Nunca podemos ter um saber seguro acerca de algo que se transforma,
Platão
Kadafi deve ser um louco, mais que louco! Pensei baixinho enquanto iniciava um diálogo sem receptor com o meu pensamento diante dos primeiros 100km que percorri depois de deixar a capital líbia, Tripoli, a caminho de Sirtes, cidade que acolheu a XIII Cimeira da União Africana.
Cerca de 500km depois, cheguei a Sirtes, com o agravante de a recepção alimentar ainda mais o meu delírio são. Sirtes era uma cópia exponencial do espanto de Tripoli. Chamei pela razão e esta pediu cautela às teses precoces que se formavam no meu consciente. Acatei, aguardando por mais provas para refutar ou validar a hipótese.
Depois de uma noite tomada pela ansiedade e por isso mal dormida, acordei com a curiosidade de fazer a acreditação para circular livremente no mais novo espaço de trabalho: Centro de Conferência Ouagadougou. Assim que fiz, procurei pela agenda. Achei e segura de já estar por dentro das coisas acalmei os ânimos e por isso me danei.
Na altura ainda muitos preconceitos bailavam no meu pensamento numa festa sem identidade, alimentada pelas imagens de Kadafi, que espalhadas por quase toda cidade deixavam passar várias mensagens. Algo exagerado e extravagante, mas não despropositado. Poses diversas e distintas, mas com um único objectivo. Despertar a atenção de qualquer um, que mesmo sem querer era obrigado vê-lo, dada a localização estratégica das mesmas (quase que a cada 500 metros das avenidas que davam acesso ao Centro de Conferência estavam reforçadas, no próprio centro de Conferência, no aeroporto, ou melhor, um pouco por todo o país, ou pelos caminhos por onde poderiam passar os visitantes).
A intenção de apelo para uma reflexão sobre o Governo de União Africana e a de provável líder desse governo estava implícita. Em cada foto ou estava mais saliente a ideia de um futuro próspero (com um olhar esperançoso lançado sobre o horizonte), ou a necessidade de união entre os governos (onde as mãos entrelançadas evidenciavam um casamento indissolúvel e a expressão facial denunciava a convicção da necessidade e longividade desse laço, numa espécie de adaptação perfeita do yes we can de Barack Obama).
A agenda estava enriquecida: encontros dos ministros da Agricultura, XI Cimeira do MARP, XV Sessão Ordinária do Conselho Executivo, entre outros, e por fim a XIII Cimeira da União Africana. Mas, o Conselho Executivo é que tinha uma missão espinhosa: dar respostas aos obstáculos à criação da Autoridade da União Africana.
Kadafi, na qualidade de presidente em exercício da União Africana não dispensou sua presença neste evento. Até porque precisava refrescar a memória dos membros sobre a necessidade de se transformar a Comissão em Autoridade e namorá-los para que esta se revestisse de plenos poderes executivos e ainda, que estivesse dotada de todas as prerrogativas. E sem escrúplos apelou para a absorção, pela nova estrutura, de órgãos do Conselho Executivo (CE), Conselho de Paz e Segurança (CPS), e Nova Parceria para o Desenvolvimento de África (NEPAD), bem como o desaparecimento puro e simples do Comité dos Representantes Permanentes (COREP). Uma vontade que ao ser aceite, seria um passo bem gigante para o nascer de uma nova era rumo à criação de Governo Africano.
Mas porque a sua merenda não era fácil de digerir, não tardou a disconfigurar a agenda. Interrupções e atrasos inesperados viraram norma. Uma lógica desistruturada de gerir seus homólogos, apimentada com o facto de o relógio não existir em canto algum do Centro de Conferência, se não nos pulsos e telemóveis de individuais. Sendo que os encontros registavam atrasos de cerca de duas horas para iniciar e terminavam em hora incerta. Como consequência, e já com o cúmulo da insistência, numa espécie de prolongamento imposto, aos ministros dos Negócios Estrangeiros e Chefes de Estado e de Governo tiveram, depois da data prevista para o fim da sessão do Conselho Executivo, um encontro relâmpago por volta das 02h00 até as 04h00 da manhã. Não tive dúvidas e consolidei as minhas suspeitas: kadafi é um louco! Aliás, já era comum bulícios desta natureza e eu não me distanciei deles, mas também não validei a hipótese, esperei por mais.
Na verdade imaginava como seria quando seu sonho fosse concretizado? Moçambique seria província, distrito, vila, ou localidade? E Líbia, seria capital política ou económica? Como funcionaria o exército? Como ficariam equacionadas as diferenças socioculturais e económicas? Não encontrava resposta tranquilizadora e redobrava o murmúrio. Kadafi é um louco! Mas continuava sem legitimar esta ideia.
Entretanto, já no último dia, feliz com ideia de regressar à casa e com o pensamento mais relaxado, eis que começo a ver o que antes vi e não entendi. Deixei Sirtes em direcção a Tripoli revisitando os anteriores cerca de 500Km e um outro pensamento se aflora no meu juízo. Kadafi pode ter razão? Mas como? Se nem esforço para que haja comunicação entre líbios e outros africanos falantes de outras línguas existe?
Pela paisagem em metamorfose que o país apresenta, num claro investimento em infra-estruturas com vista a alavancar o seu crescimento, fica sem dúvidas evidenciado que aquele país tem um sonho a crecretizar, um destino a chegar, e quem sabe uma África a Unir?
Só que o modelo de união desenhado não tem padrinhos capazes de o levar a migrar para o plano prático. E a “solteirice” deste sonho deixa-o encubado na eternidade da dúvida (quando afinal haverá condições de facto para África se Unir?).
Kwane Nkrumah também viveu as mesmas incompreensões na sua época ao defender o “Africa Must Unit”, hoje reeditada por Kadafi. Sócrates, Galileu Galilei também não foram comprendidos na sua , ou se lhes negou a compreensão. E a semelhança destes, renasce a certeza de que a solteira razão de kadafi só terá par para o matrimónio quando esta geração já não existir. Aí sim, Kadafi será herói incostestável de África sem que as razões que ditavam o adiamento da concretização do seu sonho tenham lugar no campo dos critérios de avaliação.
Enquanto esse dia não chegar, que avance em miniatura no seu país e que nos poupe de embarcar na sua loucura de criar um Deus na Terra, o senhor dos senhores, porque não queremos viver para intenção criando reis na barriga de alguém. Por ora vamos manter esse fim (unir África), e quando o momento propiciar quem sabe...







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