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Quinta-feira
03 de Dezembro
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A Trégua

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XIPIKIRI

O calor não dava tréguas. Caminhava curvado, a equilibrar o peso do sacudu. Parecia ter o sol às costas. A sombra imitava-lhe os gestos, numa coreografia esquisita. Ouvia os próprios passos. As solas das botas a mastigavam o chão. Quando um elefante pisa o capim sofre. A copa de uma árvore estendia uma sombra hospitaleira pelo chão da savana. Parou, como um réptil pára, no meio do percurso, levanta a cabeça, fareja os perigos, avalia a distância enquanto rumina o veneno e segue-o em frente. O homem não seguiu em frente, convidado pela sombra. Aliviou dos ombros o peso do sacudu. Deixou-o escorregar e cair abruptamente sem se preocupar se magoava o chão. Espreguiçou, realinhando as vértebras maltratadas. Aliviou o primeiro botão da camisa de pano pesado do traje militar. Apoiou-se no caule da árvore, com o cotovelo, depois com o ombro. Foi escorregando pelo tronco abaixo, arranhando, com o tecido áspero da roupa, as formigas que passeavam pelo tronco. Sentou-se sobre uma pequena termiteira que crescia sobre as raízes da árvore. Aliviou outro botão da camisa. Desfez, num gesto rápido, os laços dos atacadores das botas. O chulé respirou. As meias de furos encharcados refrescavam-se. Acariciou os calos, imaginando mãos femininas. Vieram-lhe lembranças antigas. Fechou os olhos. Suspirou o nome de uma mulher. Todo homem tem lembranças de uma mulher a acariciar-lhe o chulé. Adormeceu, com um olho semi-aberto, habituado a vigiar os perigos da guerrilha.

Um vulto. Foi percebendo, na vertigem do sono, que era vulto de um homem. Um homem com uniforme da cor da savana, sem a estampa do camuflado que o seu tinha. Era, portanto, da trincheira oposta. Não se sobressaltou. Abriu os olhos. Cumprimentaram-se, sem largas cordialidades. Um aperto de mão com fairplay. Sentou-se ao seu lado. Ombro no ombro, de tal forma que os piolhos podiam passear de um para outro. Serviu-lhe um cigarro. Em troca um cantil de água fresca. Os goles da água respingavam pelo uniforme. Os tragos do cigarro foram sentidos em silêncio. Intercalavam o silêncio com alguma conversa. Falaram do calor. Elogiaram o tecido do uniforme um do outro. Confessaram a ansiedade para as festas com a família. Exibiram os presentes saqueados nas incursões militares...

O calor não dava tréguas. Vestiram roupas civis e abandonaram os uniformes na mata. Os trajes civis são mais frescos e agradáveis, sentiram. Despediram-se na berma da estrada. O de sotaque martelado foi a pé, para lá, para Norte. O outro, que falava assobiado, esperou por um autocarro que o levasse para o Sul.

O autocarro chegou, com a fuselagem picotada, vestígios da guerrilha. Alguém comentou que aquela era a zona quente, das emboscadas. Teve receio, até se lembrar que, tal como ele, os outros funcionários da guerrilha foram de férias, para as festas. As chefias, que dão as ordens, também aviaram as malas e colemans.

O calor intenso não dava tréguas. Recostou a cabeça no vidro do machimbombo e as costas, desabituadas ao conforto, na esponja do assento. Sacudido pelos solavancos assistia, a correr pela janela, a paisagem de um país em semi-paz, aumentando-lhe a ansiedade de rever a família. Fechou os olhos. Adormeceu, com um olho semi-aberto.

 

 

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"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


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