XIPIKIRI
Soltou os tinlholos, aquelas pedrinhas com wi-fi para os ancestrais, como se jogasse dados no casino das verdades. Eram pequenos búzios, ossículos, seixos e outras coisinhas de intensa arqueologia, rebuscadas na profundeza da sabedoria secular. Saltaram ansiosas, das velhas mãos, e rolaram sobre um lenço sem cor. O velho de cócoras e eu de rabo no chão e as pernas dobradas à posição de yoga, em contraste com os assentos almofadados do gabinete. Inclinei-me, à inércia do movimento das pedras. O meu gesto perturbava a comunicação. O velho olhou para mim. Recompus-me, endireitei o tronco e a gravata que me dava ares de candidato. Foi quando me apercebi de que o velho jogara as pedras antes de eu lhe revelar à que vinha, que queria saber do ambiente político e social, e fazer uma prospecção para a minha possível candidatura.
As pedras dispuseram-se em grupos que recusavam a vizinhança um do outro. O velho leu-lhes. O dedo indicador apontou, com a lentidão da idade, para um montículo que se ajuntava na borda do lenço e grunhiu desconfiado: Hmmm! Percebeu-se escarro fossilizado na garganta. A cubata quase estremeceu com o timbre da voz. Recolheu as pedras na velocidade de quem arrasta a idade nos gestos. As mãos em concha, fechou-as como se fossem uma velha amêijoa. Sussurrou algo para dentro das mãos, segredando instruções, como se um telefonema para o passado. Revirou os pulsos e ouviu-se as pedras restolharem nas lascas das palmas. A amêijoa abriu-se como a escotilha duma embarcação calejada. As pedras saltaram com a ansiedade que se imagina. Rolaram pelo pano. Dispuseram-se na mesma ordem de há pouco, causando um espanto desconfortável, sinistro.
– Hmmm! – repetiu o velho. Eu coçava a comichão do nervosismo, entre os dedos dos pés. Os sapatos ficaram à entrada. Só entram o respeito e as meias furadas ou não, pela porta de meia altura daquela cubata. A luz parecia pedir licença ao lugar. Os feixes espreitavam, tímidos, pelas frestas de colmo e incidiam curiosos, sobre o velho pano e sobre as mãos do velho, fazendo do resto penumbra. A poeira da agitação das pedras flutuava pelos feixes de luz e celebravam, com a leveza, o silêncio. O velho apontou para as pedras, realçou a distâcia entre elas com um gesto, e voltou a grunhir:
– Hmmm!!! Aqui há divisão – na voz, parecia arrastar uma locomotiva encalhada – estes não se entendem. São a mesma família, são irmãos, comem da mesma panela, habitam a mesma casa, mas estão sempre a lutar. Nem conseguem dialogar.
– De que partido são?
– Não são partidos. Os partidos não lutam. São pessoas. Na guerra não há partidos. Partidos estão nos gabinetes. Na guerra só há pessoas e sangue. Estão muito zangados.
– Os partidos?
– Não, os donos da terra.
– Mas a lei diz que a terra não tem dono?
– Tem sim. São os antepassados e quando se zangam atraem muita desgraça: guerra, seca, cheias, crise – apontava para uma pedra escura, de todas a mais sinistra, encavalitada noutras.
– E como se resolve isso? Uma missa nacional? O ministério pode disponibilizar bois para o sacrifício e verbas. Talvez um diálogo político com os antepassados? Ou a mobilização de todos os espíritos nacionais, um comício com os antepassados...
– Os antepassados só querem respeito. Vocês políticos, antes de chefiarem as suas terra, consultem-nos. Eles também querem votar.
Voltou a apontar para as pedras no norte do pano sem cor. Depois para o sul do pano. Indicou a distâcia com um gesto. Havia uma pedrinha no meio do percurso entre os dois grupos:
– É esta que corta a circulação – explicou que os caminhos por onde as pessoas circulam são como os caminhos do sangue, que as estradas são as veias do país que, com a guerra, a artéria que nos liga do norte ao sul estava bloqueada –, está a acontecer ao país o que acontece às pessoas quando o sangue não circula.
Dei por mim a sorrir. Passei os dedos pelo bigode até às barbichas, num lento gesto de eureka! No próximo comentário da TV teria argumento fresco para este coágulo, AVC, trombose, em que vivemos. Despedi-me com, gratidão, vénias e tributos. O velho respondeu-me, com mais sabedoria que delicadeza:
– Ide, na paz de outubro.







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