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Início Entrevistas Entrevistas “A resistência pacífica é uma alternativa que deve ser constante”

“A resistência pacífica é uma alternativa que deve ser constante”

É preciso resistir na luta contra os males que afectam a sociedade. E, nesse processo, uma das melhores alternativas pacíficas é a nova peça do Mutumbela Gogo: Os Pilares da Sociedade, adaptada do original de Henrik Ibsen. Para Adelino Branquinho, a peça pode contribuir para que o corrupto, nestes tempos, deixe de ser corrupto.

Mutumbela Gogo tem uma nova peça: Os Pilares da Sociedade. Com quantos pilares faz-se uma sociedade?

Essa é uma pergunta interessante, pois, quando estudamos, ouvimos que os pilares da sociedade são o Presidente da República, a Assembleia, os tribunais e coisa de género. Existem outros, mais subtis, mas igualmente importantes para a construção da nossa sociedade. Poderia responder à sua pergunta, mas prefiro que as pessoas busquem a resposta na peça.

Por quê a peça nesta altura?

No Mutumbela temos o princípio de que o teatro não só existe para fazer rir, mas também para as pessoas pensarem um pouco sobre o meio onde estamos inseridos. Com estes problemas todos que temos – a nossa sociedade não está boa – aproveitamos a oportunidade para apresentarmos um texto que pensamos que vai dar um contributo na edificação de uma sociedade sã.

A transferência de valores morais e éticos do teatro para a realidade sempre foi a vossa aposta. Até quando isso vai durar?

Quando um grupo forma a sua personalidade não é fácil desviar-se porque estaria a trair sua própria consciência. Vai durar o tempo que tiver que durar, o tempo necessário.

E julga que a forma como pensam teatro está a contribuir para alguma coisa?

Vou-lhe responder à pergunta com um pequeno episódio. Quando houve a guerra dos 16 anos, nós saímos com a peça “Greve do sexo”, que falou de uma outra forma de luta, que envolvesse mais as mulheres, já que elas, na nossa sociedade, não têm palavra para opinar. A “Greve do sexo” foi uma forma encontrada para se acabar com a guerra. Coincidência ou não tivemos os Acordos em 1992.

Está a querer dizer que para nos livrarmos das mazelas sociais devemos investir nas mulheres?

Sem dúvida. A mulher é que produz, forma, cria e, enfim, é o outro pilar da sociedade, o mais importante. No entanto, as mulheres sempre foram relegadas a um plano secundário. Quando temos um grupo de teatro que dá voz às mulheres, é sempre importante porque são elas que muitas vezes conseguem resolver os problemas. Quando não temos pão em casa, podem todos ralhar, mas a mulher resolve.

A peça foi escrita por Henrik Ibsen. Qual foi a vossa maior aposta na representação da obra?

Foi buscar o objectivo central da peça, prestando atenção no que constitui a doença da nossa sociedade: a corrupção.

Ao investirem em obras que trazem uma abordagem satírica contra a corrupção não temem ser mal compreendidos?

As pessoas, em geral, gostam das nossas peças, principalmente aqueles que quando vão ver um teatro apreciam a sátira, a subtileza e o cuidado com linguagem. Isto é importante porque dá outros níveis da representação aos actores e enleva a qualidade da estória.

Os pilares da sociedade foi escrita há 150 anos. Por que julgam que um espectador de hoje deva ver a peça?

Porque essas negociatas que o Ibsen conseguiu descrever no seu tempo, continuam a existir hoje. E digo mais, existe de outra forma, mais humilhante, porque, inclusive, temos situações contra a sociedade que no séc. XXI não se deve permitir. Ao mesmo tempo, queremos mostrar aos expectadores que o que está a acontecer aqui não é algo único. Ocorre em vários cantos ao longo dos séculos.

Como é recuar no tempo para resgatar uma peça de 150 anos?

Não diria doloroso, mas é um processo que exige muito de nós, sobretudo no diz respeito à leitura. Um actor não tem alternativa, tem que ler para poder compreender e saber interpretar. Esse é o maior problema de hoje. As pessoas não sabem interpretar. E de nada vale ler um texto se não conseguirmos interpretá-lo nas entrelinhas. Sem a capacidade de interpretação, não conseguimos fazer um trabalho que nos dê retorno. É preciso ler, o que for, para também exercitarmos o cérebro para outras coisas.

Mutumbela acredita numa revolta pacífica para que se altere o quadro em que nos encontramos a partir da peça. Como explicar?

Não queremos despertar as pessoas para a violência. É fácil, quando não gostamos de alguma coisa, partirmos esse objecto. E acabou. Mas essa não é, para nós, a melhor via. Não gostamos do copo, por exemplo, tudo bem. Agora, ao invés de partir, podemos transforma-lo até que nos agrade, pintado ou embelezando. A resistência pacífica é uma alternativa que deve ser constante e sem medo, porque a pior coisa que uma sociedade pode fazer é amordaçar os seus membros. Devemos investir no bom senso, transferindo a nossa prioridade ao outro se necessário for.

Sei que com a peça almejam valorizar os 40 anos da cooperação entre Moçambique e Noruega. Que relevância teve essa cooperação para o Mutumbela?

A Noruega tem-nos dado um enorme apoio no acto de fazer com que a cultura do teatro prevaleça. É um apoio oportuno porque não se deve deixar o teatro deslizar. Por essa via, já fizemos umas cinco peças do Ibsen, actuais para a nossa sociedade. Sempre contamos com ajuda da Noruega.  

Os intervalos entre as exibições de uma e outra peça do Mutumbela são relativamente longos. Por quê?

No contexto actual, é complicado continuarmos como fazíamos. Quando nos formamos, durante uns 10 ou 15 anos, fazíamos duas peças por ano. Estreávamos uma e apresentávamos seis meses. Enquanto apresentávamos a primeira, trabalhávamos na segunda. Algumas vezes, apresentávamos a mesma peça duas vezes, num sábado, por exemplo, numa sessão da manhã e da noite. Mas nestes tempos, com a estória da crise, já não basta dar palmadinhas às costas dos actores, é preciso incentivá-los, dando-lhes condições de trabalho e todas necessárias para outras coisas. Enfim, faltam os apoios

Não podem, assim, perder a oportunidade de educar um público de teatro?

Penso que não. Em 30 anos, o Mutumbela já tem o seu público – e mais jovem, que percebem que ali no Mutumbela existe uma escola.   

Os Pilares da Sociedade conta com a participação de Wate Penalva, filho da actriz Graça Silva. É uma homenagem?

É uma homenagem. Mas também porque o Wate, nos tempos que era mais pequenino, quando a mãe leva-o ao teatro, participou em algumas peças, desempenhando pequenos papéis. Ele nasceu no teatro, não tinha como não ser…

Já agora, o que Graça Silva vai continuar a significar para o Mutumbela, para o teatro e para as artes?

Ela deixou-nos uma aprendizagem, a de que quem estiver envolvido com a arte não deve nunca desistir, deve persistir, lutar por um lugar sem ter que apagar a luz de ninguém. Penso que por tudo isso o teatro está agradecido.

Voltando a Os Pilares, qual é o papel que Adelino Branquinho representa nesta peça?

Represento um secretário. E ali podemos ver que hoje em dia há muitos secretários que, no fundo, são apenas lambe-botas, umas verdadeiras Marias vão com as outras. Represento a outra face da humilhação que a corrupção provoca. O secretário deve ser alguém que existe para ajudar ao chefe, e não para bajular ou enganar.

Já houve um personagem que julgou ser mais parecido consigo?

Sim, já aconteceu. Lembro-me quando fizemos a peça Irmão de sangue, representei uma personagem sombria, que tinha algo de diabólico. Não quero dizer que essa seja a minha característica, mas senti que aquele papel caiu-me bem.

Quanto custa para si estar envolvido tão intensamente no teatro por todo esse tempo?

Boa pergunta, mas de difícil resposta. Penso que custa o preço da aprendizagem

Se dissesse que o teatro permitiu-lhe ser autêntico, seria verdade?

É exactamente isso, porque foi no teatro que aprendi a usufruir do prazer. Se tenho esta autenticidade em fazer as coisas é graças ao teatro, que, além de ser divertido, é remédio para ser muita coisa. Para um introvertido, por exemplo, o teatro liberta.  

É possível continuar-se corrupto depois de ver ou representar esta peça?

As pessoas que forem a ver esta peça, se forem corruptas, ou não vão bater palmas ou vão-se rir de forma cínica. Seja como for, acredito que a peça pode contribuir para o corrupto deixar de ser corrupto. Além disso, pode ensinar às pessoas que a corrupção está em vias de extinção, deve ser extinta. Cabe a nós acreditarmos, e, se quisermos construir uma sociedade sã, devemos ir ver Os pilares da sociedade.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Que vejam o que o país tem de melhor na pintura e na escultura.

 

 

Perfil

Adelino Branquinho nasceu a 8 de Fevereiro de 1959, em Cabo Delgado. Integra o Mutumbela Gogo há três décadas, grupo pelo qual representou vários papéis. Além de teatro, sua verdadeira paixão, Adelino Branquinho actuou em filmes. Contudo, antes do palco, Branquinho Foi electricista e técnico de refrigeração.

 

 

 

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"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


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