XIPIKIRI
O celular lampejou, desmentindo o escuro que abarrotava o quarto. O repente de luz apagou as sombras antes de se ouvir a vibração do telefone, como um raio que risca o céu e prenuncia a fúria do trovão. Ela parou. Olhou para o pequeno aparelho. Depois para ele. Ele desviou o olhar.
– Atende.
– É mensagem.
– Entao responde.
– Não posso. É a minha mulher.
Continuaram. O telefone estava no silêncio. Voltou a acender, minutos depois. Agora insistentemente, como um semáforo zangado. Vibrava, batendo no tampo da cabeceira, prenunciando um terramoto do outro lado da linha. Ela parou. Suspirou. Olhou para o telefone. Depois para ele. Ele olhou para ela e voltou a desviar o olhar.
– Tenho de ir.
– Não. Atende. Diz que estás de serviço.
– Não dá. Ela sabe que não trabalho ao fim-de-semana.
Virou-se, de modo que o corpo lânguido escorregasse-lhe de cima, aliviando a respiração. O suor e outros óleos que lubrificam a máquina do amor favoreceram. Sentiu na pele o agradável molusco a escorregar sobre si. Percebeu que estava empapado. Precisaria de um duche antes de se vestir.
– Então, inventa uma estória. Diz que foste sequestrado.
Ele sorriu, com cumplicidade distante. Já não andava com a cabeça ali.
O telefone, que começara com vibrações lentas, agora saltitava como um feiticeiro em transe, encarnado por um espírito muito zangado.
– Se não atendes, atendo eu –, falava no mesmo tom e sorriso malicioso com que Eva cercara Adão. Deslizou, com a pele suada de serpente molhada, para cima dele. As escamas restolhavam entre o suor e os pelos enrodilhados do peito do homem. Serpenteou até ao ouvido e sibilou algo que o homem não percebeu, mas entendeu. Rendeu-se. Nem Adão resistiu a perfídia da serpente. Ela segurou no telefone.
– Não faz isso.
Espremeu a voz, em disfarce, com aquela facilidade que as mulheres têm para o teatro.
– Alô. Seu marido foi sequestrado...
Desligou, entre espanto e risos.
– Tu és louca.
Depois foram Adão e Eva, serpente e maçã, risos e pecado, no Éden escuro e mofado daquele quarto. Ela inventou uma capulana, acessório indispensável de toda a bolsa feminina. Embrulhou-o no pano colorido de modo que ficasse amordaçado, com os pulsos e as canelas atadas. Riram-se. O homem murmurrou algo que queria dizer “és maluca” na língua dos amordaçados.
– Sequestrado, volto já – disse, com piripiri na voz.
Saiu até a recepção, para rever a logística, beberes e preservativos com aromas exóticos. Foi quando o homem ouviu o estrondo e viu a porta soltar-se, revoar e cair em camaralenta. No meio de detritos soltos com a violência, irromperam quarto adentro, homens e cães, armados até às unhas. Até julgou que fosse o marido dela. Nada fazia prever que a mulher levasse a sério a brincadeira do sequestro, chamasse a polícia e que, através da tecnologia dos telefones modernos, que sequer dominava, o localizassem ali, naquele quarto.
No dia seguinte, a foto do homem assustado com o aparato, amarrado, amordaçado e sem roupa, acompanhava manchetes épicas: “Cidadão Sequestrado É Resgatado do Cativeiro”. Grata, a esposa cumpre a promessa todos os domingos, com dízimos gordos, numa igreja de um Deus comercial.







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