XIPIKIRI
– Yuh!
Braguilha aberta. Escancarada, como o “oh!” da multidão boquiaberta.
– É maluco?
– Não se diz maluco. Diz-se doente mental.
Sentado. Quase deitado. Posição de maluco. As pernas ao acaso. O corpo recostado. A mata púbica exposta. Calor. Muito calor. O ziper era uma janela aberta para o “coiso” refrescar.
– Um maluco não fala o que ele diz. Não é maluco esse.
Estava no degrau do baseamento de uma estátua, encostado ao mármore da lápide que faz menção ao fulano, no extremo duma avenida larga, em frente a uma paragem de machimbombos, chapas e “my loves”. A estátua estava calada, mas parecia gritar com o gesto: o punho imponentemente erguido e um livro noutra mão, dizendo tudo.
– Ixi!
Espanto e pudor. Gente reunida, em quase comício. Os celulares armados para fotografias. Uma menina, na idade hormonal, até se esqueceu da peneira com amendoins à venda. Duas crianças, caminhando inclinadas ao peso das pastas escolares, pararam, olharam, assustaram-se, riram-se, correram e voltaram, para confirmar o inédito. Para lá da estrada, na paragem, a senhora na idade de respeito, revirou a pupila até ao último ângulo do soslaio e voltou, sorrateiramente, a olhar pelas lentes de graduação binocular. Com o calor, o matagal púbico e os insectos que não se viam mas subentendiam-se, veio a comichão. O homem coçou-se. As pessoas agitaram-se.
– Eh eh eh...
Descalço. A carapinha desgrenhada. Vestia um uniforme antigo, da côr da revolução. Disse-se que era militar retirado, talvez miliciano dos tempos de “espera pouco” ou despedido duma empresa de segurança, com uma passagem longa, no auge do comunismo, por cuba. Levantou-se, com gestos mais lento do que a economia nacional. Empunhou o material bélico de causar inveja aos exércitos protagonistas da “Tensão Político-Militar”. Pôs-se a discursar, enquanto se aliviava, ali mesmo, por cima da lápide com o nome do herói.
– Ooooh!
Aquilo não poderia ser. Era um atentado à muita coisa. Fazer xixi na avenida, as 2 horas da tarde...
Discursava. Comícios acesos para gente imaginária. Chamaram-lhe Samora, pelo uniforme, pelas barbas, pelo discurso tenso e porque, tal como Samora, chovia perdigotos, torrencialmente. Ultimamente chamavam-lhe Fidel porque, depois da morte deste, os discursos são mais revolucionários e fala numa língua com a língua enrolada, como se tivesse um charuto de Havana na boca.
– La revolucione...
Na avenida, uma sirene sobrepôs-se ao ruído sêco dos veículos atabalhoados. Dois batedores, em motos com pirilampos folclóricos, impuseram-se ao trânsito. Abriam alas para uma coluna de carros muito escoltada. A escolta passou à velocidade de evitar o povo. Dois homens, daqueles de chapéu de aba discreta, óculos escuros, gola levantada e que caminham de lado, surgiram da multidão e algemaram o homem, quando este, com o dedo em riste e o coiso solto, apontou para a escolta e começou a discursar, samoramente mas na língua de Fidel, frases que se complementavam com palavras como “la corrupcione”.
– É difícil ser maluco?
– Não é maluco. É doente.
Ergueu os braços algemados, acenou, gesto mecânico dos grandes líderes e cerrou o punho, como a estátua:
– La revolucione...!







Esta ligação irá abrir o SAPO Fotos.






