Palavras sem algemas
O triunfo da verdade foi o que todos nós testemunhámos quando, na última quarta-feira, a Procuradoria-Geral da República, através do seu porta-voz, disse que os exames de autópsia feitos às vítimas de afogamento na praia da Costa Sol indicavam que não houve consumo de álcool. Uma notícia que certamente provocou alterações cardíacas positivas e negativas. Para os familiares das vítimas, com certeza sossegou seus corações tatuados de dor pela perda de um ente querido, cujas feridas foram brutalmente reabertas pelo porta-voz da comissão criada para esclarecer o assunto, quando inescrupulosamente se precipitou em apresentar razões sem investigar. Por isso, para esta comissão, com certeza, as declarações da PGR aceleraram o ritmo cardíaco pela lição que lhes foi dada em público, tal e qual humilharam as famílias com acusações caluniosas, infundadas e indignas das instituições que representavam.
O mais repugnante nesta novela foi a forma como o porta-voz da comissão se apropriou da verdade para proferir inverdades que poderia ter evitado se permitisse à razão agir no lugar das emoções. Aliás, trata-se de uma razão acessível ao senso comum, que fez um julgamento imediato, questionando o fundamento da acusação.
Para o alento de todos, e numa atitude quase que inédita, de tão rara, a PGR surpreende-nos mostrando-se atenta e actuante. Desmentiu a comissão, instou o Município a sinalizar a zona de perigo e prometeu avaliar a existência, ou não, de responsabilidade criminal. O único senão da sua contundente intervenção está na leveza da atribuição do direito de opinar ao membro de uma comissão que representa muitas instituições, incluindo o Município, dono das obras que geraram mortes. É difícil acreditar que se cria uma comissão para tratar do assunto e se aceita que ela apresente apenas opiniões e o faça pública e descaradamente.
Por que razão o presidente do Município não questionou os fundamentos daquela acusação, antes do Município que dirige chamar a imprensa para ventilar vergonha? Por que razão David Simango pediu à imprensa para respeitar o trabalho que esta comissão estava a fazer – assegurando, até, que ela iria fornecer elementos importantes do sucedido –, para depois ouvirmos opiniões?
Esta novela promete ainda muito capítulos, mas, nesta coluna de opinião, gostava que este fosse o último. Se para bom entendedor meia palavra basta, então, por que escrever mais?... Qualquer desenvolvimento não vai apagar, na memória das famílias das vítimas, o golpe da calúnia e a indiferença do Município.







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