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Quinta-feira
03 de Dezembro
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Que tal?

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XIPIKIRI

Estalou os dedos com perícia de quem engatilha uma arma. Baixou o capuz, negro como a noite. No escuro só as duas estrelas do olhar brilhavam. Procurava caminhar pelas sombras. Com intimidade de quem vai desrespeitá-lo, passou a mão pela alvenaria fria do muro. Pelas curvas sensuais do balaústre. Pelo gelo metálico do portão trancado à mil chaves. Parou onde o poste de iluminação da rua faz sombra sobre o muro. Do outro lado da rua um comparsa observava o segurança sonolento. Fez um gesto que na linguagem dos filmes de acção significa “caminho livre”. Quase imperceptível à sombra do poste, praticou salto em altura sobre o muro. Sentiu os arbustos, que do outro lado muro completavam a vedação, a arranharem-lhe os trajes. Pousou com a ponta dos dedos, felinamente, sem um ruído.

Conteve o espirro. Ouvia a própria respiração. Deixou-se estar, de cócoras, entre o muro e o chão, onde a luz do candeeiro de rua e da lua não chegavam. Avaliou o terreno. Os olhos eram duas faúlhas ansiosas, no escuro. Deslizou, encostado aos arbustos que reforçavam a vedação, até ao portão, de onde pudesse ver o comparsa. Levantou o polegar e comunicou um OK. O comparsa deu sinal para uma viatura pickup, parada lá na esquina. Sem o ruído da ignição e de luzes apagadas, a pickup aproximou-se, como um navio fantasma. Galgou o lancil e atracou no passeio, junto ao muro.

O comparsa voltou a desenhar aqueles gestos no ar. Devia querer dizer que estava tudo bem, porque o segurança dormitava boquiaberto e o cão entretia-se, no fundo do quintal, com um osso oferecido para o distrair. Apercebeu-se que os cães são como homens. Basta um osso para distraí-los.

Uma mangueira deslizou como uma serpente sedenta e espreitou pelo portão. Recebeu-a, rebolou até a parede da casa. Caminhou encostado à parede, esquivou do peitoril da janela. Arrastou-a até ao canto onde uma torneira espreitava da tubagem do contador da rede pública. A outra extremidade da mangueira esperava ansiosa, no gargalo de um bidão, na bagageira da pickup.

Esticou a mangueira, forçou-a a beijar a boca da torneira. Rodou o manípulo, uma, duas, três vezes, no sentido anti-horário. Ouviu-se aquele gargarejo seco de torneira em férias. Nem uma gota.

Olhou para cima da casa. O tanque de água. Imponente e cheio. Virou-se para o comparsa, para sugerir-lhe um plano B. Percebeu que o comparsa esbracejava desesperadamente, tentando gritar por gestos: ABORTAR! Olhou à volta, cão estava parado atrás de si com cara de poucos ou nenhum amigo.

Deu um salto à sapo, quase canguru. Chegou ao topo do muro com os dentes do cão às calças. Pensou rapidamente numa solução “magaiva” (McGyver). Esperneou. Abanou-se. Sacudiu-se. Deixou ficar as calças nos dentes do cão. Quando a pickup dobrou a esquina o segurança despertou.

Sem as calças e sem a preciosa água, pensou em hibernar, como os bichos na época seca, até que as chuvas voltem a encher os rios. A sentir-se impotente, numa sociedade em crise, pôs-se engendrar um plano Z: colar anúncios, na boca das instituições do Estado e em árvores próximas, com dizeres sugestivos: Doutor Potência resolve todo o tipo de impotência: sexual, económica e pluviométrica. Virou-se para o comparsa: Que tal?

 

 

Fotogaleria: DIA DOS HERÓIS MOÇAMBICANOS

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Fotogaleria :VISITA DE RECEP ERDOGAN A MOÇAMBIQUE

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"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


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