil, da Tanzânia, do Quénia, Congo, Zaire, etc. E essas coisas todas penso que me influenciaram muito. Se reparar nas minhas músicas há-de reparar que canto situações sociais de Moçambique.

 

Acredita que esse legado está a ser perpetuado pelas gerações posteriores da independência?

Há espaço para consumir tudo. Há jovens que estão seguindo a trilha da música tradicional. Mas também há jovens virados para músicas de diversão, músicas imediatistas. Isso também é preciso. Precisamos também de música para nos divertir. Esse legado está sendo seguido. Há uma coisa boa que os jovens trouxeram: travaram a incidência da música internacional nas festas. Para ouvir há muito que se tem que fazer.

 

O que é que falta para resolver outra parte do problema?

Falta aos nossos jovens aprender a tocar instrumentos e a cantar devidamente porque agora temos escolas que formam.

 

O que é que é feito dos graduados em música? Não seriam úteis para a instrumentalização das músicas?

Essa pergunta serve para música mas também para as outras áreas. Os jovens e os mais velhos também têm que procurar informação nos formados. O problema dos músicos e de outros artistas é que querem fazer tudo sozinhos. Os jovens principalmente só procuram aconselhamento quando as coisas estão estragadas. Do ponto de vista de música era preciso que os artistas se aconselhassem. Mesmo em termos de letras. Temos escritores que escrevem muito bem. Os artistas têm de procurar as pessoas formadas em gestão artística, pessoas formadas na composição, em direito para cuidar dos seus contratos e em gestão de negócios para gerir seus espectáculos.

 

O actor e dramaturgo Dadivo José descreveu, certa vez, o seu pai – Zeburane – como polícia dos lares. E essa tendência é notória na sua música. Foi para vincar a forma de estar do seu pai ou apenas uma coincidência?

Em parte tive influências do meio envolvente onde cresci. Ouvia as canções que meu pai interpretava desde a que gravou na década de 50 na África do Sul, até aquelas que gravou na Rádio Clube. A temática dele incidia muito no sofrimento da mulher no lar. Considero-me um cantor de crítica e educação social. Tanto critico as más atitudes das mulheres como as dos homens. E no fim sempre trago uma perspectiva de solução.

 

Em 1996 torna-se o primeiro artista a atingir o topo da tabela do Ngoma Moçambique. Esse feito deu-lhe a certeza de que a sua carreira ganharia frutos?

Nunca me apeguei aos prémios. Para mim, quando a minha música entra numa parada e é votada ou classificada pelo júri é o reconhecimento do valor como obra e é uma crítica. Precisamos disso para crescer.

 

Em 2014, volta ao estúdio depois de 18 anos e grava uma música considerada Mais Votada no Ngoma Moçambique. O que norteou essa paragem?

Foi uma paragem aliada à minha actividade profissional. Essa paragem nunca me incomodou porque canto pelo amor à arte, não é a todo custo. Gravo quando dá.

 

Com que ingredientes faz a sua música?

Acho que é paciência. Não tenho pressa para fazer música. As minhas músicas não são explosivas. Penetra devagar, mas quando penetra fica. É esta paixão melódica e educativa que procuro transmitir. As pessoas gostam de boas coisas.

 

 

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"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


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