XIPIKIRI
Rungo surgiu na avenida, sob a áurea intensa do sol, selo de garantia da dureza do trabalho. Vinha num veículo a músculo, de duas rodas, um txova xita duma, e embaraçava o tráfego com a lentidão do esforço. Atrás, deixava o rastro de trompetes sem surdina, buzinas impacientes que lembravam os sopros inconformados de Massekela.
Não fossem aquelas duas rodas trémulas e a carga característica, dir-se-ia que o txova xita duma do Rungo era um stimela, aquele comboio épico do Massekela, que levava velhos e jovens para as minas e incrementava a economia da África Austral. Rungo percorre os bairros de Maputo, estrada acima e avenida abaixo, com o mesmo ímpeto do Stimela e transporta cocos (tangerinas quando é época), amadurecidos nos nostálgicos coqueirais de Morrumbene.
De longe, a caminho da cidade, reparou que os prédios, dominós alinhados sobre o horizonte, formavam degraus, da parte alta à baixa da cidade, lembrando os diagramas dos gráficos decrescentes da nossa economia e sentia no txova o peso do PIB per capita.
Quando viu um semáforo trocar de olho, ora vermelho, ora azul, anunciando os labirintos de betão que a cidade é, Rungo engatou os músculos, esticou os ossos, pôs a sola no alcatrão e freou o veículo. Ouviu buzinas e insultos porque o semáforo estava no verde. Nem reparou, parou para atender a um cliente, limpar o suor, beber água, recuperar o fôlego e coisas assim. Ignorou as buzinas. Resgatou os cocos caídos na travagem, que rolavam e quase se fizeram sarjeta adentro. Esticou o pescoço, sondando clientes, para um, depois outro lado e acelerou.
Venda aqui, trocos ali, manipulava um facão no descasque dos lanhos. Às vezes, enquanto golpeava, olhava demoradamente para a lâmina grossa. Devia estar a pensar nas formas tentadoras de dar um uso mais rentável àquela ferramenta. Acomodou-se na sombra agradável duma acácia onde se agrupavam algumas pessoas, deduzindo-se que fosse um ponto de paragem dos chapas, o transporte público. As pessoas abriram alas quando uma viatura da polícia municipal apareceu. Rungo entrou em pânico, não fossem apreender o txova ou os cocos. Os polícias, com um volume de enorme de panos, passaram por ele, pelo txova, pelos cocos. Pisaram no txova para trepar a acácia. Estenderam o pano, amarraram num galho, com uma corda de sisal e, do outro lado da estrada, num poste de energia eléctrica. Era um dístico. Desceram e um encostou-se, disfarçadamente, entre o txova e a árvore, abriu a braguilha e aliviou-se.
Nenhum vendedor de rua se sente confortável na presença de um polícia municipal, por isso Rungo retirou-se, olhando para a árvore e pensando que as acácias são como mulheres: o aconchego da sombra, casa para os pássaros, aguentam o vento, treparmos nelas, o peso dos dísticos, até o mijo de bêbados. Àquela distância, olhou para o dístico, um portal imponente que surgia da folhagem amarelada pela urina, atravessava a avenida e a escrita “PARABÉNS CIDADE DE MAPUTO 129 ANOS” a sugerir flores que certamente, daquela árvore já não brotavam.







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