Vou mesmo começar do “começo”, do ponto de partida, quando o meu relaxamento foi violentamente sacudido para lá do infinito, onde a ordem e ritmo não têm lugar. Era dia 23 (terça-feira) e no meu pensamento habitava a ideia de uma viagem nos próximos seis dias. Uma viagem que iria romper com a barreira da tela da tv para ver os líderes africanos que ainda não conhecia. Um face to face com os mesmos estava cada vez mais próximo, por isso, a expectativa não dava lugar a um sono tranquilo. Mas, seis dias era muito para alimentar tanta euforia, por isso, deixei a calma aproximar-se e o juízo concentrar-se no trabalho do dia-a-dia.
Mas, era paz de mais para ser verdade. De repente ecoa um som que me agrada ao ouvido e que vezes sem conta os que me procuram dão-me o prazer de o ouvir. Não tenho dúvidas, é o meu celular a tocar. Atendo, e a voz que se ouve do outro lado da linha dá-me uma outra informação: “a vossa viagem será sexta-feira (dia 26), e como vão escalar Paris, devem tratar o visto da França amanhã, porque quinta é feriado(25 de Junho) e não será possível...”. Não sei porquê, mas a notícia não me agradou. De 29 a 26 foi adiantar demais os dias, apesar do gosto que fazia em cobrir a XIII Cimeira da União Africana, que afinal só iniciava 1 de Julho, entretanto, era antecedida de outros eventos como XI Sessão Ordinária do MARP e XV do Conselho Executivo, entre outros.
O dia chegou e a hora combinada já estava no aeroporto para o check in. Os outros colegas chegaram e como que por inércia sentámos todos muitos próximos, aguardando a hora do voo. Uma espera que me proporcionou testemunhar a sofisticação da mendicidade. Um jovem que ao invés de usar os tradicionais gestos para pedir, aproxima-se a nós com um papel A4 nas mãos, bem dobradinho, como se de uma encomenda se tratasse, escrito em português e em inglês o pedido de esmola. Quis pensar que ele tivesse se sentado num computador para redigir aquele texto ou que alguém o tivesse feito por ele, mas preferi congelar a situação para uma análise numa outra oportunidade. Os colegas também não se comoveram com o pedinte e passou por nós sem lograr os seus intentos.
Seguiu-se a espera. Entre silêncio e meias palavras eis que outro som se produz e gera piada. Uma garafa de cerveja de um dos colegas (bem informado sobre o destino – não há consumo de álcool na líbia) cai e entorna-se pelo chão, enquanto o dono lançava, sem muito sucesso, a mão para inverter a posição da garafa e minimizar o prejuízo.
Na tentativa de negar o acaso e quebrar o silêncio, gozo perguntado se aquilo era uma forma disfarçada de fazer o Kuphalha e pedir protecção aos deuses na presente viagem. E mais: perguntei se a sua protecção significava desviar eventual maldade para os outros. Seguiram-se risos, pequenas réplicas da piada e um negar tímido do autor.
Passaporte moçambicanonãoé conhecidonaHolanda
A viagem iniciou. Maputo-Joannesburgo, tranquila; Joannesburgo-Paris, também tranquila, mas Paris-Amsterdam, o mal levanta-se e age. Depois de noutros voos estar sempre próxima da classe (jornalistas) eis que vou parar numa fila com outras figuras da delegação. Uma com passaporte rocho, outra com passaporte verde e eu com azul, mas todos nós moçambicanos, aguardo pela vez, isto é, atento ao next que não tarda a chegar. O do verde aproxima-se e em nada encanta a loira holandesa que se ateve apenas no passaporte. De seguida perguntou se estávamos juntos. Retorqui, aproximando-me para entregar também o meu. Perguntou se ele era meu marido? Na verdade, nem sequer sabia que fazia parte da delegação pelo que exitei em responder e a jovem de passaporte diplomático aproximou dizendo que éramos todos colegas e também entregou o seu. Três passaportes moçambicanos diferentes. Eis que o show começa. aloira diz que não conhece passaportes moçambicanos, e com ar de poder, acrescenta que teríamos que aguardar pelo teste de confirmação da autenticidade dos mesmo. Chamou o chefe, explicou-se e entregou. Este aceitou a suspeita e encaminhou-os para o referido teste. Tentámos sem sucesso explicar que fazíamos parte de uma delegação..., que tínhamos o voo para a capital Líbia, Tripoli, a partir nos próximos 10-20 minutos, mas em nada nos valeu. Aceitámos a situação, demos sinal a outros colegas, que passaram em outras filas, também com passaportes moçambicanos, para avançarem sob risco de ficarmos todos retidos.
Depois de 10 minutos passarem devolveram-nos os passaportes. Exigímos um documento que confirmasse a autenticidade para nas próximas situações apresentarmos. Derram-nos arrogantemente. Tentámos sem êxito correr para pegar o avião. Era tarde. As nossas malas já haviam sido retiradas. Voltámos e pensamos: voltar a Maputo ou tentar outros voos. O choque não dava lugar a decisões acertadas. Mas a calma não tardou a aparecer e junto com ela a consciência de que alguém tinha que arcar com aquele prejuízo e nós é que não seríamos. Seguiu-se a reivindicação juntos dos serviços de migração, onde afinal tudo começou para se parir este drama. Primeiro, houve recusa ludibriosa, mas não aceitámos digerir e pedímos para falar com o seu superior. Depois de nos ouvir reconheceu a falha da sua equipa e tratou de providenciar tudo que tínhamos direito. Até porque uma outra passagem já nos tinha sido atribuída por uma funcionária que compreendeu de imediato que éramos vítimas do sistema.
Ficámos estrelas do dia porque quase todos os funcionários queriam saber quem eram as pessoas que estavam a mexer com o aeroporto naquele dia. Sorry for all, sorry for all..., eram as palavras que ouvíamos repitidas vezes do senhor que antes apenas dizia que estava a cumprir com os procedimentos administrativos e que não podia assumir as despesas porque não tinha cash flow. Tivemos direito a um dia em Amsterdam, que pelos vistos, foi arcado por ele. Deixamos o aeroporto em direcção ao hotel e mais desculpas se ouviam... Enfim, apesar do stress causado sentímo-nos recompensados.
No dia seguite, outra jornada. Ao invés de voo directo a Tripoli, tínhamos que escalar Roma e depois Tripoli. O tempo de escala era tão curto que para apanhar outro voo tivemos que experimentar as sensações de Lurdes Mutola nos 800m de corrida. Aquilo foi descer numa extremidade do aeroporto e dirigir-se para outra quando, no altifante, já anunciavam last call for Tripoli. O medo de perder novamente o voo quase que cortava a respiração, mas não foi desta. Uff, finalmente deixamos Europa e regressámos a África, isto é, rumo ao destino: Líbia.







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