XIPIKIRI
Véspera do natal. O nholo, carrinho de mão de uma roda, ou padiola, como se diz noutro continente, aguentava o peso dos sacos. A roda era um sapato de sola sofrida, a pedir reforma. Fugia do eixo, mancava e chiava num assobio cadenciado, ao ritmo dos passos lentos. Um homem envelhecido segurava o leme. Tinha os braços firmes, os músculos tensos e os ombros rendidos ao peso do pequeno veículo.
Dobrou a esquina como uma lesma ruidosa a contornar o Boa Esperença. Txuim!, Txuim!, Txuim!... O chiar da roda subia de volume à medida que se aproximava. Parou, largou o carrinho com cuidado que denunciava a fragilidade do que transportava. Achegou-se a um muro com mensagem clara: “proibido mijar”. Entre o muro e uma árvore, mexeu na braguilha. Desenrolou a mangueira e regou as plantas. Limpou nas calças os salpicos na mão. Seguiu a caminhada.
Empurrou o carrinho em direcção a mim, atraído pela sombra ou pelos líquidos do pequeno quiosque onde eu refrescava-me. Parou. Pousou o carrinho com cuidado. Com o alívio do peso os músculos elásticos ganharam uma descontração súbita. Ouviu-se os ossos rangerem quando se espreguiçou como os motoristas de longo curso na hora da pausa. Tirou algo do bolso com agilidade de quem saca um revólver. Era um lenço. Secou a testa. Suspirou. Surgiram algumas crianças com acepipes à venda numa bacia. Amendoins cozidos. Provou. Inclinou-se para a padiola. Tirou de um saco alguns presentes. Distribuiu pelos meninos.
– Obrigado, pai natal.
Voltou a limpar a testa, enquanto mastigava. Murmurou algo reclamando do calor infernal, em tom de desabafo com os próprios botões, mas suficiente alto para que eu ouvisse. Maldisse os políticos culpando-os da inflação nos termómetros, tal como da moeda. Foi desenrolando o novelo emaranhado de uma conversa fiada como quem monta a teia para me caçar a simpatia.
– Paga lá um copo.
Era natal, não iria recusar um copo, muito menos ao pai natal.
– Estás diferente. O teu trenó?
Virou-se para o tampo do balcão, onde a cerveja a suar de frescura espumava. Tragou de olhos fechados. Ouviu-se o líquido a apagar-lhe as chamas na goela. Disse “hmmmmm” que entendi como elogio à nossa cerveja. Servi-lhe o segundo copo. Deu agora um gole menos voraz. Soltou um inevitável arroto de prazer. Voltou a mim.
– Tive de o vender. Sabes como é. A vida.
No instante ouviram-se estrondos distantes, estalidos e pequenos brilhos quase imperceptíveis à luz do dia.
– Já comemoram o ano novo?
Deixei-o pensar que aqueles tiros eram fogo-de-artifício, para não ter de me aborrecer a explicar que, como em todos os anos que ele passa por cá, continuamos encalhados em “conversações”, nunca chegamos à paz.
Alguns meninos, daqueles que falam pelo olhar, que pelo brilho dos olhos se lhes adivinha o vazio no estômago e fungam mais do que falam, aproximaram-se na esperança de presentes. O pai natal evitou-lhes o olhar e explicou-me que gostaria mas não podia dar a todos. Os presentes que trazia eram para stock da barraca que montara algures.
A conversa deslizou como a cerveja nas goelas. A padiola voltou a chiar quando se ia embora. Desejou-me as festas possíveis e disse, numa língua distante, qualquer coisa como “merry CRISEmas”.







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