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03 de Dezembro
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Início Opinião Hélder Faife A Culpa da Bala

A Culpa da Bala

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XIPIKIRI

Recostada no parapeito estriado do cano da arma, a bala hesitou, como um suicida que no último instante se arrepende e procura desesperadamente combinar as teclas “Control” e “ Z”. Na hora H, toda a bala se arrepende. Aconteceu naquele dia.

Primeiro soou um estalido seco. O metal crepitou. Eram as partes íntimas da pistola a conectarem, a engrenarem, a embateram uma na outra, garantindo-lhe o funcionamento. Uma cancela abriu-se. Uma mola saltou e empurrou. A bala moveu-se, obediente, à passo de um condenado que caminha para o corredor da morte. Percorreu as vísceras metálicas da arma, riscando as paredes gélidas. Ouviu-se aquele relinchar frio de chapa com chapa. Deu o passo rebolado de um corpo redondo. Entrou para o último compartimento, uma câmara tubular e escura com intenso cheiro à pólvora queimada. Parou.

Parou. Abriu os olhos. À beira do disparo, deparava-se com o momento profundo e insuportável do fim. “Vou morrer!”, pensou. A luz tímida entornava-se pelo cano adentro, como uma fatia redonda de lua. Com a luz, chegava o som estranho, agónico, do vento a assobiar no lábio tubular da arma. À pouca luz percebiam-se as estrias em baixo relevo esculpidas nas paredes do cano para que, quando fosse projectada, lhe impelissem rotação, agravando a desagradável tontura da morte.

“Vou morrer!”. Ao contrário do que se pensa que se sabe, bala não sabe que vai matar. Só sabe que vai morrer. Não parece ser dela a culpa do estrago que o projéctil causa depois do disparo. Antes de matar, ela morre como a abelha operária que depois de aplicar a ferroada perde o ferrão, uma parte do abdómen e morre. No tiro a bala perde o cartucho e toda pólvora que confere o estatuto de munição.

“Vou morrer!”, quis recuar. Olhou para os lados, instinto de um condenado à morte. Nenhuma saída. Ia mesmo morrer. Olhou para trás, outras balas impacientavam-se pela vez. Não havia recuo. Tinha de prosseguir. Sentia algo insuportável, um profundo desespero e falta de esperança, à que aos poucos se foi habituando. Aos poucos, os seus sentimentos e ideiais reorganizaram-se. “Não se muda o destino”, resignou-se, amainando aquele ar sisudo, aquela cara de ogiva.

O gatilho moveu-se. Ouviu-se o ruído seco das partes a engrenarem e mola a saltar. O pequeno míssil sentiu a pólvora do cartucho a coçar-lhe as traseiras. Olhou para frente, para a boca do cano, de onde vinha a luz. No desespero, no escuro, toda a gente procura uma luz. No universo interior de uma pistola, há sempre uma luz no fundo do cano. Olhou para a luz com fé, crença e muita religião, a única coisa à que ainda se podia agarrar. percebeu no fundo do brilho uma silhueta. Pensou que fosse Deus, por quem tanto chamava naquele momento de aflição. Seria um Deus aflito, assustado, mas não importava. Qualquer Deus seria ali bem-vindo. Rezou.

“Não!”, gritou aquele “Deus” de rosto aflito. A bala fechou os olhos. Era a primeira e última vez que uma bala via o rosto desesperado do seu o alvo.

 

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"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


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