Percebeu que eu estava a olhar para ele. Virou-se, lentamente, para se certificar. A cabeça, uma elipse achatada pela pressão de ideias contrárias à revolução, rodou sobre o colarinho suado. O cabelo, muito curto, e puído pelos anos, já não cobria o coro. As orelhas espevitadas eram duas conchas e pareciam ameijoas antenadas. As pálpebras mortiças, descaíam sobre os olhos enormes à meia haste. A boca desenhava um arco acompanhando as rugas simétricas que desciam do nariz gordo, passavam pelo canto tortuoso da boca e desfazia-se no queixo pequenino, inexistente.
Não tive dúvidas. Era ele, Xiconhoca, “o inimigo do povo”, herói da minha infância, na época em que os heróis vinham da banda desenhada. Naquela época, ninguém tinha nada e todos queriam ser como nos desenhos do Xiconhoca. As montras e prateleiras andavam vazias, mas o Xiconhca tinha carros de luxo, os bolsos a abarrotar de dinheiro, uma garrafa de cerveja sempre à mão, trajes descontraídos, altas calças à boca de sino ou bermudas ximoloanes, uma flor no canto da boca a denunciar boa vida, óculos escuros comprados no estrangeirto e... mulheres!!!
Pestanejou lentamente. Desviei o olhar quando senti o peso daqueles olhos de mosca. Eram vinte em ponto, hora universal do noticiário na Tv. O barman, com uma mão na torneira de cerveja, fez-se ao controle remote como se manejasse uma pistola e incendiou o volume pela sala inteira. Todos os olhares espetaram-se na televisão. Todos menos o do Xiconhoca.
Levou a mão aos bolsos do casaco com gestos sem pressa e trouxe uma caixa de fósforos. Raspou um palito com as mãos trémulas e deu função ao cigarro pendurado no canto da boca. Ajeitou as persianas das pestanas para filtrar a fumaça dos olhos. Tragou o cigarro com apetite de chaminé e ficou a olhar para o copo como se no líquido passasse um filme de memórias.
– É sempre o raio da política que abre os telejornais –, comentou alguém, em tom de reivindicar o custo de vida. Xiconhoca levou à boca o copo de whisky barato com gestos delicados dos bons whiskys de outros tempos e disse “hmmm!”, quando noticiaram o desvio de grandes quantidades de medicamentos.
Raspou a pele com os cascos das unhas, quando coçou os tufos tímidos dos pêlos crespos que no desenho eram apenas pontinhos. O apresentador deu ênfase à voz quando falou dos negócios na bacia do Rovuma. Há muito que o cigarro, entre os dedos, pedia um cinzeiro. A cinza aguentava-se na ponta do cigarro e fazia um arco desesperado, resistindo à gravidade. O noticiário crescia, depois do primeiro intervalo para publicidade, veio a notícia das madeiras. Alguém sobressaltou-se:
– Incinerar madeira apreendida?!!! Em vez de construir carteiras para as escolas...
Xiconhoca suspendeu o gesto de levar o whisky à boca e deu um trago lento, mas intenso, no cigarro. Virou-se lentamente e arremessou os olhos enrugados na televisão, movido por um instinto muito treinado. Um felino, ainda que velho, sem garras e a dentadura cansada, reage ao instinto predador.
Largou o copo de whisky. Levou a mão trêmula ao bolso. Fez um telefonema.







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