XIPIKIRI
Foi aquela senhora. Juro. Eu posso voltar a explicar:
A senhora fez um gesto maternal para endireitar a capulana que segurava, às costas, algo que se presumia ser uma criança. Ajeitou as saias para alcançar o degrau alto do chapa. Com ajuda dos braços, fez um esforço descomunal para subir. Foi quando pus os olhos nela e tive uma sensação de já a ter visto antes. Eu conheço esta senhora, pensei.
Eu estava sentado no banco desconfortável do chapa, junto à porta. Entretido em me lembrar donde a conhecia ou distraído com os fantasmas do custo de vida, não me ocorreu a cavalheirice de lhe ceder o lugar. A mulher parou ao lado, de forma que a sua sombra, sinistra como todas as sombras, se projectava sobre mim. Quase caía, quando o chapa arrancou bruscamente, com a pressa de costume. Valeu-lhe a agilidade do cobrador que, por trás dela, apoiou-lhe por onde deu, segurando-a pelas partes óbvias. Eu conheço esta senhora, pensei.
“Ixi!”, reclamou a senhora. No trambulhão, o cobrador tocou no volume nas costas da senhora. Cheirou e olhou para a mão, acto contínuo, olhou para a senhora. Ocorreu-me aquele calafrio desagradável de déjà vu: Já vivi isto antes.
O cobrador voltou a cheirar a mão e olhar para a mulher com desconfiança. O déjà vu martelava-me. Percebi, pelos zunzuns, que outros passageiros também descofiavam. “Senhora, chega para trás, para dar passagem a outros passageiros.” Pedia, sem cordialidade, o cobrador pendurado à entrada. A senhora disse “tsc!”, e fez a cara que elas fazem quando são contrariadas. Encostou-se ao meu assento, deixando-me muito próximo da sua fachada frontal e disse “passem por aqui” como se sua retaguarda não bloqueasse o resto do caminho.
O cobrador gritava pelo destino à cada paragem, contava os trocos e cheirava a mão. O chapa acelerava e travava. Eu aguentava os solavancos e encontrões da senhora. Alguém perguntou: “o que tráz nas costas?”. Os sussurros pareciam concordar com a pergunta. A senhora endireitou o suposto bebé e sacudiu-o, levemente, para niná-lo. Fez aquela cara convincente que as mulheres fazem quando nos enganam e enfatizou: “é uma criança”. O déjà vu tornou-se-me mais incomodo. “Desamarra lá a capulana, queremos ver”. Foi a luz, resolveu-me a equação do déjà vu e lembrei-me donde a conhecia: Era a Sabina!
Foi há muito tempo. Antes de haver chapas na estrada. Os chapas andavam na linha férrea. No comboios que fazia carreira para Manhiça, havia uma passageira sinistra. Era a Sabina! (Vocês conhecem. Até Wazimbo já cantou. Perguntem). Desconfiados, perguntaram-lhe o que trazia nas costas. Jurou que era uma uma criança. Obrigaram a mostrar. No instante em que desamarrou a capulana, toda agente fugiu. Afinal, era um crocodilo.
No chapa, quando o cobrador cheirou a mão, franziu a testa e insistiu: “mostra lá!”, a mulher fez cara de vítima, recolheu-se na fraqueza feminina e fez aquele teatro com que toda a mulher acuada se defende. Ajeitou a capulana de modo que o embrulho saísse das costas para frente. Abraçou a coisa protegendo-a de qualquer desconfiança e enfatizou: “é bebé isto”. Alguém puxou o nó da capulana e forçou-a a desamarrar. Quando viram, o cobrador deu um salto. Toda a gente fugiu. A senhora gritou. Distanciou-se do conteúdo. Disse que era feitiço. Que lhe transformaram o bebé. No susto, largou isto para cima de mim. Segurei, o que para mim seria um bebé. Foi quando vi que era este nado já sem órgãos. Por isso a polícia encontrou isto no meu colo. Foi a Sabina. Juro.







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