O País Online - A verdade como notícia

Quinta-feira
03 de Dezembro
Tamanho do texto
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size

Sequestro

Enviar por E-mail Versão para impressão PDF

XIPIKIRI

O celular lampejou, desmentindo o escuro que abarrotava o quarto. O repente de luz apagou as sombras antes de se ouvir a vibração do telefone, como um raio que risca o céu e prenuncia a fúria do trovão. Ela parou. Olhou para o pequeno aparelho. Depois para ele. Ele desviou o olhar.

– Atende.

– É mensagem.

– Entao responde.

– Não posso. É a minha mulher.

Continuaram. O telefone estava no silêncio. Voltou a acender, minutos depois. Agora insistentemente, como um semáforo zangado. Vibrava, batendo no tampo da cabeceira, prenunciando um terramoto do outro lado da linha. Ela parou. Suspirou. Olhou para o telefone. Depois para ele. Ele olhou para ela e voltou a desviar o olhar.

– Tenho de ir.

– Não. Atende. Diz que estás de serviço.

– Não dá. Ela sabe que não trabalho ao fim-de-semana.

Virou-se, de modo que o corpo lânguido escorregasse-lhe de cima, aliviando a respiração. O suor e outros óleos que lubrificam a máquina do amor favoreceram. Sentiu na pele o agradável molusco a escorregar sobre si. Percebeu que estava empapado. Precisaria de um duche antes de se vestir.

– Então, inventa uma estória. Diz que foste sequestrado.

Ele sorriu, com cumplicidade distante. Já não andava com a cabeça ali.

O telefone, que começara com vibra­ções lentas, agora saltitava como um feiticeiro em transe, encarnado por um espírito muito zangado.

– Se não atendes, atendo eu –, falava no mesmo tom e sorriso malicioso com que Eva cercara Adão. Deslizou, com a pele suada de serpente molhada, para cima dele. As escamas restolhavam entre o suor e os pelos enrodilhados do peito do homem. Serpenteou até ao ouvido e sibilou algo que o homem não percebeu, mas entendeu. Rendeu-se. Nem Adão resistiu a perfídia da serpente. Ela segurou no  telefone.

– Não faz isso.

Espremeu a voz, em disfarce, com aquela facilidade que as mulheres têm para o teatro.

– Alô. Seu marido foi sequestrado...

Desligou, entre espanto e risos.

– Tu és louca.

Depois foram Adão e Eva, serpente e maçã, risos e pecado, no Éden escuro e mofado daquele quarto. Ela inventou uma capulana, acessório indispensável de toda a bolsa feminina. Embrulhou-o no pano colorido de modo que ficasse amordaçado, com os pulsos e as canelas atadas. Riram-se. O homem murmurrou algo que queria dizer “és maluca” na língua dos amordaçados.

– Sequestrado, volto já – disse, com piripiri na voz.

Saiu até a recepção, para rever a logística, beberes e preservativos com aromas exóticos. Foi quando o homem ouviu o estrondo e viu a porta soltar-se, revoar e cair em camaralenta. No meio de detritos soltos com a violência, irromperam quarto adentro, homens e cães, armados até às unhas. Até julgou que fosse o marido dela. Nada fazia prever que a mulher levasse a sério a brincadeira do sequestro, chamasse a polícia e que, através da tecnologia dos telefones modernos, que sequer dominava, o localizassem ali, naquele quarto.

No dia seguinte, a foto do homem assustado com o aparato, amarrado, amordaçado e sem roupa, acompanhava manchetes épicas: “Cidadão Sequestrado É Resgatado do Cativeiro”. Grata, a esposa cumpre a promessa todos os domingos, com dízimos gordos, numa igreja de um Deus comercial.

 

Fotogaleria: DIA DOS HERÓIS MOÇAMBICANOS

DESTAQUE..jpg

Link Externo Esta ligação irá abrir o SAPO Fotos.

Fotogaleria :VISITA DE RECEP ERDOGAN A MOÇAMBIQUE

Destaque1.jpg

Link Externo Esta ligação irá abrir o SAPO Fotos.

"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


publicidade

Edição Impressa e O Tempo

 Edição  O Tempo

 Edição Impressa -24-10-2017

Impressa

 

Maputo

 

Inhambane

 Beira
 

Nampula

 
 

Edição Impressa420