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Quinta-feira
03 de Dezembro
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Início Opinião Olívia Massango O povo não é distraído

O povo não é distraído

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Atordoada com factos que fazem o quotidiano de muitos moçambicanos, decidi romper o silêncio da minha coluna de opinião, “Palavras sem Algemas”, e deixar os verbos conjugarem-se na apreciação do real. Podia reestrear-me com o tema da tensão político-militar, que é o drama mais arrepiante da actualidade nacional, mas pelo tiros que soam em Gorongosa, não faltará pano para manga.

O pontapé de saída vai para o horror da transitabilidade no país, a sinistralidade rodoviária e a paciência cancerígena dos automobilistas e passageiros. Se, no passado, a expressão “hora de ponta” tinha um sentido claro e inequívoco, hoje, a vulgaridade transformou-a num novo conceito: dias de ponta. Com a excepção dos domingos e madrugadas, o transtorno da circulação rodoviária é o pão nosso de cada dia, completamente amaldiçoado. No Maputo, que o digam os que vivem nas zonas periféricas, onde 10 ou 20 Km se transformam em 100 ou 200 Km de distância. Fazer Maputo-Gaza é mais rápido do que fazer, por exemplo, Zimpeto-Cidade de Maputo. O mal maior está na ausência de perspectivas.

Blindados pela protecção policial, os altos dirigentes circulam com escoltas e têm as estáticas colunas de viaturas como paisagem fictícia. Nem lhes desperta a inteligência de pensar no futuro, quando todas essas regalias a expensas do povo deixarem de existir. Aliás, isso é motivo para se afundarem cada vez mais no egoísmo. Enfim, isso é matéria para outra opinião.

Outra preocupação vai para os acidentes de viação, que só no mês de Março tiraram a vida a mais de 20 pessoas, na cidade e província de Maputo, número que veio quase a triplicar nos dias subsequentes. Inúmeras são as razões que se podem arrolar: corrupção na obtenção de cartas de condução, má qualidade de formação, má qualidade das vias, má sinalização rodoviária, desrespeito pelo Código de Estrada (excesso de velocidade, condução em estado de embriaguez, etc.), deficiente manutenção das viaturas, etc., mas a verdade é que a raiz do problema não reside no problema em si, mas na impavidade e serenidade com que se convive com ele. Até o Presidente da República teve a coragem de se acomodar em apontar prováveis razões (“uma das causas que não podemos ignorar é formação dos que andam a fazer acidentes...”), como se o povo o tivesse eleito para o ajudar a lamentar, e com isso denunciar o monstruoso tempo em que isto se vai arrastar. Mas porque o povo não é distraído, um dia a história será reescrita para se sair dos caos...

Já os automobilistas e passageiros são muito obedientes no cumprimento das obrigações, mas completamente pacíficos na exigência dos direitos. Mas não se enganem os nossos dirigentes, porque no “dia do basta” não haverá instrumento de poder que os trave. Uma das provas mais gritantes desta afirmação está na degradação das estradas, até na que se paga para se circular com segurança. Falo da Estrada Nacional N4, no troço Tchumene-Moamba, que proporciona uma viagem “inesquecível” de solavancos ininterruptos e prejuízos monetários pela morte acelerada a que as viaturas se sujeitam quando por lá circulam. A estrada é uma paisagem angustiante, que embora tenha dias contados, devido às obras de reabilitação, colocou à prova a paciência dos moçambicanos por mais de dois anos. E a martelada vem quando, depois de percorridos cerca de 30 Km de sofrimento em direcção à vila de Ressano-Garcia, se vislumbra uma portagem, consubstanciando um insulto à inteligência dos automobilistas. E a cereja no topo do bolo é a aparição de um polícia de trânsito a escassos metros da portagem a exigir toda a documentação obrigatória para a circulação na via pública, incluindo ficha de inspecção...

Quando se está no sentido contrário, uma vez paga a portagem e exibida toda a documentação à polícia, os murmúrios de desabafo a cada baloiçar indesejado da viatura aguçam a ira, cujo estrondo será quando menos se esperar, porque o povo não é distraído, só não se precipita na reacção. Portanto, ainda há tempo para se acordar do filme de ficção, onde o triunfo gravita apenas do lado do poder, e deixar a música soar para todos os moçambicanos.

 

Fotogaleria: DIA DOS HERÓIS MOÇAMBICANOS

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Fotogaleria :VISITA DE RECEP ERDOGAN A MOÇAMBIQUE

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"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


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