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Quinta-feira
03 de Dezembro
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A Pomba

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XIPIKIRI

Do mato, silêncio. Nem os pássaros. Desapareceram com a guerra, diz-se. O sol trepava pela manhã e castigava a pele despreparada do diplomata. Veio de longe, de onde o sol é fraco, para mediar o conflito entre os dos mato e os que também matam. Impacientou-se com a demora. Olhou instintivamente para o relógio. Espancou um mosquito no pescoço suado. Aliviou o nó da gravata. Acendeu um cigarro.

Um estalido interrompeu-lhe o bocejo. Virou-se ansioso para a mata. As folhas farfalharam. Os insectos revoaram. Do âmago escuro da vegetação surgiram as silhuetas dos homens. Num salto, em poses de surpreender o inimigo, irromperam para a clareira, como se o mato parisse gente. Eram os guerrilheiros. Viu-se, no suor e no fôlego, que não vinham de longe. Tinham estado por ali a vigiar, em manias de reconhecimento militar.

Os outros vieram depois. Pela estrada. Menos tensos e mais aprumados. Também com ares de terem estado a fazer tempo para, num jogo de orgulhos e importâncias, não serem os primeiros a chegar.

Andavam curvados ao peso das AKM a tiracolo. Olhavam de esguelha uns para os outros. Desconfiados, só cederam ao aperto de mão em respeito à pele clara do mediador. Ouviu-se, no aperto de mão, o restolhar dos calos de acariciar gatilhos. O homem de pele clara conteve o bocejo. Limpou o suor, endireitou os óculos e manteve a pose:

– A ideia é caminharmos, lado a lado, para frente. Para a paz.

– Como é a paz? – Perguntaram, com certo brilho nos olhos vermelhos.

– A paz é uma pomba enorme, branca e linda – poetizou o diplomata.

– Mas, se vamos caminhar para frente, onde é “frente”?  – O mediador virou-se para quem falava, como se o fosse ouvir pelos olhos.

– “Frente” é lá – sugeriram outros, obrigando o diplomata a rodar bruscamente a cabeça para o outro lado –, vamos assim.

– Não, lá é sul – reclamaram os das etnias mais à norte –, vamos para lá.

– Não. A “frente” é o futuro e o futuro não é lá. A “frente” de um país é onde está a capital.

– Não. É onde há mais riqueza, recursos minerais?

– Não. É onde há mais eleitores?

– Consulte-se as leis.

– Mas as leis estão ultrapassadas.

– Mudem-se, então, as leis.

Impasse! O mediador virava a cabeça para um e outro lado, ao ritmo da discussão. As partes olharam para ele, à espera duma solução internacional. Podia ter-lhes mandado àquele lugar indelicado, lembrar-lhes que ali não era terra dele, que não conhecia os caminhos, nem frontes e nem as traseiras do país. Mas para não pôr em causa a hegemonia da pele, e uma vez que o problema era só de geografias, apontou para um lugar intermédio ao que uns e os outros indicaram:

– Então vamos para ali – percebeu, pela posição do sol, que apontava para este –, onde nasce o sol. É dessa luz que precisamos, para renascer.

– Vamos pelo mato, é mais rápido – propunham os do mato.

– Não. A paz não está no mato. Está nas estradas, no progresso.

Outro impasse. O mediador decidiu por um atalho, meio-termo entre os caminhos e não caminhos. E caminharam, muito, com os corpos curvados ao peso das armas à tiracolo, até verem, entre os vestígios da guerra, uma ave caída, a estrebuchar.

– Uma galinha!

– Não, é uma pomba. É a pomba. É a paz.

– Mas a pomba da paz é branca e voa...

– Esta é branca, só que está ferida e suja com fuligem da guerra.

Um dos homens agachou-se. Segurou na ave com calos de premir gatilhos. Afagou-lhe as penas. Quando a ave se aconchegou ao calor daquelas mãos, mordeu o bicho vorazmente. Sorveu o sangue, revirando os olhos vermelhos, de prazer.

– Não faça isso. É a pomba...

Ajeitou a AKM nas costas e disse, mastigando, com a boca ensanguentada e plumas a soltarem-se da fala:

– Tenho fome.

Os outros também tinham fome. Queriam provar a pomba. Na disputa ouviu-se um tiro. O diplomata levou a mão à cabeça, apercebendo-se de que no percurso para a paz, ninguém se lembrara de deixar para trás as armas.

 

Fotogaleria: DIA DOS HERÓIS MOÇAMBICANOS

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"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


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