É para a praia da Costa do Sol que muitos correm para despistar o calor quando o sol abrasador invade Maputo, ou até mesmo para despistar o ronco do estômago que lembra fome e pobreza.
É para lá que muitos correm para afogar o stress de uma jornada laboral pesada ou de um casamento tombado no divórcio ou condenado ao fracasso. É para lá que muitos correm não somente para se libertarem dos males da vida,como também para celebrarem momentos ímpares (casamento,baptismo, aniversário, etc.). Mas o que ninguém sabe é que também se tornou o caminho da morte ou, simplesmente, convite indesejado para o eterno descanso.
Outrora descrita como palco da imundície, é agora também palco da morte, somando assim os adjectivos depreciativos. Actualmente,as ondas tombam ininterruptamente em direcção à praia, escondendo armadilhas de covas e pedras, criadas na tentativa de melhorar a praia, quase moribunda de tanta erosão que sofreu. Entretanto, os fins não justificam os meios. O trabalho está a ser feito sem respeitar um dos direitos fundamentais e consagrado na Constituição da República (artigo 40): o direito à vida.
No passado dia 20, quatro pessoas morreram afogadas nas águas da Costa do Sol, depois de se precipitarem sobre as covas e não conseguirem libertar-se. O luto e dor trouxeram ao de cima a irresponsabilidade da empresa que está a executar a obra e das instituições que a deveriam fiscalizar, garantindo que o processo não constituísse ameaça à vida. O Município da Cidade de Maputo é o dono das obras e, portanto, o principal responsável. Esquivando-se desta responsabilidade,quando convidado a esclarecer o assunto na última segunda-feira,o edil da cidade, David Simango, disse que até ao dia seguinte alguém do município iria dar explicações – o que não aconteceu.
Ontem, num jogo de insistência da imprensa, disse que uma comissão de investigação foi criada e hoje daria uma conferência de imprensa.
Ora vejamos: tratando-se de vidas humanas, esta letargia em agir e reagir ao problema é completamente despropositada, agravada pelo facto de o perigo ainda ser iminente. Na quarta-feira passada, uma semana depois da tragédia,a primeira placa de perigo foi colocada a mais de 200 metros da zona das covas e pedregulhos;ontem, foi reforçada com outras, mas não facilmente acessíveis aos banhistas que lá se fazem. A Polícia de Protecção Costeira circula sobre a praia inerte, como se as ordens tivessem que emanar dos banhistas.
A cultura do silêncio está tão enraizada nas nossas instituições que alguns dirigentes se esquecem da origem do poder de nos governar e do dever de nos prestar contas.
Urge uma solução, Sr. Presidente,porque o mergulho de quem procura lazer poderá resultar em morte entre pedras ou covas armadilhadas e o corpo emergir, flutuando para os últimos beijos do vento e, quiçá, a sorte de ganhar, no seu túmulo,uma coroa de flores oferecida pelo Município. Nem flores, nem condolências...salve-nos, Sr.Presidente.







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