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Quinta-feira
03 de Dezembro
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O Vendaval

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XIPIKIRI

Quando a parede cedeu à fúria do vento, a porta perdeu sentido. Sem a tarefa de policiar as passagens, decretar o caminho, separar o dentro do fora, sacudia-se com os sopros, abria e fechava, esperneando em vão. Envergonhada, também cedeu. Caiu. As chapas das coberturas já tinham levantado o voo. Sem a cobertura e sem as paredes, tudo está ao relento. As crianças, o jantar, a roupa, a TV, os livros... e o que não voou, desmoronou.

Primeiro foi o pó, em remoinhos lentos, a anunciar o tempo. Cheirava a pó de chuva, aquele hálito no vento que acorda os crocodilos para a estação húmida. O ladrão, que hibernava, também acordou. Os dias de chuva são perfeitos para roubar: as pessoas se escondem e os pingos disfarçam os ruídos.

Depois soltou-se uma gota, daquelas que vão pingando antes de Deus abrir a escotilha da chuva e, pela espessura, se pode fazer a previsão meteorológica. O vento ainda era miúdo, irrequieto mas inofensivo. O ladrão olhou instintivamente para o relógio, como se a chuva tivesse tempo marcado.

As gotas começaram a bater no chão, nas chapas da cobertura, no tejadilho dos carros e na cabeça das pessoas, como timbilas desesperadas. O ladrão saltou o muro que veda o quintal. Os cães não reagiram. A humidade confundia-lhes o olfacto. Um raio rasgou os céus, mas ninguém viu nada, porque quando relampeja, fecha-se os olhos de susto. Os cães olharam para o ladrão, mas como dizia a minha vovó, uma analfabeta muito letrada: “atrás de um grande relâmpago, há sempre um grande trovão”. O estrondo afugentou os bichos.

O ladrão limpou as gotas do rosto e olhou para a janela. A chuva escorria pela parede de alvenaria e a humidade denunciava as costelas frágeis das fiadas de blocos. As árvores vergavam em vénia ao vento, algumas caíram. Sentiu um gotuana violento, levou a mão à cabeça, eram pedrinhas a caírem com a chuva: granizo. Precipitou-se janela adentro para se proteger.

Nunca se viu uma chuva assim, sem cumplicidade com o vento. Cair desalinhada, sem aquele fio que, dizia vovó, é lágrima de Deus. Mais parecia xixi, como fazíamos na infância: encolher o prepúcio e acertar numa colónia de formigas.

Eram trovões, relâmpago, granizos, árvores, chapas, postes... corte de energia. Foi aí que as chapas da cobertura assustaram-se e soltaram-se. Os legos da alvenaria desmoronaram sobre o ladrão. Algo violentou-lhe a cabeça. Desmaiou em pleno expediente. Alguém jurava que era a tal de crise a chegar pois, dizia-se, a crise viria assim, devastadora e cairia sobre as pessoas.

Depois do vendaval, o céu ainda cuspia algumas gotas sobre o ladrão. As cordas magoavam-lhe o antebraço e os pulsos, atados nas costas. Não fizeram dele churrasco porque o pneu não pegou, porque não tinha petróleo, porque os combustíveis estão caros e, quando o petróleo chegou, retiraram-lhe a coroa de pneu porque alguém apontou para a casa de uma velha, de caniço, aparentemente frágil mas que, para o espanto, se aguentara de pé. Como é possível?

“É feiticeira!” Gritaram, enquanto corriam para lá, armados de fósforos, petróleo e o pneu.

 

Fotogaleria: DIA DOS HERÓIS MOÇAMBICANOS

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Fotogaleria :VISITA DE RECEP ERDOGAN A MOÇAMBIQUE

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"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


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