XIPIKIRI
Mathusse sentia aquilo que se sente quando se tem saudades: um vácuo, sem sentido, a pressionar o toráx. O ar parecia falhar e a respiração era compensada com suspiros. “Saudade é falta de ar por alguém”, pensou.
Estava com saudades. Não era a natural saudade da mãe, a primeira saudade de um ser vivo. Nem do pai, que carregava no nome e no sangue. Não eram saudades da mulher, com quem tinha cinco filhos e se deitava, tecendo, todos os dias, o pano encardido da monotonia. Estava com saudades do salário!
Descia a rua, naquele passo arrastado de final de expediente, a pensar naquilo que pensa um funcionário público em dias de atraso salarial. O rosto amuado, a silhueta curva, o jornal engavetado na axila, a mão solitária no bolso, a outra segurando com firmeza o saco de pão. “Pão!”, suspirou.
Eram dias de suspiros e contas. A cabeça tornara-se numa incansável máquina de cálculos. Calculava os dias para a reforma. Contava os possíveis retroativos salariais. Somava as dívidas, no mercado, no bar, no contentor, no ambulante, na esquina, a água, luz. Subtraía as contas do xitike, do chapa e do pendente com o banco, que cresce à olhos vistos, por causa da crise e duma cláusula escrita no verso do contrato, em letra pequeninas. “Maldita crise!”, desabafou.
Dobrou a esquina como se dobrasse o destino, orientado pela instintiva bússula da rotina. Arrastava o passo, o sapato, a sola, a rua, a tarde, no sossego das suas angústias. Cabisbaixo, o olhar eram dois fios de prumo baloiçando ao vento. Levantou os olhos ao ritmo do acaso. Colidiu no olhar dum homem deitado no chão, num colchão de papelões, no canto, entre a calçada e um muro.
Parou. Ajeitou o jornal na axila. Levou a mão ao bolso. Procurava moedas com que pudesse professar a religião da bondade. No bolso esquerdo, nada! Mandou o jornal e o saco de pão para outro lado. No bolso direito, nada. Vasculhou as calças, a camisa. Em que bolso furado estariam os trocos?
Deu pelo mendigo a rir-se, com ironia, da sua posição caricata: as pernas dobradas e os joelhos juntos para segurar, entre as coxas, o jornal; o saco de pão pendurado entre os dentes e os braços, tentáculos cómicos, a vasculhar o casaco. Mathusse riu-se, também e desistiu das moedas. Levou a mão ao saco e tirou um pão.
O mendigo juntou as mãos, em gratidão, antes de receber. Encostou as bochechas de barbas pardas ao pão quente, experimentando-lhe a maciez. Fechou os olhos e sorriu, agora sem ironia. Pousou o pão sobre a cama de papelões e deitou-se com a cabeça sobre a almofada de pão. Dava conforto ao sono adiando consolar o estômago, duplicando assim as funções do pão. Mathusse sorriu.
Quando dobrou a esquina e um polícia, de palito na boca, anunciou:
– Multa!, por ter dado esmola.
– Mas, estava a praticar o bem, ajudar um pobre. O bem é proibido?
– A lei diz que não deve.
– Mas a lei de Deus diz que devo.
– Então vai dizer Deus para vir pagar a multa.
Mathusse sentiu uma sede brusca, engoliu a saliva seca, como se engolisse a multa que teria de acrescentar às contas em atraso. Voltou a sentir aquele vazio, sem sentido, a pressionar o toráx, e uma infinita vontade de chamar nomes indelicados à mãe do polícia.







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