XIPIKIRI
Uma esteira no chão, convidando ao ócio. Uma capulana estendida, esquecida pelo vento. Numa bacia da cor do tempo, pratos usados. Uma mosca lenta, beijando tudo. Um cão preguiçoso, hospedando mil carraças. As galinhas a debicarem o nada. O silêncio do caprino entretido com o pasto. Meeeeh esporádicco. O tronco feminino do canhoeiro. A sombra da árvore a demarcar território do quintal. Um banco encostado à árvore. É o nosso banco.
Nenhuma nuvem. Sentei-me sobre no ximbungumbungo, jerricã de 20 litros. Sobre a esteira, a nossa mãe dobrou as pernas. Reclamou, com um gesto, das formigas que em disputa de território tentavam, em vão, afastar a esteira de cima da sua colónia. Endireitou a capulana que vestia, cobrindo pudicamente as canelas.
– Que horas são?
Olhei, instintivamente, para o céu e para baixo, confrontando a posição do sol com o ângulo das sombras. É como se vê as horas por aqui. A nossa mãe tinha o olhar solto, de quem olha para dentro, para os próprios pensamentos. Perguntou pelas horas por hábito de, à certa hora, preparar-se para fazer as serventias ao nosso pai, quando regressasse de onde regressam os homens, no final do dia. Deixou o olhar a flutuar, descer pelo tronco do canhoeiro, lentamente, até encontrar, encostado à árvore, o banco, o nosso banco, trono onde o nosso pai se sentava, passava as refeições e dava as instruções de chefe de família.
– Vês, a nossa desgraça?
Apontava para o nosso banco, de perna quebrada e a pedir muletas. Aquele metro e meio de mobília, era agora incapaz de pôr sentados, um piso acima dos que se sentavam no chão, os 4 ou 5 traseiros de dimensão normal, que suportava.
– Lembras-te, meu filho, quando querias ser carpinteiro?
Eu ainda sonhava em ser carpinteiro. Passei a mão pelo tampo comprido do assento, senti-lhe as listras, impressões digitais da madeira, apalpei-lhe os nós, calos das árvores...
– O banco partiu-se, meu filho – tinha o choro próximo da voz, um soluço engasgado e uma lágrima no parapeito do olho. Desde que o nosso pai se foi, passou a alugar o banco para as sessões da igreja e reuniões da comunidade. Agora, com o nosso banco assim, as nossas finanças não teriam onde se sentar.
– Ali, no banco, tinha dinheiro – apontou para o chão, por baixo do banco, no sopé da árvore, onde as raízes engolfavam e uma enxada, com sinais de actividade recente, adormecia sobre areia remexida – o teu pai guardou as poupanças ali. Fui lá desenterrar – mostrou-me um saco plástico carcomido pela areia, com restos das notas que o chão devorou.
– Nem o nosso banco, nem o nosso dinheiro. Deve haver maus espíritos aqui – disse baixinho, porque de espíritos não se fala com a voz solta.
Um vento curto e espesso moveu-se como uma cobra empanturrada. Um canhu soltou-se, trespassou as folhas e bateu com um som seco na esteira. Sem sobressalto, olhou para os canhus caídos, olhou para a cima, para a árvore e depois para mim.
– Vês? Já viste canhu verde a cair por si? Alguém está na árvore, a comer canhu.
O silêncio agravava o agoiro. Olhei para as notas a esfarelarem-se nas mãos antigas da nossa mãe. Senti na boca um azedo e intragável gosto à fruta verde. Deduzi que era a crise de que se falava e que crise são espíritos que vêm com vento, comem canhu ainda verde e comprometem toda a época do ucanhu.







Esta ligação irá abrir o SAPO Fotos.






