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Quinta-feira
03 de Dezembro
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Início Opinião Olívia Massango De Moçambique à Líbia: os desencantos de uma doce viagem (1)

De Moçambique à Líbia: os desencantos de uma doce viagem (1)

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Vou mesmo começar do “começo”, do ponto de parti­da, quando o meu relaxamento foi violentamente sa­cudido para lá do infinito, onde a ordem e ritmo não têm lugar. Era dia 23 (terça-feira) e no meu pensa­mento habitava a ideia de uma viagem nos próximos seis dias. Uma viagem que iria romper com a barreira da tela da tv para ver os líderes africanos que ainda não conhecia. Um face to face com os mesmos estava cada vez mais próximo, por isso, a expectativa não dava lugar a um sono tranquilo. Mas, seis dias era muito para alimentar tanta euforia, por isso, deixei a calma aproxi­mar-se e o juízo concentrar-se no trabalho do dia-a-dia.

 

Mas, era paz de mais para ser verdade. De repente ecoa um som que me agrada ao ouvido e que vezes sem conta os que me procuram dão-me o prazer de o ouvir. Não tenho dúvidas, é o meu celular a tocar. Atendo, e a voz que se ouve do outro lado da linha dá-me uma outra informação: “a vossa viagem será sexta-feira (dia 26), e como vão escalar Paris, devem tratar o visto da França amanhã, porque quinta é feriado(25 de Junho) e não será possível...”. Não sei porquê, mas a notícia não me agradou. De 29 a 26 foi adiantar demais os dias, apesar do gosto que fazia em cobrir a XIII Cimeira da União Africana, que afinal só iniciava 1 de Julho, entretanto, era antecedida de outros eventos como XI Sessão Ordinária do MARP e XV do Con­selho Executivo, entre outros.

 

O dia chegou e a hora combinada já estava no aeroporto para o che­ck in. Os outros colegas chegaram e como que por inércia sentámos todos muitos próximos, aguardando a hora do voo. Uma espera que me proporcionou testemunhar a sofisticação da mendicidade. Um jovem que ao invés de usar os tradicionais gestos para pedir, aproxi­ma-se a nós com um papel A4 nas mãos, bem dobradinho, como se de uma encomenda se tratasse, escrito em português e em inglês o pedido de esmola. Quis pensar que ele tivesse se sentado num com­putador para redigir aquele texto ou que alguém o tivesse feito por ele, mas preferi congelar a situação para uma análise numa outra oportunidade. Os colegas também não se comoveram com o pedinte e passou por nós sem lograr os seus intentos.

Seguiu-se a espera. Entre silêncio e meias palavras eis que outro som se produz e gera piada. Uma garafa de cerveja de um dos co­legas (bem informado sobre o destino – não há consumo de álcool na líbia) cai e entorna-se pelo chão, enquanto o dono lançava, sem muito sucesso, a mão para inverter a posição da garafa e minimizar o prejuízo.

 

Na tentativa de negar o acaso e quebrar o silêncio, gozo pergunta­do se aquilo era uma forma disfarçada de fazer o Kuphalha e pedir protecção aos deuses na presente viagem. E mais: perguntei se a sua protecção significava desviar eventual maldade para os outros. Se­guiram-se risos, pequenas réplicas da piada e um negar tímido do autor.

Passaporte moçambicanonãoé conhecidonaHolanda

A viagem iniciou. Maputo-Joannesburgo, tranquila; Joannesburgo-Paris, também tranquila, mas Paris-Amsterdam, o mal levanta-se e age. Depois de noutros voos estar sempre próxima da classe (jorna­listas) eis que vou parar numa fila com outras figuras da delegação. Uma com passaporte rocho, outra com passaporte verde e eu com azul, mas todos nós moçambicanos, aguardo pela vez, isto é, atento ao next que não tarda a chegar. O do verde aproxima-se e em nada encanta a loira holandesa que se ateve apenas no passaporte. De se­guida perguntou se estávamos juntos. Retorqui, aproximando-me para entregar também o meu. Perguntou se ele era meu marido? Na verdade, nem sequer sabia que fazia parte da delegação pelo que exi­tei em responder e a jovem de passaporte diplomático aproximou dizendo que éramos todos colegas e também entregou o seu. Três passaportes moçambicanos diferentes. Eis que o show começa. aloira diz que não conhece passaportes moçambicanos, e com ar de poder, acrescenta que teríamos que aguardar pelo teste de confir­mação da autenticidade dos mesmo. Chamou o chefe, explicou-se e entregou. Este aceitou a suspeita e encaminhou-os para o referido teste. Tentámos sem sucesso explicar que fazíamos parte de uma de­legação..., que tínhamos o voo para a capital Líbia, Tripoli, a partir nos próximos 10-20 minutos, mas em nada nos valeu. Aceitámos a situação, demos sinal a outros colegas, que passaram em outras filas, também com passaportes moçambicanos, para avançarem sob risco de ficarmos todos retidos.

 

Depois de 10 minutos passarem devolveram-nos os passaportes. Exigímos um documento que confirmasse a autenticidade para nas próximas situações apresentarmos. Derram-nos arrogantemente. Tentámos sem êxito correr para pegar o avião. Era tarde. As nossas malas já haviam sido retiradas. Voltámos e pensamos: voltar a Mapu­to ou tentar outros voos. O choque não dava lugar a decisões acerta­das. Mas a calma não tardou a aparecer e junto com ela a consciência de que alguém tinha que arcar com aquele prejuízo e nós é que não seríamos. Seguiu-se a reivindicação juntos dos serviços de migração, onde afinal tudo começou para se parir este drama. Primeiro, houve recusa ludibriosa, mas não aceitámos digerir e pedímos para falar com o seu superior. Depois de nos ouvir reconheceu a falha da sua equipa e tratou de providenciar tudo que tínhamos direito. Até por­que uma outra passagem já nos tinha sido atribuída por uma funcio­nária que compreendeu de imediato que éramos vítimas do sistema.

 

Ficámos estrelas do dia porque quase todos os funcionários que­riam saber quem eram as pessoas que estavam a mexer com o aero­porto naquele dia. Sorry for all, sorry for all..., eram as palavras que ouvíamos repitidas vezes do senhor que antes apenas dizia que esta­va a cumprir com os procedimentos administrativos e que não po­dia assumir as despesas porque não tinha cash flow. Tivemos direito a um dia em Amsterdam, que pelos vistos, foi arcado por ele. Deixa­mos o aeroporto em direcção ao hotel e mais desculpas se ouviam... Enfim, apesar do stress causado sentímo-nos recompensados.

No dia seguite, outra jornada. Ao invés de voo directo a Tripoli, tínhamos que escalar Roma e depois Tripoli. O tempo de escala era tão curto que para apanhar outro voo tivemos que experimentar as sensações de Lurdes Mutola nos 800m de corrida. Aquilo foi descer numa extremidade do aeroporto e dirigir-se para outra quando, no altifante, já anunciavam last call for Tripoli. O medo de perder nova­mente o voo quase que cortava a respiração, mas não foi desta. Uff, finalmente deixamos Europa e regressámos a África, isto é, rumo ao destino: Líbia.

 

Fotogaleria: DIA DOS HERÓIS MOÇAMBICANOS

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Fotogaleria :VISITA DE RECEP ERDOGAN A MOÇAMBIQUE

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"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


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