XIPIKIRI
Era noite. Olhou, pela janela, para o quintal e constatou: não há ntseke!, aquele capim simpático, espontâneo, que surge em qualquer canto.
Interrompeu a ordenha. Arrancou, a jeito, o seio farto da boca gulosa da cria. Ouviu-se um chupão demorado, a chucha do mamilo a soltar-se dos beiços. O leite respingou. A cria reclamou com um choro lânguido. Com a capulana mais à mão, belecou o bebé, de modo que parecia um canguru com a bolsa às costas. Nenhum bebé resiste ao embalo da beleca, adormeceu. Deitou-o ao lado dos outros filhos, num colchão de esponja, embrulhado na capulana que o ninava, puro como Jesus, no primeiro sono, sobre a palha do estábulo.
Olhou à volta, para o expediente de tarefas domésticas que por ela esperavam. Numa bacia sem cor, um amontoado de roupa por lavar. Do lado da casa que servia de copa, outra bacia com loiça usada. As baratas passeavam por ali, impunes. Experimentou a sorte na torneira da rede pública: nem uma gota, há dias. Num canto, por cima da geleira avariada com oscilação indelicada da corrente eléctrica, havia uma lata de café, com rótulo desbotado, cheia de amendoim pilado, tempero infalível que faz milagres e transforma folhas verdes em refeição. Olhou para as panelas, uma para o arroz e outra para o caril, tristes de tão vazias. Precisava inventar ingredientes para a refeição. Foi nessa altura que olhou para a janela, para o quintal e percebeu que, por causa da estiagem, não havia sinais de capim, não havia ntseke.
Sentiu aquela comichão que dá no couro cabeludo quando o motor do cérebro carbura intensamente, tentando decifrar incógnitas. Coçou-se na raíz delicada das mechas, com jeito para não desfazer as tranças. Pensou. Sabia que podia lavar-se e lavar os filhos à saliva, com a língua, ao jeito delicado dos gatos. Poderia dar-lhes de beber pelos seios e lavar a loiça, a roupa e a casa com as lágrimas. Mas precisaria de dinheiro para lhes dar de comer. Dinheiro!!!
Havia uma garrafa antiga de refrigerante, das de dois litros, com água para se beber, até à metade. Despejou no balde, juntando à sobra de água usada noutros banhos. Com sabão à medida, sentiu a caneca a ranger o fundo do balde cheio de quase nenhuma água. Aquela pouca água, muita para os dias de hoje, valia mais do que todos os mares juntos. Bem gerida dava para higienizar os quatro cantos do mundo do corpo, as entranhas prioritárias, os vales incontornáveis, os golfos cheirosos, o triângulo das bermudas...
Vestiu trajes do tamanho que favoreciam os mosquitos. Cobriu-se, com uma capulana, dos mosquitos e dos olhares. Certificou-se de que o bebé não acordava. Beijou os filhos com um olhar. Rodou o prego dobrado que servia de fechadura. Abriu a porta. Com o jeito de não acordar as crianças a dobradiça não chiou. A luz amarela da lâmpada incandescente, batia-lhe as costas e projectou a sua sombra no pátio. Com outro jeito meteu a mão pela rede furada da janela e trancou o prego. Vinha com os sapatos na mão para pisar em silêncio. Calçou. Subiu num salto alto, muito alto. Saiu altiva para rua e enfrentou a noite.







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