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Início Opinião José dos Remédios O insólito em “Choriro”, de Ungulani ba Ka Khosa

O insólito em “Choriro”, de Ungulani ba Ka Khosa

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O desenvolvimento faz-se arrumando convenientemente o passado e organizando o presente para se ir de encontro ao futuro.

João Paulo Borges Coelho

Vários autores referiram-se ao insólito, ao analisarem a escrita de Ungulani Ba Ka Khosa. Ainda assim, resolvemos insistir nesta temática porque este fenómeno frequente nos prosadores moçambicanos parece perseguir o imaginário do autor, ao se materializar em “Choriro”, seu penúltimo livro.

“Choriro” traz-nos a história de Gregódio, também conhecido por Nhabezi, um português que devido às suas virtudes conseguira reinar as sociedades do alto Zambeze.

Começando pelo episódio da sua morte, entre um acentuado uso das descrições do universo da história, das personagens que nela integram e recurso permanente às anacronias, modalidades técnico-narrativas que permitem a entidade enunciadora do discurso antecipar ou recuperar eventos, quase sempre a adiar o essencial da história, o narrador vai traçando um quadro que introduzem o leitor no contexto da civilização do vale do Zambeze de há alguns séculos, o que o permite captar o modos vivendi e as suas convicções.

Projectado este quadro, com uma pormenorização e densidade de escrita que caracterizam Ba Ka Khosa, ao nível linguístico e semântico, o texto vai proporcionando elementos que permitem urdir o insólito, quer através das reacções das personagens, quer através dos conhecimentos empíricos do leitor, os quais, em uníssono, criam uma certa estranheza no imaginário ao se enxergar o rei branco nos povoados do místico rio Zambeze, numa altura em que, como agora, a cor da pele move tudo e nada, dependendo das circunstâncias.

Neste livro, com a imagem de Gregódio, Ungulani tenta ir para além do que o horizonte comum da história do seu país proporciona; recupera o contacto entre os povos africanos e europeus, para mostrar que afinal as influencias não foram unilaterais, como as fotografias ocidentais fazem parecer.

Mais do que isso, Nhabezi é a desconstrução, ousada subversão do imaginário africano do antigamente, por não contemplar no seu repertório folclórico a possibilidade de um estrangeiro, branco, sem ligações com os ancestrais locais, ser rei, e, simultaneamente, do europeu, ao mostrar que alguns deles deixaram-se encantar, ao ponto de largar a Europa, em troca dos fascinantes mundos objectivos e subjectivos de um povo quase telecomandado pelos ancestrais.

O efeito do insólito em “Choriro” tem no reinado do português Gregódio a principal causa, porque, ainda que não fosse um fenómeno impossível um estrangeiro branco reinar e ser tão consensual nas antigas civilizações do Zambeze, se acontecesse, transformar-se-ia num evento incomum – a bem da verdade o insólito é isso, a ruptura com o habitual. Isto ganha mais relevo porque, com a morte do rei, as próprias personagens que o aceitaram em vida, duvidam de que os espíritos do Zambeze irão aceitar a alma do rei, mesmo tendo sido bom homem.

Certamente, nesta narrativa, ao viajar no tempo passado, um outro traço da sua escrita, Ba Ka Khosa revela um inconformismo em relação ao modo como o legado histórico é tratado e veiculado às novas gerações. O insólito em “Choriro” é apenas uma consequência do resgate de um episódio que ao aproximar as culturas diferentes, os holofotes desligaram-se, talvez, por não ser conveniente registar o instante. “Choriro” é o holofote desse instante.

 

 

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