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Quinta-feira
03 de Dezembro
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Pátria Armada

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XIPIKIRI

Na memória de África e do Mundo fumegavam ainda os canos do vinte e cinco de Setembro. Na pátria bela dos que andam a lutar, o homem largou a kalashnikov. Deixou-a escorregar lentamente conforme se foi apercebendo do ferimento. Precisava das duas mãos para confirmar. Levou-as ao pescoço e olhou para as palmas: sangue! Segurou a ferida tentando conter o líquido, inútil, pois jorrava como uma torneira avariada. Sentiu algo incómodo, entre suor, frio e tontura: pânico! Não demorou que as forças começassem a falhar, como se estivesse com as pilhas gastas. As pernas eram muletas impotentes. Dois pilares a perderem o alento para engenharia à que foram concebidos. Precisava apoiar-se. Segurou-se ao nada para não cair. Naquele instante queria ser uma árvore, para se aguentar. As árvores aguentam a vida toda e morrem de pé, como disse o poeta.

A kalashnikov saiu da mão, a coronha apoiou-se ao chão e o cano encostou-se, na perna, à textura caqui oliva do uniforme, mas foi cedendo, lentamente. Quando a arma caiu, o homem percebeu então que não iria resistir de pé por muito tempo. Cedeu, também, enquanto as forças ainda podiam amenizar o baque da queda. Deixou-se cair, sem o dramatismo da câmara lenta dos filmes de acção. Fez-se ao chão como quem se faz a um colo, o colo do seu país, Moçambique, nossa terra gloriosa.

Mo­çambique, nossa terra gloriosa, recebeu-o de braços abertos. De bruços no abraço, ocorreu-lhe o colo doce da mãe. Morrer devia ser sempre assim: abraçado ao colo materno do nosso país, pensou, vendo-lhe de perto as flores brotando do chão do seu suor.

Sentia a alma a verter pela ferida, ao ritmo batucado da pulsação. O rosto no chão, panado de areia. Levou a mão ao pescoço, outra vez, como se contendo sangue pudesse segurar a vida que escorria por entre os dedos. Perguntava-se: Pátria bela, porque andamos a lutar?

Socorro! Quis gritar, mas o sangue engasgou o grito. Molhava a respiração. Tossiu. A tosse afogava. Socorro! A voz negava. O sangue jorrava. Revisitou, em vão, todos os manuais de sobrevivência de que tinha memória. Não quero morrer. Ocorreu-lhe, com desespero, a mãe a receber o telefonema com a notícia da sua morte. Os filhos desamparados, a não colherem os frutos do combate pela paz. Vou morrer! Não quero morrer... Se morrer, o sol de Junho para quem brilhará?

Moçambique o teu nome é liberdade, desabafou, como se negociasse, em pensamento, tréguas com a morte, abraçado ao chão colo de Moçambique, nossa terra gloriosa. O sangue empapava a areia. O cheiro a húmus, intimidade da terra, misturava-se ao ferro do sangue. A vida vazava pela ferida. Foi se sentindo vazio, cada vez mais pequeno. Agora do tamanho dos insectos, das gramíneas, dos grãos de areia que via de tão perto. Socorro! A voz era só sangue. Pela ferida. Pela boca. Pelas narinas.

Viu uma formiga operária que, pedra a pedra construindo um novo dia, não percebia a enchente no rio de sangue que a cercava. Cuidado!, quis avisá-la, em vão, a voz era só sangue. Pátria bela, porque andamos a lutar?

Quando a torneira abrandou e o coração já não tinha mais trabalho para bombear, começou a sentir-se leve, sem densidade, mais alma do que corpo, a vazar também, pela ferida. Deixou-se ao vento, levedando, como o sonho ondulando na bandeira, que vai lavrando na incerteza do amanhã.

A Kalashnikov, fiel, ao lado do corpo, é a mesma que tem um retrato na bandeira e parecia perguntar: ó pátria armada, quem vai vencer?

 

 

Fotogaleria: DIA DOS HERÓIS MOÇAMBICANOS

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Fotogaleria :VISITA DE RECEP ERDOGAN A MOÇAMBIQUE

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"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


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