Bateram o portão. Dona Elisa não interrompeu o gesto de mexer o caril de amendoim com a colher de pau, como se desenhasse círculos no ar. Sô António, o marido, ensaiava os mesmos gestos, com uma pá, misturava cimento, areia e água, afinando a argamassa com que iria assegurar as fiadas de blocos da construção faseada que era a casa deles. O cão abriu os olhos moles e voltou a fechar, lentamente. Teve preguiça de perguntar quem era, na língua latida dos cães.
De novo, ouviu-se bater o portão. A Dona Elisa não se mexeu. Sô António também não. Caril de amendoim é um prato exigente, requer atenção. É preciso estar sempre a hunguelar senão “corta-se”. É como na construção, dizia Sô António, não se deve interromper a preparação da argamassa, senão perde a uniformidade do traço. O cão adormeceu.
Bateram, agora com mais insistência. Dona Elisa percebeu que teria de ser ela a atender. As mulheres têm de ceder sempre. É a regra de convivência conjugal que lhes é instruída na sessão do kulaya, antes do xiguiana, fase da cerimónia de casamento em que se transporta as coisas da mulher para o novo lar.
Era uma tarde quente, como todas as tardes por ali. Sob o ruído seco e compassado da pá a remexer a papa de areia e cimento, ouvia-se o fogo a crestar e o som agradável do caril de amendoim a borbulhar sobre um fogão metálico onde a lenha substituía o carvão, difícil por estes dias. Dona Elisa, não cabia no ralador em que se sentava, valia-lhe a capulana que segurava os volumes. António, o marido, estava de pé, manuseava o fotxolo e outras ferramentas, com metade do corpo, inconformado com a trombose que caíra sobre ele no dia em que recebeu uma factura de energia. Por causa disso a mulher não teve, ainda, coragem de lhe dizer que agravaram a tarifa.
Insistiram com o portão. O marido, metade flácido, interrompeu os gestos com a pá, limpou o suor e olhou para a mulher. A mulher interrompeu a culinária. Tapou a panela, protegendo da poeira e da curiosidade do cão. Deixou-a entre-aberta, de modo que respirasse e não se entornasse com a fervura. Limpou o suor na testa com a ponta da capulana, uniforme das mamanas. Estava na idade em que as mulheres sentem muito calor e lhes doem as pernas, as costas, a tensão arterial, as contas, o marido… Suspirou, como se se aliviasse de algum xipoco que a oprimisse. O casamento é um exercício de paciência. Levantou-se com o corpo a queixar-se da idade e do exercício diário de carretar água. Há meses que a água não jorrava. Passou instintivamente pela torneira, para lavar as coisas da cozinha que tinha nas mãos mas, como sempre, nenhuma gota, só aquele som oco, seco, de torneira em estiagem. A torneira era, agora, casa de insectos. Lavou-se com água da bacia, a mesma com que lavou os ingredientes e iria lavar os pratos. Ah, a água!, voltou a suspirar.
Do fundo do quintal, o marido viu-a fazer-se ao portão, inclinar-se cordial e mover atenciosamente a cabeça para o lado. Estendeu o braço, recebeu um papel. Não falou. Não lhe saíram as palavras. Contorceu-se. Torceu a boca, os olhos, os membros, o corpo...
– Elisa!
A mulher caiu, com a factura de água na mão.







Esta ligação irá abrir o SAPO Fotos.






