XIPIKIRI
Lila surgiu por entre a vegetação pálida, em panos garridos, como um fruto silvestre rebelde, que se solta e põe-se a passear de árvore em árvore.
Ajeitou a capulana, contornou os arbustos, abraçada à uma vasilha de barro, e veio flutuando até à margem do rio Save.
Era a mesma Lila, irmã do Tito, que conhecera no livro de português da primeira classe, quando a professora, de régua e giz na mão, enrolava a língua a pronunciar o L e dizia-nos: “L com I é LI. L com A é LA. Li-La”. E nós repetíamos, lambendo com a língua o céu-da-boca para alcançar a doce fonética do L: “Li-la”. Era a mesma Lila. Tinha o mesmo brilho nos olhos e o tempo lhe tinha acrescentado encantos, enriquecendo-lhe a polpa e acentuado os desvios da silhueta.
Evitou olhar para mim. O olhar minguou para o chão, como duas luas desistidas. Aproximou-se do rio. Com a água pelas canelas, agachou-se e decantou a água para dentro do recipiente. Percebia-se o lamento do rio na ressonância da vasilha. Os revérberos do sol, nas águas, luziam a capulana e rematavam a fotografia.
Levantou-se, fluindo nos gestos. Ajudei-a a levar a vasilha à cabeça, amortecida pelo crespo do cabelo e por um lenço enrolado para tal. A água respingava, gotas de rio, molhando-lhe os volumes.
– Lila...
Ainda não olhou para mim. Arrastou o olhar pelo chão. Percorreu o areal, as gramíneas sem viço, os arbustros sem verde e mergulhou nas águas melancólicas do Save.
– Lila...
Quis tocá-la. Disse-me não, com um gesto, equilibrando a vasilha na cabeça.
– Não podemos continuar.
Agora olhava para mim. Bonita, como no livro da primeira classe. Na página dezassete, onde se lia, a turma em coro ou em leitura silenciosa, “A Lila pula”. Nunca errei a divisão silábica àquela frase: “a-li-li-pu-la”. Agora queria dividi-la a ela, em sílabas, escrever-lhe o corpo, ler-lhe os sentimentos.
– Olha para o rio Save.
– O que tem o rio?
– Este rio nos separa. Tu és do lado de lá e eu de cá.
– Mas Lila, somos uma única nação. Não há lados de cá nem de lá.
– Não. Agora com a guerra vão dividir o país. Vais passar a ser estrangeiro aqui deste lado do rio. Podes vir precisar de passaporte e visto de entrada para me vir ver. Já pensaste? Talvez ponham arames farpados ao longo do rio. Não quero um amor com fronteiras. Não quero um amor que precise de vistos de entrada.
Desviou o olhar para disfarçar a lágrima. Quando olhou para o horizonte, o sol de partida, os pássaros migrando, senti no ar o amargo sabor à despedida. O crepúsculo avermelhava o rio.
– Vês a cor deste rio que nos separa? É só sangue.
– Lila...
Não me respondeu. Foi-se embora, equilibrando na cabeça a vasilha, como se equilibrasse a consciência. Não lhe vi o rosto, mas percebi pelas águas, que o Save inteiro chorava.







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