xipikiri
A estrada, de rectidão tremida, era um risco escuro na paisagem e ia até onde a distância sentenciava a visão. Parecia ter sido traçada por uma régua carmomida por enormes ratazanas. O asfalto negro estendia-se como um tapete sombrio, em honra à passagem aflita dos veículos. O alcatrão interrompia bruscamente o piso e a estrada prosseguia em chão de terra solta, obrigando os carros a abrandarem para descerem o degrau e engrenarem uma mudança que aguentasse o terreno. Era lugar ideal para a emboscada.
Na berma roída pelo tempo, areia e tufos de capim misturavam-se aos fragmentos de alcatrão soltos com a erosão. O resto era o verde morto da savana em estiagem e o céu borrado de nuvens, a fingir-se azul. Lá longe, os gases do calor distorciam a imagem dos carros que vinham dar sentido a estrada. Sob o sol intenso, tremelicavam e pareciam derreter. Ansiosos, revimos abreviadamente o plano de ataque. Dividimo-nos em dois grupos, um para cada margem. Entrincheiramo-nos no capim de forma que pudéssemos ver sem sermos vistos.
Já se ouvia o ronquejar vigoroso dos motores. As viaturas vinham em pequena coluna, como formigas alinhadas. Dobramos as falanges para conter o nervosismo, as garras sulcando a areia, o capim, as raízes... Estávamos em modo de caça, naquela posição tensa de gafanhoto prestes para o salto. O carro da frente contornou o último buraco e abrandou, os freios chiaram como operários descontentes mas eficientes. As rodas desceram para o areal e a suspensão reclamou. Ambientando-se ao terreno a mudança tossiu, o carro estremeceu e ganhou ritmo. Os outros pareciam imitar. Esperamos pelo último veículo da coluna, um camião, pelo tamanho o mais apetecível.
Os insectos e o capim a revoaram com os gestos bruscos daquela surtida. Saltamos para o camião como pulgas obcecadas. Pendurados na carroçaria deleitamo-nos com os instantes de boleia. À essa brincadeira chamávamos txopelar.
O veículo ganhou aceleração. Os solavancos sacudiam-nos e faltavam-nos, nos pulsos infantis, forças para nos aguentarmos. Fomos escorregando e caindo para o areal como frutos maduros sacudidos da árvore. Por competição resistíamos até onde desse. Por isso Pedrito não largou o camião. Txopelou e foi mais longe do que qualquer um de nós fora antes coisa que, com a aceleração do camião, tornava-se perigoso. “Salta Pedrito!”, gritávamos.
Cometera um erro: txopelou na parte lateral, por baixo da carroçaria, em frente da gigante roda traseira, da qual, àquela velocidade, não teria tempo de se esquivar. “Salta Pedrito!”
Sentiu, com o suor das mãos, as palmas a deslizarem no metal da carroçaria do camião, como se a vida fosse uma lesma escorregadia. As unhas desesperadas chiaram na chapa. Tentou agarrar-se ao vento, ao grito, ao nada... caiu! Esticou os braços para se defender da roda. O resto ninguém viu porque os olhos fecharam-se em espasmo e das bocas abertas o grito saiu mudo. Foi a nossa primeira emboscada. Pedrito foi a nossa primeira baixa.
Atordoados, sequer nomeamos porta-voz que avisasse aos pais do Pedrito, lhes endereçasse pêsames e dissesse, em elogio fúnebre, que ele aguentou-se a txopelar como um herói. Com medo da tareia dos nossos pais, fugimos para o mato e nunca mais regressamos.







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