“Inicialmente, assinámos um acordo de princípio com um investidor americano,
Para o quinquénio de 2005 a 2009, no sector de energia, o governo de Moçambique definiu como acções para o desenvolvimento do sector, a promoção da construção de novas centrais termo e hidroeléctricas em Moatize, Mpanda N’kuwa, Alto Malema, Lúrio e Massingir, a reabilitação de centrais hidroeléctricas de Mavuzi e Chicamba, bem como o reforço do transporte de energia eléctrica, através da construção de novas linhas de transporte energético. Qual é a situação dessas centrais?
Em relação às centrais, o programa quinquenal diz: realizar acções com vista à implementação das mesmas e, neste contexto, foram feitas várias actividades...
Nenhuma delas está em fase de construção?
Ainda não arrancaram (as obras de construção). Trata-se de investimentos elevados e todas as cautelas são necessárias, mas em relação a Mpanda N’kuwa já foi assinado um acordo de princípio com uma empresa brasileira – Camargo Correia –, (mas temos também parceiros nacionais) e já foi realizado o estudo de impacto ambiental. Estou a falar do gestor líder (Camargo Correia). Foi constituída a Sociedade Directa de Mpanda N’kuwa, que já está a funcionar, tendo iniciado o processo de solicitação de contrato de concessão, assim como a autorização formal do projecto via Centro de Promoção de Investimentos (CPI) para efeitos de benefícios fiscais.
CONTROVERSA MPANDA N`KUWA ARRANCA EM 2010
Quando é que arrancam as
obras de construção da barragem de Mpanda N’kuwa?
Esperamos que as negociações dos acordos de concessão de energia com a EDM e outros clientes terminem até Junho deste ano, seguidas da conclusão das negociações financeiras, ao mesmo tempo que se prepara a parte do Estudo com vista à concessão da licença ambiental. Esperamos que este processo termine em Dezembro deste ano e temos indicações do investidor, segundo as quais, a construção deverá iniciar entre Abril e Maio do próximo ano.
E, em relação à Hidroeléctrica de Moatize?
Inicialmente, assinámos um acordo de princípio com um investidor americano, e pode ter sido afectado pela crise, e pediu para que saísse do projecto. A Vale-Moçambique, que está no projecto de carvão de Moatize, pediu para assumir a iniciativa, tendo sido assinado um novo acordo e está-se, neste momento, em processo de realização dos estudos de impacto ambiental e de engenharia de projectos. Esperamos, uma vez que o projecto de carvão arranca em 2010, que a construção da central de Moatize arranque entre finais de 2010 e princípios de 2011. Assim, as primeiras turbinas de produção de energia – na ordem dos 600 MW – poderão estar prontas entre 2013 e 2014.
Em relação às centrais de Lúrio, Massingir e Alto Malema?
Em relação a Lúrio, foi concluído o estudo de viabilidade e, neste momento, estamos em fase de procura de investidores. Estamos a negociar com vários proponentes, mas ainda não se fechou nenhum negócio. No que se refere a Auto Malema, verificou-se que os indicadores do estudo não eram favoráveis, daí que este projecto fica em “banho maria” até que se encontrem formas de melhorar a viabilidade do projecto.
E, relativamente às hidroeléctricas de Mahugo e Chicamba, já iniciou a reabilitação?
Começou, de facto. Estavam previstas duas fases de reabilitação: a fase de reabilitação de emergência, para desbravar os espaços onde as centrais se encontram – que foram construídas entre anos 50 e 60 –, e é por isso que as duas estão com um nível de produção baixo. Depois, irá iniciar a fase mais profunda, avaliada em cerca de 38 milhões de dólares, que inclui a reposição da capacidade inicial.
Sobre a HCB, que já está a operar no seu limite e que se pretendia avançar para a Central Norte, já há perspectivas em relação a avanços neste projecto?
Estamos a trabalhar no sentido de actualizar os estudos. Temos a autorização da Companhia Eléctrica do Zambeze para conduzir este processo em cooperação com a própria HCB. Recebemos uma oferta de uma sociedade de investidores moçambicanos e estrangeiros, que quer construir a central e traz consigo compradores de energia e financiamento. Trata-se de uma oferta irresistível, mas ainda não foi concluída a negociação com a referida empresa, porque, uma vez que a Central Norte é parte da actual HCB, as duas centrais terão que operar de forma integrada. Esperamos que, entre Junho e Julho deste ano, terminem as negociações com esta sociedade e possamos daí assinar o contrato. Assim, a construção poderá arrancar no próximo ano e por aí 2014 deverá entrar em operação.
E quem é o investidor estrangeiro envolvido neste projecto?
Ainda é cedo para avançar os nomes dos investidores estrangeiros.
Muitos ambientalistas argumentam que a construção de grandes centrais hidroeléctricas acarreta alguns custos ambientais, dentre eles, a destruição da biodiversidade existente nas zonas onde serão construídas. Até que ponto os pareceres das organizações ambientalistas são observados na elaboração e implementação destes projectos? O Governo de Moçambique está preparado para efectuar a fiscalização dos aspectos recomendados pelos ambientalistas?
- Sim, aliás, não olhamos para aquilo que é só a visão dos ambientalistas. É que os nossos ambientalistas, infelizmente, não baseiam os seus argumentos em factos concretos. Baseiam-se em analogias tiradas de outros projectos, mas nós tomamos as nossas decisões de acordo com os dados obtidos no terreno.
Tomando em consideração os aspectos ambientais, há estudos integrados que asseguram que seja possível manter em funcionamento, simultaneamente, as barragens de Cahora Bassa Norte e de Mpanda N’kuwa a nível daquela região do Zambeze?
Absolutamente. Os estudos de impacto ambiental em relação à construção das duas barragens – apesar de estarem separadas por cerca de 60Km – já recomendam a gestão integrada do sistema, como forma de evitar efeitos negativos a nível do rio Zambeze.
Qual é a perspectiva que se tem com essa energia que vai ser gerada por estes projectos todos já enumerados?
A partir da actual Cahora Bassa, nós temos reserva suficiente de energia para prosseguir com o nosso programa de electrificação, sem grandes constrangimentos. O objectivo fundamental destes projecto é aproveitar o nosso potencial natural, para desenvolver a capacidade de oferta de energia com o propósito de atrair grandes projectos. Na região, há escassez de energia, o que vai determinar nos próximos anos o destino do investimento de qualidade.
No período de 2005 a 2008, o sector de energia e águas registou uma tendência crescente dos níveis globais de produção, com uma taxa acumulada de crescimento de cerca 27.8% e uma taxa média anual de cerca 6.9%, de acordo com o Balanço de Meio Termo do Governo. No entanto, no ano de 2008, o sector verificou uma queda significativa na produção real na ordem dos 3.3%, devido ao abrandamento da produção de energia eléctrica, que caiu de 16.075.430 MWh, em 2007, para 15.125.710 MWh, em 2008, (decréscimo de 5.9% no volume de produção). Quais foram as razões deste abrandamento?
Houve razões em ambos os extremos, portanto, na África do Sul e também no Songo, (onde se localiza a HCB). Algumas dessas razões estavam programadas e outras não. Em relação às razões programadas: tanto a parte sul-africana como a moçambicana previam a realização de obras de reabilitação e manutenção das suas subestações. Mas, na África do Sul, a reabilitação acabou levando mais tempo do que estava programado. E isto obrigou a uma paragem de produção durante muito tempo. Por seu lado, a HCB esteve sem produzir energia mais tempo do que estava previsto, porque não podia absorver a energia que estavamos a produzir e isso contribuiu para a perda de 3%. A barragem também ficou paralisada, parcialmente, durante cerca de dez dias para se concluir o trabalho de modernização da central. Havia componentes dessa reabilitação, que implicavam a paragem das turbinas durantes alguns dias para se puder abrir e concluir a reabilitação. Foram essas as razões. E, se não tivesse sido ultrapassada a parte programada do lado sul-africano, essa redução de 3% não teria ocorrido. Aconteceu porque o crescimento programado tinha em conta essa paragem, mas a paragem ultrapassou o tempo previsto.
Combustível
Uma questão recorrente que vários analistas têm levantado é do elevado custo de combustível em Moçambique em relação aos seus vizinhos. Alguns países da região utilizam os nossos portos para a importação de combustíveis e, mesmo assim, praticam preços relativamente competitivos em relação aos praticados no nosso país. Que razões justificam o custo elevado do combustível no nosso país?
Primeiro, a grande diferença entre nós e os outros é que os outros importam o crude, o petróleo bruto, e podem minizar os custos porque refinam e produzem combustíveis. Nós importamos o combustível refinado, porque não temos refinaria.
Segundo, outros países como a África do Sul importam grandes quantidades de combustíveis e têm grande capacidade de armazenamento, para além de unidades de referinaria. Daí que conseguem ganhos de escala comparativamente a nós, porque o nosso mercado é pequeno e a nossa capacidade de armazenamento é pequena.
O Governo construiu o Terminal Internacional de Petróleos na Beira, justamente com o intuito de aumentar a capacidade de reserva. Qual é o impacto que isso teve no preço ao consumidor?
Ainda é pequeno. São 95 mil metros cúbicos. Nós precisávamos de aumentar, pelo menos, mais 500 mil metros cúbicos de capacidade de armazenamento do país, para passarmos a ter impacto. Uma capacidade que nos permitisse, por exemplo, importar para um ano inteiro. Neste momento, não podemos. Dá só para três meses. Nós gastamos cerca de 1 bilião de litros de combustível por ano, precisávamos de ter uma capacidade de armazenamento de 1 bilião.
Moçambique tem mais energia que RAS
ESKON E MOZAL
Em termos de valores das receitas líquidas do sector de energia para a BOP, no período de 2005 a Setembro de 2008, o sector de energia contribuiu em termos acumulados em cerca de 404.3 milhões de dólares norte-americanos, tendo registado uma taxa média de crescimento anual das receitas líquidas na área de energia para a BOP de cerca de 17.67%. No entanto, importa salientar que ao longo deste período, as receitas de importação de energia registaram uma tendência crescente de cerca de 8.08% por ano, com a excepção do ano de 2008. Porquê esta tendência de crescimento na importação de energia, se temos um enorme potencial hidroeléctrico e a HCB passou a ser nossa desde 2007?
Temos uma componente de consumo de energia no país que é importada. Essa componente de consumo é fornecida à Mozal. Pelas razões que acabamos de referir aqui, a falta de uma infra-estrutura de escoamento de energia, dentro do país, não permite que a energia que geramos no Songo possa chegar a Maputo para alimentar as indústria e os outros propósitos económicos e sociais. Isso fez com que se assinasse um contrato na altura em que a Mozal arrancou, o qual estabelece que a Eskon garante o fornecimento de energia àquela empresa. Esse contrato tem uma duração de 20 anos, portanto, ainda estamos no meio da execução desse projecto. Não se pode contornar.
Qual é a margem de renegociação desse contrato no sentido de que as nossas indústrias não estejam expostas às oscilações e às crises que acontecem do lado sul-africano?
O contrato tem vantagens do ponto de vista de tarifa. É um contrato com uma tarifa preferencial. portanto, a tarifa que a Mozal estabeleceu com a energia da África do Sul é preferencial, é mais baixa. Neste momento, em que há escassez de energia, há interesse dos sul-africanos em rever esse contrato para passarem a uma tarifa mais cara, ou simplesmente, que se corte o fornecimento de cerca de 900 MWh fornecidos à Mozal, para passarem a ser consumidos dentro da África do Sul. Achamos que isso não deve acontecer, porque não temos alternativa. Se tivéssemos capacidade interna para substituir, talvez teríamos entrado nessa negociação. Mas ainda não estamos numa fase em que possamos facilmente dizer que queremos renegociar esse contrato.
Qual é a margem de negociação que o governo tem já que, não tendo alternativa, pode suscitar-se uma especulação...
Somos exportadores líquidos de energia para a África do Sul, apesar do contrato. Temos uma palavra a dizer e os sul-africanos também. Neste momento, temos do contrato firme cerca 1.400 MWh e temos do contrato não firme, resultante do quinto gerador da HCB, mais 250 MWh. Estamos a falar de 1.700 MWh que estamos a exportar para a África do Sul, produzidos pela HCB e estamos a receber da Eskon para a Mozal cerca de 900 MWh. Portanto, quem sairia a perder numa eventual renegociação desse contrato, segundo a qual não importaríamos mais energia da África do Sul a favor da nossa, seria a própria África do Sul, porque ficávamos com muito mais energia do que eles. Está no intesse de ambos os países manter este contrato em operação, tanto mais que queremos ser parceiros, juntamente com eles, nos novos projectos e queremos respeitar os contratos que existem.
A nível da região da África Austral, Moçambique notabiliza-se por ser um dos maiores produtores de energia eléctrica e que exporta para as economias vizinhas. Contudo, a nível nacional, é frequente o levantamento de reclamações por parte dos consumidores, quanto ao custo e à qualidade de energia fornecida. Quais são os factores por detrás da fraca qualidade da energia eléctrica fornecida e do elevado preço ao consumidor final?
A prioridade número um, neste momento, é expandir a energia para os lugares onde não existe. Partimos duma situação, em 2004, que tínhamos um nível de acesso de 7% e, em 2009, atingimos 14%. portanto, duplicámos a electrificação rural e a iluminação das cidades e vilas.
A questão é como explicar ao cidadão que vive num país que é uma potência energética a nível do continente africano, mas que a energia que recebe não tem muita qualidade e é cara?
Hão-de reparar que, até à reversão da HCB para Moçambique, o nível de intensificação da electrificação rural era bastante lento. Neste quinquénio, electrificámos 34 sedes distritais novas. É um sinal de que a própria HCB já está a contribuir para que a situação possa ser melhorada, não só no sector da energia como noutras áreas. Isto é feito aumentando o número de consumidores e investindo em infra-estruturas de qualidade.
Privatização dos serviços de fornecimento de energia
O Governo de Moçambique já reflectiu na possibilidade de uma liberalização do sector de energia?
A lei de electricidade diz, claramente, que o sector de energia está aberto à participação do sector privado. Houve uma experiência de uma concessão privada no sistema norte de Inhambane, mas tivemos grande infelicidade com o concessionário que ganhou o concurso, porque houve problemas de relacionamento, (o concessionário) não tinha muita experiência de gestão num sistema daqueles, depois a atitude perante as autoridades, os consumidores (...). A relação não foi boa e obrigou-nos a entregar aquele projecto à EDM. Foi uma pena, porque era a primeira experiência dum sistema gerido por um privado. Contudo, continuamos abertos a novas oportunidades. Acreditamos que a participação privada na distribuição pode ajudar a melhorar os problemas da qualidade e acelerar a expansão. Todavia, no que diz respeito à geração de energia, há projectos de parceria publico-privada, em que a EDM e HCB estão juntamente com outros investidores nacionais e estrangeiros. Portanto, a parte da geração e distribuição está aberta, mas a parte da transmissão é controlada tendo em conta que envolve toda a infra-estrutura de transporte de energia nacional. Neste momento, o Conselho de Ministros decretou que a EDM é a gestora da rede nacional de transporte de energia, mas, no caso da linha Tete/Maputo, que é a espinha dorsal, estamos a trabalhar com um consórcio que inclui a EDM e parceiros privados. Trata-se duma primeira intervenção privada na transmissão de energia.
Se surgirem outros investidores interessados nesta área, tendo em conta que o Conselho de Ministros já decretou que a EDM é gestora da linha de transmissão, qual será a possibilidade de se recuar?
Vão ser aceites se apresentarem bons projectos, boas ofertas e propostas. Estou a falar justamente da linha Tete/Maputo em que há privados que estão a participar.
Referia-me a uma gestão independente do Estado, ou seja, em que todos os investidores fossem privados...
Neste momento, não queremos encorajar isso. Há países que privatizaram secções da rede nacional e tiveram problemas que os fizeram recuar, incluindo a África do Sul. A África do Sul com toda a musculatura que tem teve que recuar, porque alguma coisa não estava bem. Nesta fase, encorajamos o aumento de sistemas da rede nacional em que participem privados com a Edmpresente.
O Governo alguma vez já ponderou a privatização da EDM?
O governo já reflectiu e concluiu que, nesta fase, não é conveniente privatizar a EDM, porque ela tem um contrato-programa com o Governo, o qual tem uma série de indicadores. Os 340 mil novos consumidores que foram ligados de 2005 a 2009 à rede eléctrica pela EDM, as 34 sedes distritais que foram ligadas à rede eléctrica, os cerca de 4.000 Km de linha de energia que foram construídos, neste perído, só foram possíveis, porque temos um instrumento do Estado, a EDM, que pode ir para onde o negócio é rentável. E, também utilizando aquilo que é o esquema do subsídio cruzado, em que a EDM vai buscar recursos das zonas mais rentáveis para financiar as menos rentáveis. Enquanto não tivermos, pelo menos, 50% da população com acesso à energia, não é recomendável a privatização.





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