Xipikiri significa prego, na língua que me levou ao colo, sob o embalo protector da capulana, e me deu a provar os goles amargos do dlhaya nhoca, o remédio servido no xihlambetuana, pequeno vaso de barro, para equilibrar os meus magnetismos espirituais com a lua.
Pronuncia-se assim: xipikirri!, com uma ginga descontraída no sotaque, empinando os beiços, a língua recolhida para lá dos dentes cerrados, a lamber o céu da boca como se provasse os sabores à coco ralado e amendoim pilado, com que esta língua é temperada.
Xipikiri talvez não se escreva assim, mas pouco importa a grafia em dias de outras prioridades: onde há urgência em fazer contas mais do que andar a escrever.
Xipikiri, nem sei se se escreve: é uma língua onde a informação sempre foi documentada à canto, nas longas noites à volta da fogueira, as históricas karinganas...
Xipikiri levanta-se muito cedo, quando sente as falanges calejadas do marceneiro a afagarem-lhe as costelas, lá no fundo da caixa antiga de ferramentas. Num ímpeto de higiene matinal, limpa a ferrugem que lhe cobre o metal frio da pele. Olha rapidamente para o reflexo, num pedaço de vidro ou numa chapa polida que estiver por ali. Percebe que está magro, magro mas robusto, habituado à dureza da vida. Mas não há muito tempo para se espelhar. Ajeita o corpo franzino, o músculo de aço, levanta a cabeça, ajusta o capacete achatado pelas marteladas do dia-a-dia. Despede-se das outras ferramentas, com uma frieza metalo-mecânica, aprendida na dureza do trabalho, e vai trabalhar.
Operário exemplar, o xipikiri segura-se, entre os dedos do marceneiro, como a um cinto de segurança recomendado nos manuais de Higiene e Segurança no Trabalho. Sente, aos pés bicudos, a textura da madeira submissa, conformada com o destino de ser furada. Endireita o crânio achatado. Sente, pelo uivo do vento, a fúria com que o martelo se aproxima. Fecha os olhos como se mergulhar no escuro o ajudasse a suportar o golpe. E aguenta o ding(!) ensuredecedor na cabeça. Metal com metal, até faz faísca. Não se dobra. Matem-se hirto, frio, metálico, habituado às marteladas do dia-a-dia. Percebe às ondas de choque descerem-lhe coluna abaixo e os pés afundarem na madeira. De novo o uivo do vento, a fúria do martelo, fecha os olhos e aguenta o golpe, as ondas de choque a descerem-lhe coluna abaixo e os pés afundarem cada vez mais. Ao quarto ou quinto golpe já se entranha na madeira até à cintura. Depois até ao pescoço. Por fim, golpe final, afunda por completo.
É sua sina não vergar às marteladas. É a suportar marteladas que o pequeno xipikiri ganha robustez para cumprir com zelo o seu turno: segurar as ripas de madeira e aguentar a construção. Na marcenaria da vida também é assim: a força com que nos fazemos ao mundo depende das pancadas que este nos brinda.
Nesta coluna, igualmente franzina mas robusta, de textos com força e determinação de um xipikiri, há uma esferográfica, cinzel delicado, que não suporta pancadas mas propõe-se a esculpir textos, inspirada nas lições à martelada que recebemos da vida.
Esta coluna chama-se xipikiri! Bem-vindo.







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