Depois do amor, a respiração ofegante amansava o animal em nós. Éramos moluscos esparramados pela cama. Senti-lhe o corpo almofadado a adoçar-me a pele, num deslize lubrificado ao suor, sobre as grelhas delicadas das minhas costelas. Rebuscou os fios longos de cabelo postiço que se colavam à humidade. Algemou-os com aquele elástico que as mulheres têm sempre à mão para disciplinar os cabelos. Deitou a cabeça nos tufos crespos do capim que me acontecem no peito, naquela posição submissa que faz um homem, mesmo magro como eu, sentir-se gigante. O carinho felino das unhas crepitou no arame dos meus pelos. Um mosquito inconveniente zumbiu adulterando o silêncio. Quase adormeci no conforto daquele peso doce.
– Maluco – disse-me naquele tom tolo, de amantes.
Quis levantar-se, detive-a reforçando o abraço.
– Tenho de ir, pai.
Pronunciou “pai” com tempero na voz. O tom despertou em mim aquilo que a submissão feminina causa nos homens. Chamei-lhe, com um gesto viril, para mais perto. Ficamos com a respiração a bater no rosto um do outro. Fechou os olhos e obrigou-me, com alguns gestos, a fechar os meus. Reconheci nela a habilidade feminina para as tarefas domésticas quando começou a ralar o coco como se eu fosse um ralador imóvel, passivo. Manuseou o pilão com vigor, triturando os alimentos. Moeu à mbenga e mexeu, na panela, o caril, com a colher de pau. O calor intensificava-se. A panela fervia, começou a espumar e transbordou.
Deixou-me estar como roupa no estendal, numa tarde sem vento. Saltou da cama, fugindo do sono da preguiça pós amor. Vi-a, com meio olho e a pálpebra pesada, a recolher as saquetas do amor usadas, para o lixo. Retirou da bolsa uma capulana, deslizou até à casa de banho. Ouviu-se a torneira, a água e outros sons que perfazem a música típica da higiene feminina. Voltou secando as partes húmidas à capulana. Dobrou a capulana molhada para um saco plástico e depois para a bolsa. Untou-se em cremes como se acariciasse o corpo com manteiga. Recuperou um a um os trajes espalhados pelo quarto ao jeito das colheitas na machamba. Vestiu o delicado lego de roupas, primeiro as peças anteriores à interior. Demorou-se naquelas que moldam as protuberâncias, seguram as partes pendentes e confrontam a gravidade. No final meteu-se num vestido de capulana e enrolou outra na cabeça, reforçando o mito do dia sete de Abril ser um dia de muita capulana.
O telefone acendeu, em silêncio. Olhou e ignorou. Atirou-o para o confim da bolsa, lá onde moram os mais místicos segredos femininos. Sentou-se na borda da cama. Passou a mão pelo meu tronco nu, chamando-me do sono, sem dizer uma palavra. Percebi. Estendi o braço até onde as minhas calças tinham caído. Nos bolsos a carteira. Da carteira algumas notas e, num gesto que me consolidava a virilidade, dei-lhas.
– Feliz dia da mulher.
O rosto floriu com a primavera que o dinheiro causa no humor delas. Bamboleou até a porta. A dobradiça chiou. A luz de fora entornou-se quarto adentro. Vi a sombra dela desaparecer para a luz. A porta fechou-se, lentamente, ao ritmo das minhas pálpebras e eu adormeci.







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