Depois de deixar África na tarde do dia 26 de Junho, só às 12h00 do dia 28 regressei ao meu continente, mas não à casa, e cheguei ao destino, Líbia. Por ser a última aterragem do primeiro round de uma viagem extenuante, foi inevitável um suspiro de alívio. Em passos acelerados para confirmar a certeza de que estava de facto em terra, fez-me desreparar o controlo montado pelo governo de Muamar Kadafi para identificar eventuais casos de Gripe A (H1N1). Uma desatenção também propositada pelo facto de tentar, a todo o custo, evitar emitir sinais de uma gripe que já terminava e temer um provável isolamento que me roubaria o descanso.
Ainda meio ensurdecida pelo ruído produzido pelo aparelho aéreo em movimento, dirigi-me à sala de chegadas, onde fui sacudida por uma crise de existência. Quem sou eu? Onde estou? Para onde vou? Por onde vou? Na verdade, tudo quanto tentava ler como orientação estava escrito num alfabeto que não adivinho letra alguma: árabe. Depois de ter dito meias palavras em inglês, francês e beliscado o italiano nos aeroportos por onde passei, Tripoli tirou-me o norte e, em pouco tempo, senti congelar a minha emoção da chegada.
Olhei para o meu companheiro de viagem e encontrámo-nos em perfeita sintonia num rápido diálogo de mudos, mas comunicativo. Estávamos os dois embasbacados. Espalhei o olhar e vi cópias nossas nos rostos de outras figuras que chegavam pela primeira vez àquele país, também com a Cimeira da União africana como propósito. Acenei para o meu companheiro de viagem e juntámo-nos aos outros que num “tenta sorte” se embrenharam em algumas das filas.
Lembrei-me que alguém aguardava por nós naquele aeroporto e na expectativa de usar o romming para o contactar, tiro o celular da carteira e um golpe ataca minha paz. Não havia rede naquele espaço. Senti-me em órbita, embebedada pela ira de tentar, infrutiferamente, estabelecer comunicação com as pessoas que estavam de serviço e não encontrar língua capaz. Mas um pensamento esperançoso invade-me o cérebro. Renova-se a esperança que, no entanto, não tarda a morrer. Procurar manualmente a rede. Não dá em nada. Deve ser a minha ignorância tecnológica, segredei-me. Olho à esquerda e vejo um angolano pouco aflito a tentar resolver o mesmo problema que eu, depois uma moçambicana. Afinal, não estava sozinha nessa aflição, tudo quanto me atormetava também atormentava os meus semelhantes.
Depois de entregar os nossos passaportes a alguém que parecia indigitado para flexibilizar o atendimento de todos os que ali estavam a propósito da cimeira, aguardámos jogando conversa e piada da situação. Mas a rede não veio. Um a um, ou dois a dois, a verdade é que todos viram os seus passaportes regressar e deixáram o salão onde estávamos. Outro voo chegou. todos foram despachados e, mais um vez, o meu companheiro de viagem de passaporte verde e eu ficámos retidos. Mas desta vez sem saber por que razão, nem onde e como pedir esclarecimento.
Quando a paciência parecia chegar ao limite, eis que o senhor que havia levado os nossos passaportes aparece. confirma que são nossos, entrega-nos e faz sinal para o seguirmos. Depois, pergunta em inglês num sotaque improvisado: journalist? Aceno confirmando. Tenta outras frases, gestos e árabe, mas não houve comunicação.
Chego ao lugar das bagagens e encontro-me com os outros. A jornalista angolana explica-me que os jornalistas devem seguir para Tripoli de avião, segundo os organizadores do evento que íamos cobrir. Segurei a resposta, porque várias interrogações esvoaçavam no meu pensamento. Como seria quando lá chegássemos? Eu não estava sozinha, fazia parte de uma delegação que já estava acomodada em Sirtes. Tinha alguém que não conhecia esperando por mim neste aeroporto. Não falo árabe e os líbios não falam inglês, língua que pelo menos não me deixa sem rumo nas viagens. Também me lembrei que com a outra companheira de viagem (a de passaporte roxo, que não precisou escalar Roma, faria Amsterdam - Tripoli e chegava às 13h45) tínhamos combinado encontrarmo-nos no aeroporto para seguirmos juntos a Sirtes. Imaginei como seria com ela, quando chegasse. Recordei, também, que haviam dito que depois de Tripoli ainda nos aguardavam cerca de 500km de estrada até Sirtes. Uma viagem a qual, apesar do cansaço, anseiava para poder gravar na minha memória várias imagens do país e fugir da possibilidade de regressar apenas com flashs da cidade. Não tive dúvidas. Respondi apressadamente: prefiro seguir de carro. Até porque, como jornalista, é importante que deixe a minha curiosidade alimentada.
Nesse voo iriam também ministros, representantes de chefes de estado e de governo faltosos e outros personalidades. Um “galactismo” que os meus colegas de profissão, que nos deixaram em Amsterdam e chegaram no dia anterior, beneficiaram a contra-gosto, com o agravante de o avião ter sofrido uma avaria em plena descolagem e recuar para uma reparação com os passageiros a bordo. “Aquilo foi um sufoco”. Contaram-nos no reencontro da classe.
Nos minutos seguintes, esforcei-me em, disfarçadamente, me afastar da jornalista angolana para não embarcar com ela. Junto-me ao meu colega de vigem que esboçava um sorriso e levantava o braço gesticulando um cumprimento. Sigo seu olhar e vejo alguém com ares da terra a retribuir. Caminha em nossa direcção e nós na dele, e fico a saber que é a pessoa que aguardava por nós. Fico mais sossegada. Em poucos minutos, fazemos uma síntese, ou melhor, uma mais que síntese, de tudo quanto nos acontecera desde Amsterdam.
A angolana não escapou, até porque não fez esforço de escapar. avançou para um novo voo rumo a Sirtes. Nós agurdámos mais meia hora e a tripla de Amsterdam voltou a encontrar-se.
Entrámos no autocarro alugado para deixar a capital, Tripoli, em direcção a Sirtes. O nosso anfitrião teria que aguardar no aeroporto pela chegada de outros membros da delegação moçambicana. O motorista só fala árabe, a viagem é longa. Como pedir para parar quando quiséssemos usar uma casa de banho. O colega de sexo masculino poupou-se de um diálogo de surdos e gesticulou. Houve comunicação. Para a refeição já nos tinham alertado que a expressão era “mandjeria”. E resultou.
A viagem foi tranquila. Casas modestas, deserto de sahara, camelos, árvores típicas da região, entre outras coisas faziam a paisagem, enquanto o motorista pisava o acelerador a fundo, sem, portanto, nos intimidar, porque desta dez a viagem não nos afasta do chão. Até porque o piso era novo ou em condições favoráveis de transitabilidade.
Chegámos enquanto o sol já se tinha recolhido, mas o líder líbio fez questão de montar pequenas luzes que ornamentavam a cidade e faziam qualquer um sentir-se saudado e bem recebido. A acomodação também denunciava o seu esforço em ser bom anfitrião.
Enfim, o sono só não pôde ser profundo, porque a missão chamava a ansiedade pelo amanhecer, para pôr mãos à obra. Entretanto, houve espaço para um pequeno pesadelo que tentava trazer uma explicação para a cerveja perdida o aeroporto de Mavalene. Que frustração. Despertei sem perceber!
De regresso a casa, piadas não faltavam. Nos aeroportos, a tripla de Amsterdam era vítima: “vocês têm xipocos”







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