XIPIKIRI
Olhou para o chapa abarrotado, como o último bicho olhou para a arca de Noé, inóspita, insegura, arriscada, lotada, mas necessária. Acordara com a indigerível sensação de aperto, característica dos dias de hoje: a estiagem da água, da gasolina, dos salários, o calor...! Precaveu-se, transferindo o telefone e a carteira para um bolso mais seguro. Desceu o degrau do lancil para o asfalto, cercando a entrada para a boleia. Seguiu o veículo, à passos curtos, mas rápidos, até que este detivesse completamente a marcha, tentando um lugar entre os que esperavam pelo transporte. O cobrador abriu a porta de correr que pedia lubrificação. Com o carro a transbordar de gente, o pé número quarenta e tal não coube no degrau da entrada. Teve de inventar, aparafusando a cabeça entre as pessoas apinhadas, como um nado desesperado a forçar um parto difícil. O cobrador ajudava-o a atarrachar-se entre as pessoas, empurrando-o pelas nádegas. Quando conseguiu entranhar até à cintura e o resto do corpo pendurado, com o trejeito do cobrador, a porta chiou e fechou-se, do jeito que se sabe.
Dobrou-se como um caniço resignado, para caber de pé, entre as vinte e duas pessoas, na minibus de 15 lugares. Naquela posição ficava muito próximo das nádegas, axilas e outros lugares de intenso odor, de outros passageiros o que, com o calor e a falta de água, estava insuportável.
As nádegas saiam pela janela da porta. Apercebeu-se das calças rasgadas com os empurrões quando sentiu uma leve brisa nas partes traseiras, confortável para o calor daqueles dias. O carro acelerou com a brusquidão que se conhece castigando-o com solavancos. “Hiii” ouviu-se reclamar. Contornou os clássicos buracos das nossas vias, os emblemáticos policiais da nossa corrupção, as curtas curvas do nosso destino, e travou bruscamente.
– Mas, não cabe mais ninguém, aqui.
Sempre cabe mais um. O cobrador continuava, sem explicação, a contrariar uma lei elementar da física, enfiando tantos corpos, em simultâneo, num espaço ocupado.
– Poxa, pá.
Não via, mas percebeu, pela centrífuga inclinação do carro, que contornavam a rotunda da praça dos heróis. Lembrou-se que era véspera do dia dos heróis. Foi se distraindo do aperto, imaginando as cerimónias enfadonhas de homenagem, as coroas de flores insípidas, a banda militar sonolenta, as poses ridículas para as televisões. Subitamente, as nádegas à janela, expostas para a praça, ganharam sentido e deram-lhe gozo.
O cobrador assobiou, o chapa chiou e travou sem dó. Mais um passageiro. O tom das reclamações cresceu como trombones de uma orquestra murmurante. Tinha as bochecha encostadas às partes formais de outros passageiros. Com as trepidações, gases íntimos escapavam. Asfixiado, ensardinhado e a cozer com o calor, rebuscou o fundo do baú dos seus direitos e explodiu:
– Não nos apertem, pá!
O motorista, de boné invertido e palito na boca, virou-se, sarcástico:
– Estamos todos no aperto, papá.
– Mas nós não somos sardinhas, pá!
Endireitou o palito na boca, sorriu e respondeu:
– Não somos sardinhas, somos atum.
Risos resignados aliviaram o aperto. A viagem estoica prosseguiu em silêncio. O dia seguinte seria dos heróis. Os outros, dos anónimos.







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