Palavras sem algemas
Boom, boommm... 2015! Não tardou eveio o silêncio depoisdo fogo-de-artifício que coloriu os céus na noite de reveillon, acompanhado de gritos de êxtase. No crepúsculo matutino, os sons já vinham revestidos de dor, por mortes em acidentes de viação, e na aurora do primeiro fim-de-semana, por afogamentos na praia da Costa do Sol.
Luto à partida. Mau prenúncio. Diriam os mais vividos.
Remando contra os males, deixamos os dias prosseguirem convictos de que se tratava apenas de ventos que o tempo deixava para trás.
Para a nossa surpresa, somos confrontados com a notícia da detenção de António Muchanga, porta-voz do líder da Renamo, Afonso Dhlakama.
Respeitando as regras do ofício, a STV e O País procuraram obter mais informação e, com espanto, verificámos que as razões não estavam legalmente fundamentadas.
Ouvimos um porta-voz da Polícia dizer, de viva voz, que Muchanga era um fugitivo procurado pelo crime de marcha ilegal e incitação à violência, sem, entretanto, apontar as acções que sustentam a acusação. Até onde sei, quem acusa deve provar.
Com ou sem provas, o facto é que Muchanga foi solto meio dia depois e as inúmeras perguntas que se levantam sobre a legalidade da detenção continuam sem respostas.
Desde a imunidade de que goza, passando pelo cumprimento dos processos até à consumação da detenção.
Isto não foi o bastante para nos agitarmos com as alfinetadas de 2015. A ausência da Renamo nas cerimónias de tomada de posse nas assembleias provinciais, em clara obediência ao comando do líder, tem os seus senãos.
Diz-nos um adágio popular que, para bater num gato, é preciso ter as janelas ou portas abertas, para que tenha por onde fugir, porque não havendo saídas, ele ataca fatalmente. Se os membros da Renamo que não tomaram posse dependem desse trabalho para sobreviver, é importante verificar que portas ou janelas estão abertas para que não recorram à violência para sobreviver.
O secretário-geral da Renamo, Manuel Bissopo, fazendo coro com o líder, justificou o boicote dos membros da Renamo com o facto de não reconhecerem os resultados promulgados pelo Conselho Constitucional, porque, alegadamente, não terá obedecido às regras constitucionais para validar o resultado das eleições de 15 de Outubro. Mais uma vez, a Renamo diz que a saída é a criação de um “governo de gestão”.
Com ou sem razão, o certo é que, até ao momento, nem a “perdiz” nem o líder explicaram aos moçambicanos o que significa um “governo de gestão”, o que significa governar junto. Será o anúncio do fim da oposição? Que oposição se faz à sua própria governação?
Na segunda-feira, tomam posse os deputados da Assembleia da República. A repetir-se o cenário, que as alfinetadas venham, pelo menos, anestesiadas...
PS: Solidarizo-me com as vítimas do ataque à redacção do jornal francês “Charlie Hebdo” e deploro veementemente o acto.







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